Foto: Nico Yak (CC BY) via GBIF
Bugreiro
Lithrea molleoides
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: aroeira-branca, aroeirinha, aroeira, aroeirinha-branca, aroeira-brava, aroeira-de-fruto-branco, aroeira-preta, corneíba
Botânica
Pertencente à família Anacardiaceae e à ordem Sapindales, a espécie tem como nome científico aceito Lithrea molleoides (Vellozo) Engler, descrita em 1876. Ao longo do tempo recebeu diversos sinônimos botânicos, como Schinus molleoides, Rhus clauseniana, Lithraea aroeirinha, Schinus terebinthifolius var. ternifolius, Schinus leucocarpus e Lithraea lorentziana. O nome do gênero deriva de um termo indígena mapuche do Chile (lythri ou llithi), originalmente aplicado a outra espécie do grupo, a Lithrea caustica; vale notar que a grafia correta é Lithrea, e não Lithraea.
Trata-se de uma planta perenifólia de porte variável, que vai de arbusto a arvoreta e árvore, alcançando nos maiores exemplares cerca de 15 m de altura e 40 cm de diâmetro à altura do peito quando adulta. O tronco costuma ser tortuoso e de fuste curto, com ramificação dicotômica. A casca atinge até 10 mm de espessura, tem superfície externa áspera, fissurada e de cor marrom-acinzentada, liberando um exsudato avermelhado. As folhas são alternas e compostas, geralmente imparipinadas (raramente paripinadas ou simples em plântulas e brotações novas), com 3 a 7 folíolos, textura subcoriácea, pecíolo de 2 a 3,5 cm e raque alada de tamanho próximo ao do pecíolo; os folíolos são opostos, oblongo-elípticos, glabros, de ápice agudo-mucronado, medindo de 5 a 10 cm de comprimento por 1,5 a 2,5 cm de largura, com nervuras salientes em ambas as faces. As inflorescências são panículas axilares ou terminais, amplas, frouxas, pauciflora, pilosas, de 2 a 7 cm e forte odor de resina. As flores são pequenas, glabras, sésseis e de coloração amarelo-esverdeada a creme. O fruto é uma drupa globosa a ovóide, semicarnosa, indeiscente, levemente comprimida, de cor esverdeada e cerca de 0,5 cm de diâmetro, contendo uma única semente piriforme, lisa, opaca e de tom amarelo a creme.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa, dura, compacta, pouco elástica, fácil de rachar e de boa durabilidade, sendo aproveitada em postes, mourões, esteios, dormentes, construção civil, marcenaria, obras de torno e obras hidráulicas. Também é valorizada para energia: produz lenha e carvão de alto poder calorífico, e na região de Luminárias (MG) sua lenha é apreciada por gerar boa labareda, pouca fumaça e brasa duradoura. A casca é rica em tanino, o que lhe confere resistência à putrefação e a torna fonte de material tintorial. Já para celulose e papel a espécie é considerada inadequada. Dos frutos extrai-se um óleo essencial, e as sementes têm aplicações semelhantes às da terebintina; convém destacar que a planta é altamente tóxica e o contato do óleo com a pele pode provocar edema e eritema.
Classificada como pioneira, secundária inicial ou clímax exigente em luz, a espécie tem dispersão ampla, porém irregular. Aparece com frequência em capões e nas orlas de campos, muitas vezes ao lado da erva-mate (Ilex paraguariensis), e em formações secundárias prefere as bordas ou os estágios iniciais de desenvolvimento. No bioma Mata Atlântica ocorre em Floresta Estacional Decidual e Semidecidual, em Floresta Ombrófila Densa e em Floresta Ombrófila Mista (de araucária), com densidades que variam de 3 a 115 indivíduos por hectare conforme a formação. No Cerrado é registrada no cerrado lato sensu e no cerradão de Minas Gerais e São Paulo, onde aparece eventualmente. Surge ainda em ambientes ripários, campos rupestres (Serra da Bocaina, em MG, e Pico das Almas, na BA) e capões com Podocarpus lambertii no Rio Grande do Sul.
A floração varia conforme a região: de julho a setembro em São Paulo, em agosto no Distrito Federal, de agosto a outubro no Rio Grande do Sul e de agosto a novembro no Paraná. A maturação dos frutos ocorre de outubro a dezembro em São Paulo, de novembro a março no Paraná e no Rio Grande do Sul, e em dezembro em Minas Gerais, podendo os frutos permanecer por mais tempo na planta.
A espécie é dióica ou polígama e sua polinização é feita principalmente por abelhas, incluindo a Apis mellifera, a irapuá (Trigona spinipes), a jataí (Tetragonisca angustula), a iraí (Nannotrigona testaceicornis), a jataí-da-terra (Paratrigona subnuda), várias espécies de Plebeia e a mirim-preguiça (Friesella schrottkyi). A dispersão dos frutos e sementes é essencialmente zoocórica, realizada pela fauna.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando maduros e, em seguida, expostos ao sol para soltar-se mais facilmente da inflorescência; o epicarpo é então retirado manualmente e as sementes separadas por maceração. Um quilo reúne de 21 mil a 47.800 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. A semente é de comportamento ortodoxo: lotes com 45% de germinação inicial, após secagem e armazenamento a 5 ºC e a -18 ºC, mantiveram respectivamente 46% e 51% de germinação.
É possível semear utilizando diretamente os frutos no lugar das sementes. Recomendam-se canteiros semissombreados com substrato organo-argiloso, cobrindo levemente as sementes e irrigando diariamente; a repicagem é feita quando as plântulas alcançam 4 a 5 cm. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência se inicia entre 8 e 53 dias após a semeadura, com taxas variáveis de 25% a 80%. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 3 meses após a semeadura, com altura média de 28 cm e diâmetro de colo em torno de 3,5 mm, podendo ir a campo quando ultrapassam 20 a 30 cm de altura. O sistema radicular é pivotante, com raiz axial longa, fina e pilosa e muitas raízes secundárias curtas. A espécie apresenta baixa incidência de micorriza arbuscular.
Espécie heliófila e tolerante a baixas temperaturas, deve ser plantada a pleno sol em função de suas exigências de luz. Apresenta hábito tortuoso, sem dominância apical definida, com ramificação pesada e bifurcações, além de desrama natural fraca, o que exige podas frequentes de condução e dos galhos. Tem boa capacidade de rebrota, com brotação vigorosa da cepa ou da touça.
O desenvolvimento é lento. O maior incremento volumétrico médio registrado foi de 2,57 m³ por hectare ao ano, aos 8 anos de idade.
A precipitação anual em sua área de ocorrência varia de 830 mm, na Chapada Diamantina (BA), a 2.500 mm, em Pernambuco, com chuvas bem distribuídas no Sul (exceto no norte do Paraná) e regime periódico nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul e pode ser de pequena a moderada no inverno do Distrito Federal, sul de Goiás, sul de Minas e centro-leste de São Paulo. A temperatura média anual fica entre 13,4 ºC (Campos do Jordão, SP) e 25,5 ºC (Recife, PE), tolerando mínimas absolutas de até -7,7 ºC (e até -11 ºC na relva) e um número de geadas que vai de 0 a 30 em média, chegando a 81 no Planalto Sul-Brasileiro. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Am, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.
Cresce naturalmente tanto em terrenos secos quanto em solos bem drenados, profundos e com umidade suficiente.