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Braúna-preta

Melanoxylon brauna

Fabaceae CaatingaCerradoMata Atlântica
  • até 25 mAltura
  • Grande portePorte
Raras / ameaçadasMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: baraúna, baraúna-preta, baraúna-verdadeira, braúna, braúna-da-mata, braúna-parda, coração-de-negro, pau-ferro, graúna, maria-preta, árvore-da-chuva, canela-amarela, ibiraúna, maria-preta-da-mata, maria-preta-do-campo, rabo-de-macaco

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Seguindo o sistema do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a braúna-preta pertence à divisão Angiospermae, clado das Eurosídeas I, ordem Fabales (classificada como Rosales em Cronquist), família Fabaceae (chamada Leguminosae em Cronquist) e subfamília Caesalpinioideae. A espécie é Melanoxylon brauna Schott, também grafada como Melanoxylon braunia Schott, do gênero Melanoxylon. Entre seus sinônimos botânicos estão Perittium ferrugineum Vogel e Recordoxylon irwinii Cowan. O nome do gênero une os termos gregos para pigmento escuro (melanos) e madeira (xylon), em referência à cor quase negra do cerne; já o epíteto brauna deriva do tupi ibirá-una, que significa madeira-preta.

Descrição botânica

Árvore semidecídua, ou seja, que perde parte das folhas em determinada época do ano. Os exemplares de maior porte alcançam cerca de 25 m de altura e até 180 cm de diâmetro à altura do peito na fase adulta. O tronco é reto ou ligeiramente tortuoso, com fuste de até 12 m. A ramificação é cimosa, e os râmulos apresentam-se ásperos, cobertos por tomento avermelhado e com cicatrizes foliares bem visíveis. A casca tem espessura de até 10 mm; sua parte externa (ritidoma) é parda ou cinzento-escura, rugosa e sulcada no sentido do comprimento, soltando-se com facilidade em lâminas alongadas. As folhas são alternas e compostas imparipinadas, reunindo de 13 a 30 folíolos lanceolado-ovados e assimétricos, de consistência membranácea, margem inteira, ápice acuminado a cuspidado e base obtusa, medindo de 6 cm a 7,5 cm de comprimento por 2 cm a 3,5 cm de largura. A nervação é peninérvea, com nervuras secundárias unidas em arcos marginais (padrão camptódromo broquidódromo) e vênulas reticuladas conspícuas nas duas faces, sem pelos. As gemas foliares são axilares, solitárias e cobertas por pilosidade sedosa e ferrugínea brilhante. A inflorescência forma amplas panículas terminais eretas, de tom avermelhado-tomentoso, com ramos de 10 cm a 30 cm. As flores são vistosas e perfumadas, de coloração amarela com tons alaranjados, sustentadas por pedicelos longos e medindo de 18 mm a 25 mm. O fruto é um legume comprimido e reniforme de 8 cm a 18 cm de comprimento por 3 cm a 4 cm de largura, de superfície ondulada e abertura nas duas laterais por valvas coriáceas. As sementes, solitárias e transversais, ficam envolvidas por um tegumento samariforme em forma de asa truncada; a semente em si é elipsoide e mede de 5 mm a 10 mm.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasapícolaenergia
Produtos e utilizações

A madeira da braúna-preta está entre as mais densas (0,90 a 1,16 g/cm³ a 15% de umidade; massa específica básica de 0,87 g/cm³), com cerne pardo-escuro quase preto e considerado incorruptível, bem diferenciado do alburno amarelo-esverdeado de cerca de 1 cm de largura. Possui superfície lisa e de pouco brilho, textura fina, grã direita ou irregular, e é praticamente inodora e insípida. É reconhecida como uma das mais resistentes ao ataque de organismos xilófagos, mesmo em ambientes úmidos e obras expostas, mas é impermeável a soluções preservantes sob pressão e tida como de difícil secagem e trabalho, embora resulte em acabamento bonito. Um traço marcante de seu lenho são as máculas medulares, conjuntos de células parenquimáticas de função reparadora. Por ser muito densa e de alta resistência mecânica, presta-se a construções pesadas e expostas, postes, esteios, dormentes, vigas, mourões, tacos, assoalhos, pontes, cubos de roda, peças torneadas, folhas faqueadas, cabos de ferramenta, instrumentos musicais e artigos esportivos como bolas. Também é aproveitada como lenha e carvão de boa qualidade, embora seja inadequada para celulose e papel. A casca é fonte de tanino, e as flores oferecem pólen e néctar, com potencial apícola.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie secundária tardia. Apesar de ser planta de floresta primária, é comum encontrá-la também em formações secundárias mais desenvolvidas. Raramente forma agrupamentos densos, ocorrendo de modo disperso pela floresta e associada a outras árvores. Habita o bioma Caatinga (Savana-Estépica, na Bahia), o Cerrado (Cerradão, em Minas Gerais, onde é rara) e, sobretudo, a Mata Atlântica, em Floresta Estacional Semidecidual nas formações Submontana e Montana (Bahia, Minas Gerais e Paraná, com até 24 indivíduos por hectare) e em Floresta Ombrófila Densa nas formações de Terras Baixas e Submontana (Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, com até três indivíduos por hectare). Também aparece em matas ciliares na Bahia, no Espírito Santo e em Minas Gerais, em Floresta Estacional Decidual no nordeste de Goiás e na chamada Mata de Cipó, na Bahia.

Floração e frutificação

A floração acontece de janeiro a março no Rio de Janeiro, de março a junho em Minas Gerais e em maio na Bahia, repetindo-se em intervalos de cerca de dois anos, com sincronia observada entre os fatores climáticos e a fenologia da espécie. Os frutos amadurecem de agosto a setembro no Rio de Janeiro, de agosto a novembro em Minas Gerais e de setembro a outubro no Espírito Santo. A reprodução tem início por volta do quarto ano de vida.

Fauna associada

A espécie é hermafrodita e a polinização ocorre por abelhas e diversos pequenos insetos que visitam suas flores. A dispersão das sementes é autocórica do tipo barocórica, isto é, ocorre por ação da gravidade.

Plantio e silvicultura
Sementes

Quando maduro, o fruto fica marrom-escuro; sua abertura e a liberação das sementes envoltas pelo endocarpo papiráceo indicam o momento certo da colheita. Recomenda-se limpar o entorno da árvore matriz para recolher os frutos derrubados com podão, fazendo a catação e o ensacamento. No beneficiamento, os frutos são espalhados em camada fina sobre bandejas e expostos ao sol, abrindo-se e liberando as sementes; o endocarpo que as envolve sai com facilidade ao esfregar as porções entre as mãos, e máquinas de ar e peneira ajudam a soprar impurezas e selecionar o material. Cada quilo reúne de 7.800 a 30.000 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. Por terem comportamento fisiológico recalcitrante, devem ser semeadas logo após o beneficiamento: sementes com 89% de germinação inicial caíram para 37,5% após quatro meses guardadas em antecâmara (21 ºC e 60% de umidade relativa). Em testes de laboratório, alguns pesquisadores não obtiveram germinação em germinadores, por deterioração das sementes durante o processo.

Produção de mudas

A semeadura pode ser feita em sementeiras ou colocando-se duas sementes diretamente em sacos de polietileno ou em tubetes grandes, com repicagem de 20 a 40 dias após a germinação. A germinação é epígea (fanerocotiledonar) e a emergência começa de 11 a 25 dias após a semeadura; cerca de seis meses depois, as mudas alcançam aproximadamente 20 cm de altura. A espécie estabelece associação simbiótica com Rhizobium, formando nódulos coraloides do tipo astragaloide com atividade da nitrogenase.

Características silviculturais

Espécie heliófila, que não suporta temperaturas baixas. Costuma ter forma irregular, sem dominância apical definida e com ramificação pesada, sem boa desrama natural, o que exige podas de condução e de galhos frequentes e periódicas; rebrota com facilidade da touça. O plantio recomendado é o misto a pleno sol. Em Minas Gerais, é indicada para sombreamento de pastagens, pois sua copa regular, de 4 m a 6 m de diâmetro, projeta sombra densa. A braúna-preta consta na Lista Oficial das Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção (Anexo I), na categoria vulnerável, o que reforça a importância da conservação de seus recursos genéticos.

Crescimento e produção

Há poucos dados sobre o desenvolvimento da braúna-preta em plantios. O crescimento é lento, com produção volumétrica que chega a 6,10 m³ por hectare ao ano aos 24 anos de idade, conforme registrado em Timóteo, Minas Gerais.

Clima

A precipitação anual média varia de 750 mm a 2.100 mm, ambos os extremos registrados na Bahia, com chuvas geralmente periódicas, podendo ser uniformes na faixa costeira baiana. A deficiência hídrica vai de nula a moderada, conforme a região, concentrando-se no inverno. A temperatura média anual fica entre 18 ºC (Itatiaia, RJ) e 24,3 ºC (Ilhéus, BA); a média do mês mais frio varia de 11,5 ºC a 21,2 ºC e a do mês mais quente de 21,2 ºC a 26,2 ºC, com mínima absoluta de -3 ºC observada em Itatiaia. As geadas são ausentes na maior parte da área de ocorrência e raras no maciço do Itatiaia, no Paraná e em São Paulo. Segundo Köppen, a espécie ocorre sob os tipos climáticos Af, Am, As, Aw, Cfa, Cfb, Cwa e Cwb.

Solos

A braúna-preta prefere solos com baixo teor de argila. Na Zona da Mata mineira, é considerada indicadora de solos secos e de fertilidade média a baixa.