Foto: Valerio Pillar (CC BY-SA 2.0) via Wikimedia
Bracatinga
Mimosa scabrella
- 4 a 18 m (até 29 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: abracatinga, anizeiro, maracatinga, bracaatinga, bracatinga-branca, bracatinga-comum, bracatinga-vermelha, bracatinho, mandengo, paracatinga
Botânica
Pelo sistema de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Fabales, dentro da família Mimosaceae (Leguminosae Mimosoideae). O nome aceito é Mimosa scabrella Bentham, publicado em 1842, tendo Mimosa bracaatinga Hoehne como sinônimo. O gênero Mimosa deriva dos termos gregos para "fazer movimento" e "imitar", referência ao fechamento das folhas de muitas espécies quando tocadas; o epíteto scabrella alude à aspereza das folhas, causada por pelos curtos e estrelados. Já o nome popular vem do guarani abaracaatinga, que pode ser traduzido como "árvore ou mata de muitas plumas brancas".
Trata-se de uma árvore perenifólia que normalmente alcança de 4 a 18 m de altura e DAP de 20 a 30 cm, podendo, em exemplares adultos, chegar a 29 m de altura e 50 cm ou mais de diâmetro. Em maciços florestais o tronco se apresenta reto, alto e esbelto, com fuste de até 15 m, às vezes dividido; já em árvores isoladas ele tende a ser curto e ramificado. A ramificação varia de dicotômica a irregular, cimosa e densa, formando copa alta, arredondada e estratificada, cujo diâmetro vai de 1,5 m em povoamentos a 10 m em plantas solitárias. A casca chega a 20 mm de espessura: a externa é marrom-acastanhada nas árvores jovens e passa a castanho-acinzentada com a idade, tornando-se áspera, verrucosa e fendida no sentido longitudinal, enquanto a interna varia de bege-rosada a rosada. As folhas são compostas, bipinadas, paripinadas, alternas e pequenas, com 3 a 9 pares de pinas oblongo-lineares. As flores, amarelas e diminutas, reúnem-se em capítulos pedunculados axilares ou terminais, dispostos em racemos curtos; apenas cerca de 10% delas chegam a formar frutos. O fruto é um craspédio articulado, deiscente, séssil e pubescente, de indumento estrelado, medindo até 48 mm por 9 mm, com 2 a 4 sementes, e se fragmenta em 2 a 3 artículos na maturação. As sementes têm forma irregular, coloração quase preta e brilhante, com cerca de 6 mm de comprimento por 3 mm de largura.
Uso e ecologia
A madeira presta-se sobretudo a vigamentos, escoras de construção civil, partes internas de móveis, caixotaria e embalagens leves, além de compensados, laminados e aglomerados; o sub-bosque dos bracatingais pode render peças para cabos de ferramentas, utensílios e artesanato. Para fins energéticos, fornece lenha de boa qualidade e carvão excelente, com poder calorífico da madeira entre 4.569 e 4.830 kcal/kg, teor de lignina de 25,8% a 28,0% e carvão com poder calorífico de 7.239 a 7.554 kcal/kg; a secagem da lenha por cerca de quatro meses pode reduzir a área de corte em torno de 60%. A espécie também serve à produção de celulose pelo processo sulfato branqueado, para papéis de escrita e impressão sem exigência de alta resistência, sendo uma alternativa de fibra curta onde o eucalipto encontra limitações. Das sementes extrai-se goma rica em galactomanana, com potencial em alimentos, fármacos, cosméticos e explosivos. A casca contém tanino em concentração variável, e a folhagem, apesar da baixa digestibilidade, possui de 13% a 22% de proteína bruta e serve de forragem nos períodos frios. Quanto às propriedades da madeira, a densidade básica fica entre 0,51 e 0,61 g/cm³ (maior na variedade vermelha) e a massa específica aparente, entre 0,65 e 0,81 g/cm³; o cerne é bege-rosado com nuances mais escuras e alburno um pouco mais claro, de superfície ligeiramente áspera, brilho discreto, textura grosseira e grã direita. A durabilidade natural é muito baixa em condições adversas, mas a madeira aceita bem soluções preservantes sob pressão.
É uma espécie pioneira que se destaca por colonizar terrenos descobertos a partir do banco de sementes, sendo muito comum em capoeiras, capoeirões e florestas secundárias, onde chega a formar povoamentos quase puros chamados bracatingais. Só na Região Metropolitana de Curitiba (PR) esses bracatingais somam cerca de 60 mil hectares e abrigam aproximadamente cem espécies lenhosas. Característica do Planalto Sul-Brasileiro, é exclusiva da vegetação secundária da Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), nas formações Montana e Alto-Montana, sendo pouco abundante nos pinheirais primários intactos. Tem vida curta, com longevidade de até 25 anos: em plantio de Colombo (PR), aos 22 anos restavam apenas 18,7% das árvores, já com sinais de decrepitude.
Os botões florais surgem em março, e a floração ocorre de junho a setembro no Paraná e em Santa Catarina, em julho em São Paulo e de julho a outubro no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de novembro a fevereiro no Rio Grande do Sul e em São Paulo, em dezembro (precocemente) em Minas Gerais e de dezembro a março no Paraná e em Santa Catarina. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 2 anos de idade.
Planta hermafrodita e de fecundação cruzada (alógama), tem a polinização realizada principalmente por abelhas, entre elas a Apis mellifera (europeia ou africanizada), a Melipona marginata (manduri), a Melipona quadrifasciata (mandaçaia), as Plebeia spp. (mirins) e a Trigona spinipes (irapuá). A dispersão é autocórica, sobretudo barocórica, ou seja, pela queda dos frutos por gravidade. As sementes formam um banco permanente no solo, onde algumas se mantêm viáveis por pelo menos 54 meses, embora a queima de resíduos no início de cada ciclo agroflorestal reduza drasticamente esse estoque. Como importante espécie apícola, fornece néctar e pólen no inverno e gera mel rico em glicose e de cristalização rápida, com produção média estimada em 119 kg/ha.
Plantio e silvicultura
Os frutos costumam ser colhidos de árvores recém-abatidas ou, com menos frequência, diretamente da copa quando começam a cair. Após a colheita devem secar ao sol para facilitar a abertura e a extração das sementes, feita manualmente (batendo os frutos ensacados em aniagem e separando as impurezas com peneira ou ventilação) ou por máquina; cada quilo de frutos rende cerca de 130 g de sementes. Há de 46.500 a 89.504 sementes por quilo, e elas têm comportamento ortodoxo no armazenamento: lotes guardados em câmara fria (3ºC a 5ºC, 86% de UR) mantiveram, após 12 anos, germinação de 89% e 51%. As sementes apresentam dormência tegumentar, que na natureza é quebrada pelo aquecimento solar ou pelo fogo, e em viveiro pelos métodos mais usuais de imersão em água a 80ºC até esfriar (cerca de 18 horas, na proporção de uma parte de sementes para três de água) ou em ácido sulfúrico a 93% por 4 minutos; também há tratamentos alternativos com ácido oxálico, lático, tartárico ou clorídrico. O grau de dormência varia com a procedência, sendo menor nas sementes de Santa Catarina do que nas do Paraná. Em laboratório, a germinação é melhor entre 22ºC e 26ºC, em substratos como areia, vermiculita, papel-toalha e papel mata-borrão.
Recomenda-se semear de 3 a 4 sementes em sacos de polietileno de no mínimo 14 cm de altura por 6 cm de diâmetro ou em tubetes pequenos de polipropileno; na semeadura direta usam-se de 3 a 5 sementes por cova, escolhendo a muda mais vigorosa após 6 meses. A semeadura direta também pode ser feita com plantadeira matraca de gavetas, empregando sementes mantidas em câmara fria por 9 meses, sem necessidade de quebra de dormência. Quando preciso, a repicagem é feita de 1 a 2 semanas após a germinação, lembrando que o sistema radicial é superficial. A germinação é epígea, inicia entre 5 e 30 dias após a semeadura e tem poder germinativo alto (até 90%); as mudas ficam prontas para o campo cerca de 3 meses depois. A semeadura direta é a prática dominante por ser fácil e rápida, mas sua sobrevivência inicial sofre com os veranicos, de modo que mudas em tubetes são a melhor alternativa em terrenos íngremes; já mudas de raiz nua não se estabelecem bem. A espécie associa-se de forma promíscua a bactérias Rhizobium, formando nódulos coraloides que fixam nitrogênio atmosférico, e também apresenta fungos micorrízicos arbusculares; recomenda-se a inoculação com estirpes adequadas ao plantá-la fora de sua área natural ou em terrenos antes sem bracatinga.
Por ser essencialmente heliófila e pouco tolerante a geadas, a bracatinga pode ser danificada por geadas severas no primeiro ano, sobretudo em plantios feitos por mudas após março ou em baixadas com acúmulo de ar frio (fenômeno da "canela-de-geada"); por isso, recomenda-se plantar na primavera. Seu hábito é reto e desramado na regeneração natural sob densidade alta, mas tende a ser bifurcado e de ramificação pesada em plantios. Indica-se espaçamento de 1 m² a 3 m² por planta para fins energéticos ou de revegetação, evitando aberturas amplas como 3 x 3 m, pois nos estágios iniciais a planta sofre mais com a competição de invasoras do que com a intraespecífica. A regeneração pode ser induzida pelo fogo, que estimula a germinação do banco de sementes, técnica usada há mais de um século na região de Curitiba e que hoje cobre cerca de 50 mil hectares; também é comum a semeadura direta associada a cultivo agrícola. No primeiro ano da regeneração natural é essencial controlar invasoras e reduzir a densidade, sugerindo-se cerca de 4 mil plantas por hectare. A espécie responde bem ao preparo convencional do solo, pode ser usada para tutorar espécies secundárias-clímax e raramente rebrota da cepa após corte ou fogo. É peça central de um dos sistemas agroflorestais mais tradicionais do Sul do Brasil, cultivada com lavouras no ano de implantação há cerca de 90 anos nos arredores de Curitiba; nesse modelo, a queima de resíduos após a exploração, embora prática corrente, elimina subprodutos úteis e degrada o sítio. O melhoramento genético ainda é incipiente, com destaque para a superioridade da procedência de Concórdia (SC), e reconhecem-se variedades populares como branca, vermelha e argentina, esta última a única descrita botanicamente.
É tida como uma das espécies de crescimento inicial mais rápido do Sul do Brasil. Povoamentos implantados por mudas em Concórdia (SC) chegaram a 36 m³/ha.ano com casca aos 4 anos, no espaçamento 3 x 2 m, enquanto a regeneração natural por queima rendeu de 8,3 a 25,1 m³/ha.ano aos 6 anos. Na Região Metropolitana de Curitiba, a produtividade média em rotações de 7 anos é estimada em 12,5 a 15 m³/ha sob regeneração natural. Fora de sua área natural, os resultados costumam ser fracos em locais como Cascavel, Cianorte e Paranaguá (PR), mas houve bom desempenho na América Central e na Argentina, onde, em Misiones, atingiu incrementos de 86 m³/ha.ano aos 4 anos no espaçamento 2 x 2 m. Estimam-se rotações de 4 a 7 anos na regeneração induzida para energia e de 6 a 8 anos na regeneração natural para energia e escoras, com densidade média de 2.200 plantas por hectare. Existem curvas de índice de sítio e modelos de biomassa específicos para a espécie, aplicáveis a partir dos 2 anos de idade.
A precipitação anual em sua área de ocorrência vai de 1.200 mm no Rio de Janeiro a 2.300 mm no Paraná e em Santa Catarina, com chuvas bem distribuídas no Sul e concentração menor no inverno no Sudeste; a deficiência hídrica é nula no Sul e pequena no Sudeste, e a planta não tolera secas prolongadas. A temperatura média anual varia de 13,2ºC (São Joaquim, SC) a 21ºC (Coronel Pacheco, MG), com mínimas absolutas de até -11,6ºC (Xanxerê, SC) e de até -15ºC na relva. O número de geadas por ano vai de 0 a 32 em média, chegando a 81 no máximo. Pela classificação de Köppen, ocorre principalmente em clima temperado úmido (Cfb), além de subtropical úmido (Cfa) e subtropical de altitude (Cwb e Cwa).
Cresce espontaneamente em terrenos de profundidade e fertilidade variáveis, predominando solos pobres, ácidos (pH entre 3,5 e 5,5), de textura franca a argilosa e bem drenados; tolera terrenos pedregosos e terraplanados, mas se desenvolve mal em solos mal drenados, como os orgânicos e os gleissolos. Em plantio, seu crescimento depende da profundidade efetiva e da riqueza química do solo, respondendo de modo marcante à adição de fósforo.