Foto: Gustavo Puente (CC0) via GBIF
Bracatinga-do-banhado
Mimosa pilulifera
- até 10 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: bracatinga, bracatinga-de-arapoti, bracatinga-mirim, vassoura-branca
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (chamada de Leguminosae no sistema de Cronquist) e à subfamília Mimosoideae, a Mimosa pilulifera integra a ordem Fabales segundo a classificação do APG III. Foi descrita por Bentham, com primeira publicação em 1841 (J. Bot. Hooker 4: 386). Entre seus sinônimos botânicos figuram Mimosa incana sensu Bentham, Mimosa pilulifera sensu Malme, Mimosa tacaarembensis Arechavalete e Mimosa pseudoincana sensu Burkart. O nome do gênero Mimosa remete aos termos gregos para "fazer movimento" e "imitar", numa referência à conhecida reação das folhas de várias espécies do grupo, que se fecham ao menor toque; já a origem do epíteto pilulifera é desconhecida. Os nomes populares variam conforme o estado: no Paraná é chamada de bracatinga, bracatinga-de-arapoti, bracatinga-do-banhado e bracatinga-mirim, enquanto no Rio Grande do Sul recebe o nome de vassoura-branca.
Trata-se de uma planta que pode se apresentar como arbusto ou árvore, sempre-verde (perenifólia). Embora os exemplares mais desenvolvidos cheguem perto de 10 m de altura e 20 cm de DAP na fase adulta, é comum encontrá-la como arbusto de até 5 m. O tronco é tortuoso e por vezes múltiplo, com fuste que excepcionalmente alcança 5 m. A ramificação é racemosa e a copa, densa, pequena e de contorno irregular. A casca chega a 3 mm de espessura, com ritidoma liso e de tom acinzentado. As folhas são bipinadas, multifolioladas, com 6 a 10 jugas e folíolos lineares e próximos entre si, somando de 12 a 33 pares por pina. As flores, pequenas e amarelas, reúnem-se em capítulos pedunculados, axilares ou terminais, dispostos em racemos curtos. O fruto é um craspédio articulado deiscente, séssil e pubescente, com indumento estrelado; mede até 48 mm de comprimento por 9 mm de largura, abriga de 2 a 4 sementes e se fragmenta em 2 a 3 artículos quando maduro. As sementes têm formato irregular, brilho intenso e coloração escura, quase preta, medindo cerca de 3 mm por 1 mm.
Uso e ecologia
A bracatinga-do-banhado tem boa vocação melífera, produzindo pólen e néctar; por isso suas flores atraem grande número de abelhas e outros insetos. A madeira tem massa específica aparente de 0,60 g/cm³, cerne e alburno em tons castanho-claros, grã direita e textura fina, embora não existam estudos sobre suas propriedades físicas e mecânicas. Devido ao porte reduzido da árvore, o aproveitamento da madeira serrada ou roliça é limitado, e seu emprego energético se restringe a um eventual uso doméstico como lenha em pequena escala. Não é adequada para a produção de celulose e papel.
Espécie pioneira, costuma surgir em reboleiras à beira de estradas, aterros pedregosos e margens de rios. Regenera-se periodicamente por sementes e coloniza terrenos úmidos, rasos ou bastante alterados por máquinas, podendo formar pequenos agrupamentos densos. Tem ciclo de vida mais longo do que o de Mimosa flocculosa. No Paraná, está associada ao bioma Mata Atlântica, sobretudo na Floresta Ombrófila Mista (com araucária), além de ocorrer em mata ciliar, em áreas de contato entre Floresta Ombrófila Mista, Floresta Estacional Semidecidual e Cerrado, e nos campos do Sul do Brasil.
A floração vai de março a julho no Paraná e de junho a outubro no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem entre novembro e janeiro no Paraná e de março a junho no Rio Grande do Sul.
Espécie hermafrodita, é polinizada sobretudo por abelhas e por uma variedade de pequenos insetos. A dispersão de frutos e sementes é autocórica, predominando o mecanismo barocórico, ou seja, pela ação da gravidade.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começam a abrir; depois são mantidos em local arejado para completar a abertura das vagens, e as sementes são separadas em peneiras. Cada quilograma reúne cerca de 167.000 sementes, com teor de umidade de 9,2%. As sementes têm dormência causada pela impermeabilidade do tegumento, exigindo tratamento pré-germinativo. Fowler e Carpanezzi indicam mergulhá-las em água com temperatura inicial entre 70 °C e 96 °C, deixando-as em repouso por 18 horas na mesma água (já fora do aquecimento), o que rende germinação de 93% a 95%. A imersão em ácido sulfúrico por 10 a 12 minutos também é eficaz, com germinação de 92% e 91%, respectivamente. Sem qualquer tratamento, a germinação fica em apenas 1%. Por ser mais segura no manuseio e mais barata, recomenda-se a opção da água quente. As sementes têm comportamento fisiológico ortodoxo e, guardadas em condições ambientais, mantêm a viabilidade por mais de um ano.
Recomenda-se semear em sementeiras e depois repicar para sacos de polietileno de no mínimo 14 cm de altura por 6 cm de diâmetro, ou para tubetes pequenos de polipropileno; a repicagem deve ocorrer de 1 a 2 semanas após a germinação. A semeadura direta no campo, com cinco sementes por cova, é viável. A germinação é epígea e as plântulas, fanerocotiledonares, com emergência iniciando de 3 a 30 dias após a semeadura e poder germinativo elevado, em média de 80%. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 3 meses depois da semeadura, e o sistema radicial é superficial. As raízes nodulam e fixam nitrogênio em simbiose com Rhizobium; em viveiro, observou-se nodulação espontânea e satisfatória usando terra trazida de bracatingais de Mimosa scabrella.
Trata-se de uma planta essencialmente heliófila e resistente a baixas temperaturas. Seu hábito é bastante variável: em geral apresenta-se muito esgalhada já a partir da base, com copa aberta, ramificada e bifurcada, mas há também indivíduos de crescimento monopodial, e a espécie faz derrama natural. O plantio é indicado a pleno sol. Para revegetação, sugere-se espaçamento inicial de 1 m x 1 m, que fecha o terreno em 6 meses, ou de 2 m x 2 m, que o fecha em cerca de um ano. Em geral não rebrota após o corte.
Há poucos dados sobre o desenvolvimento da espécie em plantios, mas seu crescimento é considerado moderado.
A precipitação média anual fica entre 1.300 mm no Rio Grande do Sul e 1.500 mm no Paraná, com chuvas bem distribuídas ao longo do ano e sem deficiência hídrica. A temperatura média anual varia de 16,5 °C (Curitiba, PR) a 19,5 °C (Porto Alegre, RS); no mês mais frio oscila entre 12,2 °C (Curitiba e Irati, PR) e 14,3 °C (Porto Alegre, RS) e no mês mais quente, entre 19,9 °C (Curitiba) e 24,7 °C (Porto Alegre). A mínima absoluta registrada foi de -6 °C, em Ponta Grossa, PR. As geadas são frequentes em toda a área de ocorrência, variando de 1 a 33 por ano, com média de 10,3. Pela classificação de Köppen, o clima é Cfa (subtropical de verão quente) no Rio Grande do Sul e Cfb (temperado de verão ameno) no centro-sul do Paraná.
A espécie prefere áreas úmidas de baixada com textura arenosa, mas também aparece espontaneamente em terrenos que vão de rasos a profundos e de fertilidade diversa, na maioria das vezes pobres, ácidos, bem drenados e com textura de franca a argilosa. O pH costuma ficar entre 3,5 e 5,5. Tolera terrenos pedregosos e terraplanados, e desenvolve-se bem inclusive em solos mal drenados, como os orgânicos, o Gleissolo Melânico alumínico (Glei Húmico) e o Gleissolo Háplico Tb distrófico (Glei pouco Húmico).