Foto: Valerio Pillar (CC BY-SA 2.0) via Wikimedia
Bracatinga-argentina
Mimosa scabrella var. aspericarpa
- 5 a 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: bracatinga-prateada
Botânica
Pela classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Fabales e família Mimosaceae (Leguminosae Mimosoideae). É descrita como Mimosa scabrella Bentham var. aspericarpa (Hoehne) Burkart, tendo como sinônimo botânico Mimosa bracaatinga Hoehne var. aspericarpa Hoehne. O termo Mimosa deriva do grego mimein ("fazer movimento") e meisthal ("imitar"), referência ao comportamento de várias espécies do gênero, cujas folhas e folíolos se contraem ao toque ou ao roçar entre si. Apesar do nome popular, a planta não vem da Argentina: a designação estaria ligada à sua folhagem de tonalidade mais clara, prateada (argêntea).
Árvore perenifólia que costuma medir de 5 a 15 m de altura e 20 a 40 cm de DAP, podendo chegar, quando adulta, a 20 m e 60 cm de DAP. O tronco vai de reto a um pouco tortuoso, com fuste de até 10 m. A ramificação é simpodial e a copa, umbeliforme. A casca atinge espessura de até 10 mm, sendo marrom-clara a marrom-escura por fora e amarelada-esbranquiçada por dentro. As folhas são compostas, bipinadas, paripinadas e alternas, com 4 a 6 pares de pinas e pecíolo piloso de até 4 cm; sua coloração é mais clara (prateada ou argêntea) que a da variedade comum, característica que teria dado origem ao nome popular. As flores são amarelas e miúdas, dispostas em ramos terminais e axilares, com capítulos que reúnem de 4 a 34 botões saindo aos pares da axila foliar. O fruto é um craspédio segmentado com 2 a 4 artículos, verrucoso e ferrugíneo, de 2 a 4 cm de comprimento, contendo de 2 a 4 sementes — geralmente maior que o da variedade comum. Pesquisadores da Embrapa Florestas, contudo, observaram no sul de São Paulo e em Açungui (PR) ampla variação morfológica nos frutos da variedade típica, ao ponto de se confundirem com os da aspericarpa, indicando que as características do fruto não são confiáveis para separar as variedades. A semente tem formato irregular (bivalve) e coloração escura, também maior que a da variedade comum, com largura média de 3,46 mm, comprimento médio de 5,30 mm e espessura média de 2,30 mm, segundo medições de Ramos & Bianchetti.
Uso e ecologia
A madeira serrada e roliça tem os mesmos usos da bracatinga-comum, valendo o mesmo para o emprego em celulose e papel. Tem densidade básica de 0,56 g/cm³ aos 4 anos, alburno levemente mais claro que o cerne e cerne bege-rosado, um tanto irregular e com nuances mais escuras; suas características gerais assemelham-se às da bracatinga-comum, embora não existam estudos tecnológicos específicos sobre suas propriedades físicas e mecânicas. Na geração de energia, fornece lenha e carvão de ótima qualidade, com poder calorífico da madeira de 4.930 kcal/kg, teor de lignina de 23,9%, rendimento de carvão de 31,8%, carbono fixo de 86,0% e poder calorífico do carvão de 7.510 kcal/kg. No aspecto apícola, suas flores rendem um mel mais amargo que o da bracatinga-comum; como floresce de outubro a janeiro, há receio de que a qualidade da safra de verão seja comprometida, e suas características melíferas ainda são pouco conhecidas. É indicada também para recuperação de ecossistemas degradados, recomposição de matas ciliares em áreas sem inundação e recuperação de solos pobres, incluindo terrenos erodidos ou de mineração, favorecida por sua boa deposição de folhedo.
Espécie pioneira, de baixa longevidade e forte capacidade colonizadora. É característica da vegetação secundária da Floresta Ombrófila Mista Montana (Floresta com Araucária).
A floração ocorre de outubro a janeiro no Paraná e de dezembro a janeiro em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, com os botões florais surgindo a partir de junho no Paraná. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 2 anos de idade. Sua época de floração difere da variedade scabrella, o que dificulta o cruzamento entre as duas; em invernos atípicos e quentes, porém — como em 1994 e 1998, em Colombo (PR) —, a antese se antecipa para meados de setembro, gerando sobreposição de 20 a 30 dias entre as floradas e favorecendo, em tese, o cruzamento intervarietal. No Paraná, os frutos imaturos aparecem de dezembro a janeiro e os maduros de fevereiro a junho.
A polinização é feita sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é autocórica, predominantemente barocórica (por gravidade).
Plantio e silvicultura
A colheita dos frutos deve ser feita quando começa a deiscência das sementes, e a extração pode ser manual ou mecânica; o uso de mesa de gravidade melhora a qualidade física e fisiológica dos lotes, com aproveitamento de 79,48% de sementes puras. Cada quilo reúne cerca de 47.400 sementes. Elas apresentam dormência tegumentar, superada por imersão em água a 65 ºC com repouso de 12 horas ou por imersão em ácido sulfúrico concentrado por 5 minutos. O comportamento no armazenamento é ortodoxo: sementes pretas guardadas em vidro fechado em sala mantiveram 66% de germinação após 8 anos, enquanto as marrons ficaram em 32,4%. Para avaliar o vigor, recomenda-se o teste de envelhecimento precoce (Ramos & Bianchetti, 1992).
Pode-se semear em sementeiras para posterior repicagem, colocar 2 a 3 sementes em saco de polietileno de no mínimo 14 cm de altura por 6 cm de diâmetro, usar tubetes de polipropileno de tamanho médio ou semear cinco sementes diretamente no campo. A repicagem é indicada de 1 a 2 semanas após o início da germinação. A germinação é epígea, começa entre 5 e 30 dias após a semeadura e tem poder germinativo alto (até 100%, em média 80%); as mudas ficam prontas para o plantio cerca de 4 meses depois. As raízes formam associação simbiótica com Rhizobium.
O manejo silvicultural não difere do aplicado à variedade típica, com a aparente diferença de que a aspericarpa rebrota mais que ela.
Segundo agricultores, o crescimento inicial é mais rápido e vigoroso que o da bracatinga-comum, e em plantios mistos a variedade tende a dominá-la graças a esse desenvolvimento acelerado; por isso, nas regiões onde é conhecida, os produtores costumam preferi-la na formação de novos bracatingais. Nos últimos anos, o fomento estatal do Paraná concentrou-se na variedade aspericarpa na Região Metropolitana de Curitiba. Estima-se que a produtividade possa chegar a 30 m³/ha/ano com casca aos 5 anos, em rotação de 5 a 6 anos para lenha. Há considerável variabilidade genética para características de crescimento: a seleção dos 11% melhores indivíduos em teste de progênies, com base no DAP, gerou estimativas de ganho genético acima de 52% e 35% para o volume cilíndrico das árvores originadas de Bocaiúva do Sul e de Campo Largo, ambas no Paraná.
Ocorre onde a precipitação média anual vai de 1.300 mm (Santa Catarina) a 2.300 mm (Rio Grande do Sul), com chuvas bem distribuídas ao longo do ano e deficiência hídrica nula. A temperatura média anual fica entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 16,5 ºC (Campo Largo, PR); a média do mês mais frio varia de 8,7 ºC (Urubici, SC) a 12,2 ºC (Campo Largo, PR) e a do mês mais quente de 17,2 ºC (São Joaquim, SC) a 19,9 ºC (Campo Largo, PR), com mínima absoluta de -8,2 ºC (São Joaquim, SC). O número de geadas por ano vai de 0 a 23, em média, podendo chegar ao máximo absoluto de 50 na Região Sul. Os tipos climáticos de Köppen correspondentes são o temperado úmido (Cfb) e o subtropical de altitude (Cwa).
Em plantios experimentais, demonstrou ampla adaptação a diferentes solos, mas o melhor desempenho ocorre em solos de fertilidade química média a alta, profundos, bem drenados e de textura franca a argilosa.