Foto: Daderot (CC0) via Wikimedia
Boleira
Joannesia princeps
- 10 a 15 m (até 30 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: andá, andá-açu, andá-guaçu, bagona, boleiro, arapacu, arrebenta-cavalo, coco-de-bugre, coco-de-gentio, coco-de-purga, fruta-de-arara, purga-de-cavalo, purga-de-gentio, cotieira, cutieira, cutieiro, dandá, fruta-de-cutia, fruteira-de-arara, indaguaçu, indaí-açu, indaiuçu, purga-de-paulista, purga-dos-paulistas, purgante-de-cavalo
Botânica
A espécie é Joannesia princeps Vellozo, descrita em 1798. Pelo sistema de classificação de Cronquist, pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Geraniales e família Euphorbiaceae. São registrados como sinônimos botânicos Anda brasiliensis Raddi, Anda gomesii A. Juss. e Andicus pentaphyllus Vell. O nome do gênero seria uma homenagem à rainha Joanna de Portugal, do século 16, enquanto o epíteto princeps faz referência à sua nobreza.
Árvore semicaducifólia que lembra a seringueira (Hevea brasiliensis), em geral com 10 a 15 m de altura e 20 a 50 cm de DAP, mas que na fase adulta pode chegar a 30 m e 95 cm de DAP. O tronco é reto e cilíndrico, com fuste de até 15 m. A ramificação é dicotômica e farta, formando uma copa estreita, de cônica a piramidal. A casca chega a 10 mm de espessura: a externa é castanho-clara, lisa a pouco rugosa e cheia de lenticelas, enquanto a interna é esbranquiçada e fibrosa. As folhas são alternas, compostas e digitado-partidas, com 3 a 5 folíolos, e apresentam pecíolo cilíndrico de 3 a 6 cm, com glândulas na base e no ápice. Os folíolos são membranáceos, glabros, de ovalados a elípticos, medindo de 7,5 a 20 cm de comprimento por 3,5 a 7 cm de largura, com ápice cuspidado a acuminado, bordos ondulados e base truncada a oblíqua; os peciólulos, de 0,5 a 1 cm, têm coloração carmim. As flores são pequenas, numerosas, apétalas e de cor branco-roxa, com sépalas valvadas bem mais curtas que as pétalas. O fruto é uma drupa do tipo filotrimídio e está entre os maiores da família: divide-se em exocarpo, que se abre em 3 a 4 valvas lenhosas, e endocarpo indeiscente, que guarda as sementes. O fruto maduro tem epicarpo verde-escuro, opaco e rugoso, com pontuações cinzas; mesocarpo carnoso, espesso, amarelo-claro e deiscente; e endocarpo seco, lenhoso, de cor bege a castanha. O fruto inteiro mede de 8,55 a 10,4 cm de comprimento por 7,5 a 10,5 cm de diâmetro e pesa cerca de 338 g; o conjunto endocarpo mais semente tem de 5,2 a 6,9 cm de comprimento, 5 a 7,2 cm de diâmetro e peso médio de 99,7 g. As sementes são globosas a ovóides, oleaginosas, por vezes achatadas de um lado, duras, de testa crustácea cinza-escura, medindo de 1,8 a 3 cm de diâmetro e pesando, em média, 7 g.
Uso e ecologia
A madeira é leve (massa específica aparente de 0,40 a 0,55 g/cm³ a 15% de umidade e massa básica de 0,29 a 0,39 g/cm³), com cerne branco, às vezes amarelado ou branco-palha, e alburno indistinto. A superfície é levemente áspera e pouco lustrosa, de textura grosseira, grã direita (por vezes com fibras reversas), sem cheiro ou gosto perceptíveis. Tem baixa resistência natural ao apodrecimento, mas resiste ao cupim de madeira seca; por ser muito suscetível à deterioração biológica, deve receber tratamento preservante em usos expostos à umidade, sendo bastante permeável às soluções quando impregnada sob pressão. Recomenda-se serrá-la logo após o corte para evitar o ataque de fungos que escurecem a madeira. Estudos alemães mostraram que ela pode servir aos mesmos fins do choupo (Populus spp.). Serrada ou roliça, presta-se a marcenaria, caixotaria leve, obras internas, tabuados, artefatos, tamancos, forros, brinquedos, canoas, jangadas e peças navais, além de miolo de painéis e portas e chapas de partículas; o palito de fósforo feito com essa madeira é de excelente qualidade. Para energia produz lenha de má qualidade (poder calorífico de 4.296 kcal/kg), e a casca do fruto serve de combustível. Fornece celulose de fibra curta de boa qualidade para papel de impressão (teor de celulose de 50,1%, fibra de 1,14 a 1,70 mm e lignina de 21,8%). Após a extração do óleo, a torta das sementes vira um adubo de grande valor (N = 5,50%; P = 2,80%; Ca = 2,10%; K = 0,31%). As sementes rendem de 37% a 55% de um óleo amarelo-claro, transparente, secativo e inodoro, sucedâneo dos óleos de linhaça e de tungue, usado como lubrificante automotivo, em iluminação, na fabricação de tintas, vernizes, azeite e sabão e para fins farmacêuticos. A casca exsuda um líquido aquoso contendo a joanesina, princípio venenoso, levemente diurético e útil na cura de feridas de difícil cicatrização. Foram encontrados compostos fenólicos nas amêndoas e nos tegumentos, e o tanino obtido não tem valor econômico.
Trata-se de uma espécie pioneira a secundária inicial, comum na vegetação secundária, em capoeiras, capoeirões e florestas secundárias. É característica da Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), onde se destaca na Floresta de Tabuleiro do norte do Espírito Santo. Aparece de forma esparsa na Floresta Estacional Semidecidual Montana e, eventualmente, no Cerradão, ocorrendo também na restinga, como em Macaé (RJ) e em Sergipe. Cresce naturalmente em solos de baixa fertilidade química, em terrenos fracos e secos; em experimentos no Paraná, contudo, desenvolveu-se melhor em solos férteis, profundos, bem drenados e de textura franco-argilosa a argilosa, ao passo que plantios em areia quartzosa no litoral paranaense não tiveram bons resultados.
A floração ocorre de junho a novembro em São Paulo, de julho a agosto no Espírito Santo, de setembro a outubro no Rio de Janeiro, de outubro a novembro em Minas Gerais e de outubro a dezembro na Bahia. Os frutos amadurecem de janeiro a junho no Espírito Santo, de fevereiro a março no Rio de Janeiro, de março a julho em Minas Gerais, de junho a dezembro em São Paulo e em agosto em Sergipe. Em plantios, a reprodução começa a partir dos 5 anos de idade.
A planta é dióica e de fecundação cruzada (alógama). A polinização é feita sobretudo por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão é autocórica, principalmente barocórica (por gravidade), e também zoocórica, com destaque para roedores silvestres como a cutia (Dasyprocta azarae), que carrega o fruto para retirar as sementes depois de iniciada a germinação.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser recolhidos do chão logo após a queda e postos para secar à sombra, o que facilita o desprendimento do epicarpo e do mesocarpo carnoso; em seguida, quebra-se o endocarpo com cacetete ou martelo para obter as sementes, muitas das quais já chegam livres da parte carnosa. As sementes representam cerca de 18% do peso do fruto, e as cascas, 82%; são necessários cerca de 6.125 kg de frutos para cada quilo de sementes. Uma árvore adulta, isolada e de copa grande, produz de 50 a 80 kg de frutos. Cada quilo contém de 140 a 270 sementes, que correspondem a 10% a 20% do peso dos frutos. Não há dormência, mas recomenda-se a imersão em água à temperatura ambiente por 48 horas ou uma pequena trinca no tegumento, com martelo ou alicate, para facilitar a embebição. Embora vários autores apontem viabilidade curta sob armazenamento (até 6 meses), há resultados divergentes: sementes guardadas em sala por 6 meses germinaram 48%; mantidas dentro dos frutos em sala, germinaram 59% aos 12 meses; e armazenadas por 2 anos em saco plástico, em clima temperado úmido (Colombo, PR), germinaram 50%. Há quem classifique a espécie como de comportamento ortodoxo, e recomenda-se armazenar as sementes em saco de papel, em câmara fria (10 ºC e 60% de umidade relativa).
Recomenda-se semear uma única semente por saco de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno, ou ainda duas sementes por cova diretamente no campo. A repicagem pode ser feita de 1 a 4 semanas após a germinação. A germinação é epígea fanerocotiledonar, com o hipocótilo emergindo curvado em forma de "U" invertido e cotilédones longo-peciolados; inicia-se entre 14 e 68 dias após a semeadura, geralmente com taxas de 60% a 90%. As mudas atingem o tamanho ideal para plantio cerca de 3 meses após a semeadura. A raiz principal é fasciculada, com 4 a 6 raízes secundárias de cor creme. É possível a propagação vegetativa por enxertia de escudo ou anel de escudo, devendo o porta-enxerto ter de 10 a 15 meses.
A boleira é heliófila e intolerante a baixas temperaturas. Costuma ter crescimento monopodial, com boa forma e galhos grossos; em espaçamentos amplos (3 x 3 m), porém, tende a apresentar muitas bifurcações. A desrama natural é boa, mesmo em plantas isoladas, com ótima cicatrização. Recomenda-se plantá-la a pleno sol, em plantio puro, em áreas livres de geadas, ou em plantio misto com pioneiras nos locais sujeitos a geadas leves; após o corte, rebrota da touça. É indicada para sistemas silviagrícolas, na arborização de culturas, como no sombreamento do cacaueiro. A espécie consta da lista de ameaçadas de extinção de Minas Gerais, e há quem aponte a necessidade de melhoramento genético para futuros plantios comerciais. Ela é fundamental na recomposição de áreas degradadas, produzindo folhas de fácil decomposição e atuando na recuperação de solos; em Viçosa (MG), superou o capim-gordura (Melinis minutiflora) nesse papel. Também é recomendada para reposição de mata ciliar em locais sem inundação e serve como bioindicadora de chuva ácida. Apesar do potencial paisagístico, não é indicada para arborização urbana por causa do tamanho e do peso dos frutos e do risco que as sementes, tóxicas e purgativas, representam, sobretudo para crianças.
O crescimento é de moderado a rápido, com incremento médio anual em volume com casca de até 40 m³/ha aos 20 anos. Em um ensaio com 11 espécies nativas em Linhares (ES), foi a melhor de todas, com excelente desenvolvimento em DAP e altura e mortalidade abaixo de 14% aos 183 meses. Adubada e no espaçamento 3 x 2 m, atingiu o máximo incremento médio anual em volume por volta dos 6 anos, idade em que se recomenda o desbaste seletivo quando o objetivo é produzir madeira para serraria. Estima-se rotação de 20 anos para esse fim.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 2.100 mm, na Bahia, com chuvas que vão de uniformemente distribuídas (faixa costeira fluminense e sul baiano) a concentradas no verão. A deficiência hídrica é moderada no inverno, com estação seca de até 4 meses no norte do Espírito Santo e no centro de Minas Gerais. A temperatura média anual oscila entre 19,4 ºC (Lavras e Viçosa, MG) e 26 ºC (Estância, SE); a média do mês mais frio fica entre 15,4 ºC e 24,5 ºC, e a do mês mais quente, entre 22,1 ºC e 27,2 ºC, com mínima absoluta de -0,1 ºC em Paracatu (MG). As geadas são ausentes ou muito raras. Quanto aos tipos climáticos de Köppen, ocorre em clima tropical (Af, Am e As) e subtropical de altitude (Cwa e Cwb), tendo sido introduzida com bons resultados no sudoeste e centro-oeste paranaenses, em clima subtropical úmido (Cfa).
Em condições naturais, ocupa solos de baixa fertilidade química, em terrenos fracos e secos. Nos experimentos do Paraná, no entanto, cresceu melhor em solos férteis, profundos, bem drenados e de textura franco-argilosa a argilosa, enquanto os plantios em areia quartzosa, no litoral paranaense, não foram satisfatórios.