Foto: Tarciso Leão (CC BY 2.0) via flickr
Bicuíba
Virola gardneri
- até 50 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: urucuba, bicuíba-vermelha, bicuíba-branca, bicuíba-de-folha-fina, pau-sangue, biriba-vermelha, árvore-do-sebo, visgueiro, bicuibuçu, bucuibuçu
Botânica
Pela classificação das angiospermas adotada no The Angiosperm Phylogeny Group (APG) III, a urucuba pertence à divisão Angiospermae, ao clado das Magnoliídeas, à ordem Magnoliales, à família Myristicaceae e ao gênero Virola. O binômio aceito é Virola gardneri (A. DC.) Warb., descrito originalmente em 1897. A espécie acumula vários sinônimos botânicos, entre eles Myristica gardnerii A. De Candolle, Palala gardneri (DC.) O. Kuntze, Myristica grandis Fr. Allemão e Virola schwackei Warb. O nome de gênero Virola foi adotado por Aublet a partir da denominação popular dada à Virola sebifera pelos índios Sinerami, da Guiana Francesa; já o epíteto gardneri homenageia o botânico escocês George Gardner, que percorreu o Brasil em diferentes viagens e formou coleções botânicas importantes.
A urucuba é uma árvore perenifólia, de folhagem sempre-verde, cujos maiores exemplares chegam perto de 50 m de altura e 150 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo) quando adultos. O tronco é reto e cilíndrico, com fuste que pode alcançar até 20 m. A ramificação é dicotômica e a copa, pequena, com raminhos finos, estriados e de tom castanho-puberulento quando jovens, que mais tarde ficam glabros e escuros. A casca atinge cerca de 20 mm de espessura: a externa (ritidoma) é sulcada e pardo-avermelhada, enquanto a interna é pardo-cinzenta e escamosa. As folhas são simples e alternas, de lâmina oblonga a elíptico-oblonga, coriácea e glabrescente, com ápice obtuso ou atenuado e base decorrente; possuem de 10 a 22 pares de nervuras laterais planas e medem de 8 cm a 21 cm de comprimento por 2 cm a 5 cm de largura. O pecíolo é canaliculado, puberulento ou glabro, alado na porção distal, com 0,7 mm a 2 mm de diâmetro e 7 mm a 17 mm de comprimento. As inflorescências surgem em panículas axilares de ramos e flores ferrugíneo-puberulentos: as masculinas reúnem de 3 a 10 flores e as femininas formam fascículos de 2 a 7 flores. As flores são pequenas e unissexuais. O fruto é uma cápsula elipsoide, deiscente e verrucosa, de 3 cm a 4 cm de comprimento por 2 cm a 2,5 cm de largura, contendo uma única semente. A semente é grande e fica recoberta por um arilo carnoso de cor vermelho-vivo, que ocupa toda a cápsula globosa, dura, pardo-avermelhada e reticulada; a amêndoa é córnea e oleosa, com linhas escuras no interior.
Uso e ecologia
A madeira é leve a moderadamente densa, com massa específica aparente entre 0,56 g/cm³ e 0,87 g/cm³ a 15% de umidade, textura média e grã direita. Recém-cortada apresenta cor quase branca, que oxida com a luz, passando a vermelha e depois a amarelo-escura, com fibras lineares. O alburno é bastante atacado por insetos; a madeira tende a empenar pouco na secagem e responde bem ao trabalho com cepilho. É aproveitada em carpintaria em geral, construção civil, tabuados, canoas, mourões, réguas, persianas, caixotaria, vigas, ripas e achas; como racha com facilidade, também serve para coberturas em forma de tabuinhas. Produz lenha e carvão de boa qualidade, mas não é adequada para celulose e papel. A seiva contém bicuibina com 10% de ácido bicuibo-tânico, rica em substância gomo-resinosa, e as sementes encerram 66% de óleo combustível. Na medicina popular, as sementes são reputadas como analgésicas; a seiva, de cor vermelho-sangue, tem propriedades hemostáticas e é empregada contra sangramentos nasais, e, pelo teor de tanino, no controle de diarreias, disenterias, leucorreias e blenorragias. O óleo das sementes é indicado contra moléstias de pele, erisipela, bouba (leishmaniose), reumatismo, tumores artríticos, feridas, nevralgias e hemorroidas. Cascas e folhas, em infusão ou decocto, são usadas para cólicas intestinais e em recuperações pós-parto. As informações de uso medicinal são apenas registro factual da pesquisa e não substituem orientação ou cuidados médicos adequados.
A urucuba é uma espécie secundária tardia, de distribuição descontínua e mais comum em florestas primárias. Na Mata Atlântica, aparece na Floresta Estacional Semidecidual, em formação de Terras Baixas, em Pernambuco, com até dois indivíduos por hectare; e na Floresta Ombrófila Densa em diferentes formações — Terras Baixas, no Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo, com até 13 indivíduos por hectare; Submontana, em São Paulo; e Montana, em Alagoas, Espírito Santo, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, onde chega a 62 indivíduos por hectare. Ocorre ainda em matas ciliares no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, e em sistemas de cabruca no sul da Bahia.
A floração acontece em outubro, em Minas Gerais, e de novembro a janeiro, em Pernambuco. Os frutos amadurecem de julho a outubro, em Pernambuco; em setembro, em Minas Gerais; e em novembro, na Bahia.
É uma espécie dioica, polinizada por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão é feita por aves, atraídas pelo arilo vermelho e urticante (semelhante a pimenta) que envolve a semente. Por servir de alimento à fauna silvestre, com sementes e folhas presentes na dieta de animais nativos, a espécie é recomendada para plantios com finalidade ambiental.
Plantio e silvicultura
A colheita deve ser feita na árvore apenas quando os frutos começam a se abrir, pois enquanto permanecem fechados a semente ainda parece imatura. Para retirar o arilo, as sementes ficam de molho e, em seguida, secam ao sol sobre peneiras. Cada quilo reúne de 246 a 600 sementes. Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento fisiológico recalcitrante, conservando a viabilidade por cerca de 90 dias.
Como não se aconselha a repicagem das plântulas, recomenda-se semear diretamente no local definitivo. A germinação é epígea e as plântulas, fanerocotiledonares. A emergência começa entre 28 e 105 dias após a semeadura, de forma irregular, com índices que variam de 1,7% a 42%. Em muitos casos a plântula tem dificuldade para erguer os cotilédones, e o epicótilo acaba ficando torto ou enrolado. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio cerca de seis meses após a semeadura.
A urucuba é heliófila e não suporta baixas temperaturas. Apresenta crescimento monopodial, emite galhos em ângulo de 90° e tem boa desrama natural. Pode ser cultivada em plantios puros a pleno sol ou em plantios mistos, associada a espécies pioneiras ou secundárias. É indicada também para sistemas agroflorestais, na arborização de culturas perenes e de pastagens.
Há poucos dados sobre o desempenho da espécie em plantios, mas o crescimento registrado é lento.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 770 mm, no centro-norte do Rio de Janeiro, a 3.000 mm, em São Paulo, com chuvas periódicas. A deficiência hídrica é nula ou pequena na faixa costeira da Bahia e em partes de Alagoas e Pernambuco; de pequena a moderada na costa de Alagoas, em Pernambuco e na Paraíba; e moderada no nordeste e norte do Espírito Santo e no interior costeiro da Bahia. A temperatura média anual varia de 17,5 °C (Pindamonhangaba, SP) a 25,5 °C (Recife, PE), com mínima absoluta de 0,4 °C registrada em Coronel Pacheco (MG). As geadas são raras em São Paulo e ausentes no restante da distribuição. Pela classificação de Köppen, a espécie ocorre nos tipos Af, Am, As, Aw, Cfa e Cwa.
Em condições naturais, a urucuba se desenvolve em solos bem drenados e de fertilidade média.