Foto: Denis A. C. Conrado (Attribution) via Wikimedia
Baru
Dipteryx alata
- 5 a 10 m (até 20 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: barujo, baruzeiro, bauí, bugreiro, chuva-de-ouro, guaiçára, coco-feijão, combaru, cumaru, cumarurana, cumbaru, emburena-brava, fava-de-cumaru, feijão-coco, pau-cumaru, sucupira-branca
Botânica
Pertence à família Fabaceae (Leguminosae, subfamília Papilionoideae), na ordem Fabales, dentro das angiospermas dicotiledôneas. A espécie foi descrita como Dipteryx alata Vogel (Linnaea, 1837) e tem como sinônimo botânico Coumarouna alata (Vogel) Taubert. O nome do gênero, Dipteryx, faz referência às duas asas presentes na flor, enquanto o epíteto alata ("alada") remete ao eixo da folha.
Árvore que vai de perenifólia a levemente caducifólia, costuma medir de 5 a 10 m de altura e ter DAP de 15 a 40 cm, mas exemplares adultos podem chegar a 20 m e 70 cm de DAP. O tronco é tortuoso, com fuste curto de até 5 m. A ramificação é dicotômica e irregular, formando copa baixa e larga, de galhos grossos e folhagem verde-brilhante. A casca alcança até 15 mm de espessura: por fora é áspera, escamosa e com leves fissuras; por dentro, esbranquiçada. As folhas são compostas, imparipinadas, com 4 a 7 pares de folíolos alado-peciolados; os folíolos, opostos ou alternos, medem de 6 a 12 cm de comprimento por 3,5 a 5 cm de largura. As flores são pequenas e de cor alvo-arroxeada, agrupadas em inflorescência terminal de até 20 cm. O fruto é um legume drupóide, monospérmico e indeiscente, em geral ovóide, fibroso, de cor que varia do bege-escuro ao marrom-avermelhado e superfície opaca, irregular e com pequenas depressões; mede de 35 a 51 mm de comprimento, 22,4 a 35,45 mm de largura e 16,35 a 29,4 mm de espessura. Seu pericarpo carnoso é entremeado por densas fibras pouco permeáveis à água, o que dificulta bastante a liberação e a germinação da semente; o endocarpo só abre tardiamente, depois que o mesocarpo se decompõe. A semente é oleaginosa, lisa, de hilo branco, com forma entre levemente ovalada e largo-elíptica, medindo de 2,5 a 3,5 cm de comprimento por 0,7 a 1,2 cm de largura, em tom que vai do castanho-escuro ao quase preto.
Uso e ecologia
A madeira do baru é densa a muito densa (0,90 a 1,20 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno branco-amarelado e cerne castanho-amarelado de aspecto fibroso, superfície pouco lustrosa, grã irregular a reversa e cheiro e gosto imperceptíveis. É bastante resistente ao ataque de fungos e cupins, embora em contato direto com o solo dure menos de 9 anos; absorve mal soluções preservantes sob pressão. Muito parecida com a do faveiro (Pterodon pubescens), presta-se a obras hidráulicas, estruturas externas como estacas, esteios, postes, cruzetas, mourões, dormentes, carrocerias e pontes, além de construção naval e civil (ripas, caibros, tacos, forros, lambris, marcos de portas e janelas), implementos agrícolas e tornearia. Fornece lenha de boa qualidade e pode entrar na fabricação de papéis para impressão rápida, embrulho e embalagens. As amêndoas dão um óleo de primeira qualidade, rico em ácido linoléico, empregado como aromatizante para fumo e em usos medicinais. A torta da polpa serve de ração animal ou fertilizante e a torta da semente, rica em proteína, pode ir para rações dietéticas. Na alimentação humana, polpa e amêndoa são energéticas, nutritivas e ricas em minerais, sobretudo potássio; as amêndoas cruas ou torradas lembram amendoim e viram paçoquinhas, pé-de-moleque, rapadurinhas e tira-gostos. As flores são melíferas e, na medicina popular, sementes, casca e folhas têm diversos usos.
Classificada como secundária inicial a secundária tardia, é uma espécie comum na vegetação secundária, de distribuição irregular: concentra-se muito em certos pontos e quase desaparece em outros, costumando formar grande número de plântulas sob a árvore-mãe. Ocorre naturalmente no Cerradão (Floresta Esclerófila), em companhia de gonçalo-alves (Astronium fraxinifolium), jatobá-do-cerrado (Hymenaea stigonocarpa) e sucupiras (Bowdichia virgilioides e Pterodon pubescens), além da Floresta Estacional Semidecidual e do Pantanal Mato-Grossense. Na Bolívia, aparece em bosque amazônico e savana úmida; na Colômbia, na porção amazônica do país.
A floração ocorre de outubro a novembro no Piauí e em Mato Grosso do Sul; de outubro a dezembro em Goiás; de outubro a janeiro em São Paulo; de novembro a dezembro no Distrito Federal; e de novembro a maio em Mato Grosso e Minas Gerais. Os frutos amadurecem de maio a julho em Mato Grosso; de agosto a setembro no Distrito Federal; de agosto a outubro em Goiás; de setembro a outubro em São Paulo; e em outubro em Minas Gerais. Em plantios, a reprodução começa por volta dos 6 anos de idade.
Planta hermafrodita e de fecundação cruzada (alógama), tem a polinização feita principalmente por abelhas e por vários insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes é irregular e combina mecanismos autocóricos, por barocoria (queda pela gravidade), e zoocóricos, sobretudo por morcegos e macacos. Esses animais procuram bastante a árvore: os morcegos comem a polpa e os macacos quebram o invólucro para alcançar a amêndoa. Na estação seca, a polpa adocicada dos frutos caídos alimenta bovinos, suínos e aves silvestres, num período em que as pastagens nativas têm baixo valor nutritivo.
Plantio e silvicultura
Os frutos maduros, de cor marrom-escura, são recolhidos do chão após a queda natural ou ao se sacudirem os galhos. Para obter a semente, retira-se a polpa com uma faca; entre os métodos de despolpamento, o torno fixo de oficina mecânica mostrou-se o mais prático e econômico, sem prejudicar a qualidade da semente. Cada quilo reúne de 600 a 1.190 sementes e de 30 a 100 frutos. A semente tem dormência mecânica de origem tegumentar, causada pela impermeabilidade do invólucro do fruto; para apressar a germinação, recomenda-se extraí-la do fruto ou escarificá-la em ácido sulfúrico a 50% por 6 a 12 horas. As sementes contêm uma substância, provavelmente um ácido orgânico alifático, que não inibe a germinação da própria espécie, mas atrapalha a de outras. De comportamento ortodoxo no armazenamento e sem tegumento duro, conservam bem a viabilidade sob baixa temperatura por 12 meses; graças ao baixo teor de umidade após a maturação, mantêm o poder germinativo por 3 a 4 anos, e em sacos de papel, à temperatura ambiente, preservam cor, sabor, consistência e germinação por cerca de 1 ano.
O ideal é semear uma semente por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, laminados de 18 x 8 cm ou tubetes grandes de polipropileno, usando a semente e não o fruto inteiro (embora seja tradicional semear o fruto, caso em que ele deve ir para canteiros de areia, com o pedúnculo voltado para baixo, na vertical). A semeadura deve ser feita a 1 a 3 cm de profundidade e a repicagem, quando necessária, de 4 a 6 semanas depois. A germinação é epígea e começa entre 13 e 60 dias após a semeadura, com poder germinativo alto, de até 95%; as mudas ficam prontas em cerca de 1 ano e, aos 12 meses, mostram forte desenvolvimento da raiz primária, estratégia comum às espécies de Cerrado para alcançar rapidamente camadas mais úmidas do solo. As mudas devem ser mantidas a pleno sol, já que à sombra ficam sujeitas a fungos. As raízes do baru associam-se simbioticamente a Rhizobium.
Espécie heliófila e intolerante a baixas temperaturas. O hábito é variável, indo de fuste retilíneo de crescimento monopodial a exemplares levemente tortuosos e bifurcados a partir de 2 m de altura; a desrama natural é razoável e a poda dos galhos ajuda a melhorar a forma — em plantios, a primeira bifurcação variou de 5 a 5,50 m de altura aos 20 anos. Pode ser plantado a pleno sol, em plantio puro, com comportamento silvicultural satisfatório, ainda que haja grande variação de altura entre as plantas; recomenda-se espaçamento de 3,0 x 1,5 m, com desbaste por volta dos 10 anos, e a árvore rebrota da touça após o corte. É indicada para sistema silvipastoril, na arborização de pastagens e em pequenos bosques, oferecendo aos animais alimento e sombra. O baru consta da lista de espécies ameaçadas de extinção em São Paulo, com conservação genética feita por populações-base ex situ, e também figura entre as espécies raras ou ameaçadas no Distrito Federal; testes em São Paulo e Minas Gerais revelaram variabilidade genética entre procedências e progênies.
O crescimento é moderado, com incremento médio anual de até 7,30 m³/ha aos 10 anos, e a sobrevivência em plantios é alta, acima de 80%. No norte do Paraná, a espécie vem sendo divulgada como alternativa à madeira da aroeira-verdadeira (Myracrodruon urundeuva), além de uso na arborização urbana e de pastagens.
A precipitação média anual onde ocorre vai de 800 mm, no Piauí, a 1.800 mm, em Goiás, com chuvas periódicas concentradas no verão e inverno seco. A deficiência hídrica é forte, com estação seca que chega a 6 meses no noroeste de Minas Gerais e no Nordeste (Maranhão e Piauí). A temperatura média anual fica entre 20,9 ºC (Sete Lagoas, MG) e 29,4 ºC (Picos, PI); a do mês mais frio entre 17,5 ºC (Sete Lagoas, MG) e 26 ºC (Picos, PI); e a do mês mais quente entre 22,5 ºC (Brasília, DF) e 30,9 ºC (Picos, PI), com mínima absoluta de -0,4 ºC (Campo Grande, MS). Ocorrem até cinco geadas por ano, mas o predomínio é de regiões sem geada ou com geadas raras. Pela classificação de Köppen, os tipos climáticos são subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e tropical (Am e Aw).
Cresce naturalmente em solos de fertilidade química média, secos, profundos ou não, calcários ou ácidos, preferindo os lateríticos e areno-argilosos com predomínio da fração areia-grossa. Em plantios experimentais no Paraná, deu-se melhor em solos bem drenados e de textura arenosa a franca. Segundo Ulhôa, o fósforo (P) é o nutriente mais limitante para o crescimento inicial das plantas, recomendando-se a aplicação de 4,7 t de calcário por hectare e 200 mg de P por kg de solo.