Foto: Rapper Ouriço (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia
Baraúna
Schinopsis brasiliensis
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: braúna-do-sertão, braúna, pau-preto, coração-de-negro, guaraúna, ibiraúna, braúna-parda, ipê-tarumã, maria-preta-da-mata, maria-preta-do-campo, parova-preta, perovaúna, quebracho, ubirarana
Botânica
Pela classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado Eurosídeas II, ordem Sapindales, família Anacardiaceae e gênero Schinopsis. O nome científico aceito é Schinopsis brasiliensis Engl., descrito na Flora Brasiliensis em 1876. O nome do gênero, Schinopsis, indica semelhança com Schinus, uma aroeira que cresce no Sul e no Sudeste do país; já o epíteto brasiliensis remete ao fato de o material-tipo ter sido coletado no Brasil. O termo popular braúna tem provável origem tupi, derivado de ibirá-uma ou muira-uma, expressões que significam madeira preta.
Árvore decídua e espinhenta, figura entre as maiores do Bioma Caatinga. Os exemplares adultos de maior porte chegam a cerca de 15 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo). O tronco é reto e bem-formado, com fuste curto que não passa de 3 m. A ramificação é dicotômica e a copa, quase globosa e de densidade moderada; nas pontas dos ramos há espinhos robustos de até 3,5 cm. A casca pode chegar a 30 mm de espessura, sendo a externa (ritidoma) cinza-escura, quase negra, áspera e descascando em placas irregularmente quadrangulares. As folhas são compostas pinadas, reunindo de 7 a 17 folíolos subcoriáceos, oblongos, de 3 a 4 cm de comprimento por 2 cm de largura, ápice obtuso, verde-escuros por cima e mais claros por baixo, exalando leve odor de resina quando amassados. A inflorescência forma panículas pouco vistosas de até 12 cm. As flores são pequenas (3 a 4 mm de diâmetro), brancas, glabras e levemente perfumadas. O fruto é uma drupa alada de 3 a 3,5 cm, castanho-clara, preenchida por massa esponjosa. A semente é obovóide a quase reniforme, com cerca de 14,4 mm de comprimento, 9,8 mm de largura e 5,6 mm de espessura, amarelo-clara, de superfície rugosa e fosca, protegida por um caroço lenhoso de difícil rompimento.
Uso e ecologia
A madeira é muito densa (1,03 a 1,23 g/cm³), com cerne vermelho-castanho, bastante duro, que escurece com a exposição prolongada ao ar, e apresenta alta resistência à decomposição em ambiente externo. Frequentemente é confundida e vendida como aroeira-verdadeira (Myracrodruon urundeuva). Seu emprego principal é na fabricação de dormentes de ferrovia, por durar muitos anos em locais úmidos, mas também serve para mourões de porteiras, equipamentos de casas de farinha (sobretudo prensas), mãos-de-pilão, cabos de ferramenta, macetas, esquadrias, portais, soleiras, pontaletes, frechais e vigamentos. Como fonte de energia, presta-se à produção de álcool combustível, lenha, carvão e coque metalúrgico, embora seja inadequada para celulose e papel. As flores são melíferas. No semiárido, criadores de caprinos e ovinos cortam os ramos folhados para alimentar os rebanhos nos períodos críticos de seca. A casca contém tanino, útil na indústria de curtume. No uso medicinal, os rebentos em alcoolatura têm propriedades anti-histéricas e nevrostênicas, a tintura da resina em pequena dose age como tônico, e a casca triturada e cozida é empregada contra dor de dente, enquanto o chá da casca combate dor de ouvido; povos kariri-xocó e xocó também a utilizam. No uso veterinário popular, serve no tratamento de verminoses de animais domésticos. É ainda bastante ornamental, com bom aproveitamento em arborização urbana e rural.
Trata-se de uma espécie pioneira e longeva. Não chega a formar agrupamentos puros: é típica do Sertão e do Agreste, onde aparece de forma solitária e em baixa densidade, convivendo com espécies como aroeira-verdadeira (Myracrodruon urundeuva), pau-d'arco (Tabebuia sp.), jucá (Caesalpinia ferrea var. ferrea), juazeiro (Ziziphus joazeiro) e barriguda (Ceiba glaziovii). Na Caatinga arbórea (Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco e Sergipe) sua frequência chega a 15 indivíduos por hectare. Também ocorre em formações da Mata Atlântica, como Floresta Estacional Decidual em Goiás, Floresta Estacional Semidecidual em Minas Gerais e Floresta Ombrófila Densa no Espírito Santo, e em ambientes do Cerrado (savana e cerradão) em Minas Gerais. Aparece ainda em ambientes ripários na Paraíba e em Pernambuco, em brejos de altitude nordestinos (com até dez indivíduos por hectare), em campos rupestres, matas de cipó e matas de afloramento em Minas Gerais.
A floração ocorre em julho, em Mato Grosso do Sul; de novembro a dezembro, no Ceará; e de novembro a fevereiro, em Pernambuco. Na Bahia, os frutos amadurecem entre agosto e setembro.
Espécie monóica, é polinizada essencialmente por abelhas de várias espécies. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, feita pelo vento.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore assim que começarem a cair espontaneamente, e podem ser semeados inteiros, sem necessidade de extrair a semente do interior. Cada quilo reúne de 4 mil a 6 mil sementes. A espécie apresenta dormência, recomendando-se imergir os frutos em água por 48 horas como tratamento pré-germinativo. A viabilidade em armazenamento é curta, não passando de 90 dias.
A unidade de semeadura é o endocarpo ósseo (pirênio). A germinação é epígea (fanerocotiledonar), com emergência entre 15 e 20 dias e taxa em torno de 80%. Quando as mudas atingem cerca de 5 cm de altura e exibem a segunda folha definitiva, devem ser repicadas de imediato, pois a raiz axial é muito desenvolvida e sensível: se quebrada, a planta morre.
Espécie heliófila, não suporta temperaturas baixas. O hábito é irregular, sem dominância apical e com ramificação pesada; como a desrama natural é insatisfatória, exige podas de condução e de galhos frequentes e periódicas. Para regeneração, indica-se plantio misto ou em linha sobre vegetação secundária. Por ser árvore alta, reta e de raiz pivotante, presta-se a quebra-ventos e faixas arbóreas entre áreas de cultivo. Estudos genéticos indicam que sua variabilidade não se distribui de modo uniforme pelo semiárido, mas por ecorregiões, o que reforça a necessidade de mais áreas de proteção para conservação in situ e de amostragens em diferentes paisagens para preservação ex situ. Uma das árvores nobres da Caatinga, sofreu exploração intensa e sem reposição que quase esgotou suas reservas, levando-a à condição de espécie em perigo imediato de extinção no Nordeste; por isso seu corte é proibido. A variedade Schinopsis brasiliensis var. glabra consta da lista oficial de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável.
O crescimento é lento, e a idade de corte costuma situar-se entre 20 e 30 anos.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência varia de 316 mm, no Sertão dos Inhamuns, sudoeste do Ceará, a 1.400 mm, em Pernambuco, com regime de chuvas periódicas. A deficiência hídrica vai de moderada a forte no oeste da Bahia e no Pantanal Mato-Grossense, é forte no norte de Minas Gerais e em parte do Nordeste, e chega a muito forte durante quase todo o ano no Sertão. A temperatura média anual fica entre 21 ºC (Triunfo, PE) e 27,2 ºC (Mossoró, RN); a média do mês mais frio varia de 18,4 ºC a 25 ºC e a do mês mais quente, de 23,3 ºC a 28,7 ºC, com mínima absoluta de 1,4 ºC registrada em Corumbá (MS) e ausência de geadas. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos BSwh, As, Aw e Cwa.
Característica das várzeas do semiárido, ocupa as terras altas da Caatinga sobre solos de tabuleiro, profundos e de alta fertilidade química. É mais comum, porém, em solos calcários, podendo aparecer até em afloramentos pedregosos, onde costuma não se desenvolver muito. Raramente é encontrada nos solos profundos e arenosos dos baixios.