Foto: Celso Henrique Varela Rios (CC BY) via GBIF
Baguaçu
Talauma ovata
- 10 a 20 m, podendo chegar a 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: araticum, araticum-do-brejo, cedro-branco, araticum-fruta-de-pau, avaguaçu, baguaçu-anão, pinheiro-do-brejo, bicuibaçu, caaguaçu, campina, fruta-de-pau, pinha-da-mata, canela-do-brejo, uvaguaçu, vaguaçu, fruta-de-urubu, magnólia-branca, magnólia-do-brejo, magnólia-do-mato, pau-palheta, pau-pombo, pinha-do-brejo, pinheiro, pinho-do-brejo
Botânica
Pertencente à família Magnoliaceae, ordem Magnoliales, o baguaçu foi descrito por A. St.-Hilaire em 1825. Pelo sistema de Cronquist, enquadra-se na divisão Magnoliophyta (angiospermas) e na classe Magnoliopsida (dicotiledôneas). A espécie já recebeu os sinônimos botânicos Talauma dubia Eichler e Talauma fragrantissima Hook. Quanto à etimologia, o gênero Talauma corresponde a um nome popular usado nas Antilhas, enquanto o epíteto ovata remete ao formato ovóide (em forma de ovo) que o fruto assume quando ainda está fechado.
Árvore perenifólia que normalmente mede de 10 a 20 m de altura, com DAP de 50 a 80 cm, mas que pode alcançar até 30 m e, em casos raros, 130 cm de DAP na fase adulta. O tronco é cilíndrico, reto ou levemente sinuoso, com fuste de até 15 m. A ramificação é cimosa, espessa e tortuosa, formando uma copa larga, densa e arredondada; o broto terminal fica preso ao pecíolo e deixa uma cicatriz quando se solta. A casca chega a 20 mm de espessura: a externa é lisa ou quase lisa, de cor marrom, soltando-se em lâminas finas, pequenas e irregulares perto da base das árvores adultas, enquanto a interna é amarelada. As folhas são simples, alternas, glabras, coriáceas e oblongo-elípticas, com ápice obtuso, verde-escuras por cima e verde-pálidas por baixo; o limbo mede de 25 a 30 cm de comprimento por 10 a 15 cm de largura, e o pecíolo, de 2,5 a 7 cm, tem pulvínulo na base. As flores são brancas, grandes, isoladas, vistosas, perfumadas e axilares. O fruto é uma cápsula lenhosa grande e verrucosa, lembrando a fruta-do-conde, porém deiscente, ovóide e pedunculada, formada por numerosos carpídios concrescidos que constituem um sincarpo; na maturação os sincarpos se rompem de forma irregular e liberam as sementes alojadas em cavidades do eixo central lenhoso. Cada fruto guarda, em média, de 110 a 120 sementes. A semente é marrom (1 a 2 por carpídio), envolvida por arilo vermelho, medindo 10 mm de comprimento por 6 mm de largura, com hilo grande situado numa pequena invaginação, rica em óleo essencial e bastante apreciada pelos pássaros.
Uso e ecologia
A madeira do baguaçu é leve a moderadamente densa (0,40 a 0,65 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno não distinto do cerne; este é branco-acinzentado ou branco-encardido, uniforme, escurecendo ao contato com o ar. A superfície é lustrosa e medianamente lisa, com textura média, grã direita, sem cheiro ou gosto perceptíveis. A durabilidade natural é baixa diante de organismos xilófagos em condições adversas, mas a madeira é permeável a soluções preservantes quando tratada sob pressão. Serrada e roliça, é empregada na construção civil (rodapés, guarnições, ripas, cordões, sarrafos, tábuas de forro), em miolo de compensados e painéis, partes internas de móveis, artefatos, cabos de vassoura, caixotaria, marcenaria, brinquedos, saltos de calçados, embalagens e fósforos. Produz lenha de baixo poder calorífico, e o pericarpo sublenhoso também serve como fonte de energia; a madeira pode ainda render pasta para papel. As sementes são oleaginosas, com até 40% de óleo de excelente qualidade para lubrificar peças e equipamentos de alta precisão, enquanto as flores fornecem óleo essencial usado em perfumaria. Os frutos, sem sementes, entram em arranjos ornamentais comercializados em Brasília. Na medicina popular, a casca é usada como antitérmica. Nos extratos de casca, folhas, frutos e sementes foram identificadas neolignanas do tipo austrobailignanas; folhas e brotos jovens contêm alcaloides, saponinas, taninos e fitoesteróis com ação estimulante sobre o sistema nervoso central.
Trata-se de espécie de estágio sucessional intermediário tardio a clímax. Aparece tanto na vegetação primária quanto em florestas primárias alteradas, e na vegetação secundária surge em capoeirões e em clareiras com menos de 60 m². Desenvolve-se melhor em florestas densas e úmidas, tanto na planície aluvial quanto na meia encosta, ocupando em geral o estrato intermediário e, por vezes, o superior, com distribuição agregada. É registrada em diversas regiões fitoecológicas: na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), em suas formações Montana e Alto-Montana nas serras da Mantiqueira e dos Órgãos, na Submontana da Serra do Mar no Paraná e em Santa Catarina, e nas terras baixas em Torres e Osório (RS); na Floresta Estacional Decidual Aluvial do sudoeste baiano; na Floresta Estacional Semidecidual em formações Aluvial (as pindaívas) no sul do Mato Grosso do Sul e Montana no sul de Minas Gerais, além da mata de brejo de Campinas (SP); nos campos rupestres ou de altitude de Minas Gerais; e na mata ciliar do Distrito Federal. Quanto à densidade, foram amostrados 202 indivíduos em 0,3 ha em Campinas (SP), 758 plantas por hectare em Brotas (SP, a maioria com menos de 2 m de altura), cinco indivíduos por hectare numa mata de galeria em Itutinga (MG) e 13 árvores por hectare no Distrito Federal.
A floração vai de setembro a outubro no Distrito Federal, de outubro a novembro em Minas Gerais, de novembro a dezembro em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e ainda em janeiro no Distrito Federal. Os frutos amadurecem de julho a agosto no Distrito Federal, de agosto a setembro no Rio Grande do Sul, de agosto a outubro em Santa Catarina e São Paulo, de agosto a dezembro no Paraná e em setembro em Minas Gerais. Uma nova floração costuma começar antes do fim da frutificação, de modo que é possível encontrar flores e frutos maduros na mesma árvore. Em plantios sobre solos férteis, a reprodução tem início por volta dos 5 anos de idade.
Planta hermafrodita, é polinizada principalmente por besouros. A dispersão é autocórica (sobretudo barocórica, com deiscência explosiva), zoocórica (em especial por aves) e hidrocórica, dada sua presença frequente junto a cursos d'água; ainda assim, as sementes não germinam submersas e perdem viabilidade com o alagamento. Como as sementes precisam ter o arilo removido para germinar, são os pássaros que cumprem esse papel ao se alimentarem delas. As flores, ricas em néctar, também são consumidas pelos macacos-pregos (Cebus apella).
Plantio e silvicultura
Identifica-se o fruto maduro pelo escurecimento da extremidade oposta ao pedúnculo, disponível na estação mais seca; as sementes são dispersas por pássaros. Após a deiscência, elas podem ser retiradas à mão, já que ficam presas pelo funículo. Como vêm envoltas pelo arilo, precisam ser lavadas e maceradas para remover a polpa carnosa e, em seguida, secas ao ar livre em peneiras. Cada quilo reúne de 3.800 a 5.165 sementes. Por terem tegumento duro e impermeável, recomenda-se imergi-las em água por 24 a 48 horas; o arilo inibe a germinação, mas, na sua ausência, não é preciso escarificar. As sementes têm comportamento recalcitrante e perdem a viabilidade em 30 dias quando guardadas em ambiente sem controle. Lotes com 73% de germinação na coleta chegaram a 89% após 30 dias quando armazenados a 5 ºC, ao passo que a 25 ºC a germinação foi nula, confirmando que baixas temperaturas (independentemente da embalagem) prolongam a viabilidade.
Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes grandes de polipropileno. Quando necessária, a repicagem é feita de 2 a 3 semanas após a germinação, lembrando que a raiz é pivotante. A germinação é epígea, com emergência entre 15 e 90 dias após a semeadura e poder germinativo médio de 50% a 70%; as mudas atingem porte adequado para o plantio cerca de 6 meses depois. Na fase de viveiro elas devem permanecer sombreadas. As sementes não são fotoblásticas, e convém investigar a eventual presença de fungos micorrízicos arbusculares nas raízes.
Espécie esciófila, o baguaçu tolera sombreamento leve a moderado quando jovem, mas não suporta baixas temperaturas. Seu crescimento é monopodial, com galhos finos emitidos em ângulo de 90º distribuídos em pseudoverticilos mesmo em espaçamentos largos; tem boa desrama natural, embora a poda dos galhos seja indicada para produzir madeira sem nós. Pode ser cultivado em plantios puros a pleno sol em solos férteis, em plantio misto com pioneiras ou secundárias iniciais, em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na vegetação secundária e em linhas; após o corte, rebrota da touça. É recomendado para arborização de culturas perenes e de pastagens, com rotação provável de 20 anos para desdobro no Sul do Brasil. Como consta da lista de espécies ameaçadas de extinção no sul de Minas Gerais, sua conservação genética é feita ex situ, e por sua raridade e ocorrência em matas de várzea e ciliares é apontada como prioritária em projetos de recuperação de mata ciliar.
O crescimento é moderado a rápido. A maior produtividade volumétrica registrada em plantios foi de 15,45 m³/ha/ano aos 15 anos. Em Fênix (PR), árvores plantadas atingiram DAP de 14 a 38 cm aos 16 anos, estimando-se uma rotação de 20 anos para obter laminados. No oeste do Paraná (Foz do Iguaçu e Santa Helena), os plantios foram prejudicados por um período seco de 3 meses logo após o plantio; já em Colombo (PR), no sul do estado, geadas fortes provocaram mortalidade total.
A precipitação média anual varia de 1.000 mm na Bahia a 3.700 mm em São Paulo, com chuvas distribuídas de modo uniforme no litoral de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e parte do litoral fluminense, e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula nesses litorais e nas serras do Mar, da Cantareira e dos Órgãos; pequena a moderada no inverno no planalto central e leste paulista, sul de Minas Gerais, chapadas do Distrito Federal e sul de Goiás; e moderada no inverno no sul do Mato Grosso do Sul. A temperatura média anual fica entre 18,1 ºC (Diamantina, MG) e 23,5 ºC (Correntina, BA); a média do mês mais frio vai de 14,1 ºC a 21,1 ºC (Correntina, BA) e a do mês mais quente, de 20 ºC (Diamantina, MG) a 26,6 ºC (Brasília, DF), com mínima absoluta de -5,5 ºC em Rio do Sul (SC). Ocorrem em média de 0 a 1 geada por ano (máximo absoluto de 10 na Região Sul), predominando ausência ou baixa frequência de geadas. A espécie habita climas tropicais (Af e Aw), subtropical de altitude (Cwa e Cwb, no sul de Minas Gerais) e subtropical úmido (Cfa, no nordeste do Rio Grande do Sul, litoral de Santa Catarina e centro-sul de São Paulo); introduzido no centro-oeste do Paraná, em clima Cfa, vem crescendo de forma satisfatória. Em condições naturais, mostra-se bastante sensível às variações microclimáticas.
O baguaçu é sensível às condições do solo, ocorrendo em terrenos profundos, aluviais e úmidos, tolerando inundação e encharcamento. Em plantios experimentais, cresce melhor em solos de fertilidade química elevada, profundos, bem drenados e de textura argilosa.