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Foto de Bacupari

Foto: Jonathan Lorencetti Ehlert (CC BY-SA) via GBIF

Bacupari

Garcinia gardneriana

Clusiaceae AmazôniaMata AtlânticaPantanal
  • até 15 mAltura
  • Médio portePorte
FrutíferasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: bacopari, bacoparé, bacupari-miúdo, bacuparizeiro, limãozinho, guanandi-branco, bacuri-pari, abio-do-mato, pacori

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à ordem Malpighiales (em Cronquist, Theales) e à família Clusiaceae (Guttiferae em Cronquist), dentro do clado das Eurosídeas I. O binômio válido é Garcinia gardneriana (Planch. & Triana) Zappi, publicado pela primeira vez no Kew Bull. 48 (2): 410, em 1993, tendo Rheedia gardneriana Planch. & Triana como sinônimo. O epíteto gardneriana presta homenagem ao botânico escocês George Gardner, enquanto a origem do nome do gênero é incerta. Já o nome popular bacupari nasce da união de bacuri — de ba (cair) e curi (logo), ou seja, o fruto que cai assim que amadurece — com pari (cerca), resultando em algo como bacuri de cerca.

Descrição botânica

Trata-se de planta que varia da forma arbustiva à arbórea, com folhagem perene (sempre-verde). Os indivíduos arbustivos chegam a apenas 1 m, mas os exemplares de maior porte alcançam, em casos excepcionais, cerca de 15 m de altura e 40 cm de DAP na fase adulta. O tronco é cilíndrico e ereto, em geral com fuste curto ou praticamente inexistente. A ramificação é dicotômica, formando copa larga e densa; os galhos ficam mais ou menos na horizontal e os mais novos são lisos e brilhantes ou cerosos. A casca atinge até 5 mm de espessura, com superfície externa cinzenta e áspera. As folhas são opostas e cruzadas, discolores, de textura cartácea a coriácea, lanceoladas ou oblongas, com ápice subacuminado a acuminado e base atenuada; o limbo mede de 4 a 19 cm de comprimento por 1,5 a 6 cm de largura, tem a face inferior lisa e brilhante, em geral sem glândulas, nervuras terciárias bem visíveis a olho nu e canais laticíferos escuros e densos; os pecíolos, glabros e canaliculados na parte superior, medem de 6 a 12 mm. As inflorescências são caulifloras, reunidas em fascículos axilares com muitas flores e sem brácteas. As flores são brancas, sem aroma, unissexuadas ou hermafroditas, com até 1 cm de diâmetro; as masculinas têm estames de 4 a 6 mm e as femininas apresentam estaminódios em 1 a 2 séries. O fruto é uma drupa amarela ou alaranjada, lisa e glabra, de formato oblongo a algo assimétrico, medindo de 1,5 a 4 cm de comprimento e cerca de 3 cm de diâmetro, com epicarpo geralmente ceroso; cada fruto pesa em média 9,4 g (até 15 g) e abriga 1 a 2 sementes. As sementes são oblongo-lanceoladas, achatadas, de cor castanha a castanho-escura com listras marrom-claras, medindo de 16 a 33 mm de comprimento por 8 a 15 mm de largura.

Uso e ecologia
alimentíciomadeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

Os frutos são comestíveis e bastante apreciados: a polpa branca que envolve as sementes é doce-acidulada, fundente e mucilaginosa, consumida in natura ou transformada em compotas, licores, sucos, mousses e sorvetes. A madeira, moderadamente densa (0,87 g/cm³) e macia, tem alburno esbranquiçado pouco distinto do cerne, grã direita e durabilidade moderada em condições naturais; é usada na construção civil, em obras externas como estacas, esteios e mourões, e na fabricação de cabos de ferramentas. Como lenha tem qualidade muito ruim e não serve para celulose e papel. A casca e o lenho contêm saponinas, taninos, cumarinas, antraderivados, esteroides e triterpenoides, e a casca do tronco é aproveitada em curtumes. No uso popular medicinal, atribui-se ao bacupari (garcínia) a redução da produção de gordura e da vontade de comer doces, efeito relacionado ao ácido hidroxicítrico, que inibe uma enzima ligada à síntese de gorduras como o LDL; é encontrado também em cápsulas de extrato seco em farmácias de manipulação. Essas informações sobre uso medicinal são apenas registro de pesquisa e não substituem orientação ou cuidados médicos.

Aspectos ecológicos

Espécie típica de sub-bosque, comporta-se como secundária inicial, secundária tardia ou clímax tolerante à sombra. Costuma ser um componente característico e abundante do estrato médio da floresta, sobretudo em formações mais desenvolvidas. Apresenta boa regeneração natural: foi registrada como a espécie de maior índice de regeneração na mata de Santa Luzia (PE), além de se regenerar em fragmento de Floresta Estacional Semidecidual Montana em Viçosa (MG). Ocorre no bioma Amazônia, em Floresta Ombrófila Aberta no sudeste do Pará e em Floresta Ombrófila Densa submontana no Pará; na Mata Atlântica, em Floresta Estacional Decidual, Floresta Estacional Semidecidual e Floresta Ombrófila Densa, do nível das terras baixas às formações montanas, com frequência de até nove indivíduos por hectare; e no Pantanal Mato-Grossense. Aparece ainda em matas ciliares, áreas de tensão ecológica, caxetais, florestas serranas, matas de cordão arenoso e restingas.

Floração e frutificação

A floração varia conforme a região: ocorre de agosto a janeiro em São Paulo, de setembro a outubro em Santa Catarina, de setembro a dezembro no Rio Grande do Sul e em fevereiro no Rio de Janeiro. Os frutos amadurecem em setembro no Rio de Janeiro, em novembro no Espírito Santo, de novembro a fevereiro em São Paulo, de janeiro a março no Rio Grande do Sul e de fevereiro a março em Santa Catarina.

Fauna associada

É espécie dioica, polinizada principalmente por abelhas e por diversos pequenos insetos. A dispersão dos frutos e sementes se dá por zoocoria, sobretudo por mamíferos como o bugio (Alouatta guariba), o macaco-prego (Cebus apella) e a cutia (Dasyprocta azarae), além de ictiocoria pelo pacu (Colossoma sp.) no Pantanal e de hidrocoria por águas pluviais e fluviais. Os frutos também atraem aves como sabiás (Turdus spp.) e sanhaços (Thraupis spp.), bem como tucanos, veados e morcegos.

Plantio e silvicultura
Sementes

A colheita começa quando os frutos exibem pontos claros que escurecem para castanho e alguns já caem ao chão; cerca de uma a duas semanas depois estão prontos e devem ser colhidos manualmente, com cuidado para não danificá-los. As sementes são retiradas à mão e secas à sombra. Há de 290 a 310 sementes por quilo. Não é necessário tratamento pré-germinativo. As sementes são recalcitrantes, perdendo rapidamente a viabilidade no armazenamento.

Produção de mudas

A semeadura deve ser feita logo após a extração das sementes dos frutos, e a repicagem quando as plântulas alcançarem de 5 a 10 cm de altura. A germinação é hipógea, com plântulas criptohipógeas; a emergência começa entre 6 e 91 dias após a semeadura, com taxa de 15,6%. As mudas ficam prontas para plantio depois de cerca de 12 meses em viveiro.

Características silviculturais

É espécie esciófila e medianamente tolerante ao frio. O crescimento é monopodial, com galhos inseridos em pseudoverticilos e sem derrama natural. Recomenda-se o plantio misto a pleno sol, associado a espécies pioneiras e secundárias, ou em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na floresta e plantio em linhas; a planta rebrota da touça. Em sistemas agroflorestais, é indicada para quintais caseiros, voltada exclusivamente à produção de frutos.

Crescimento e produção

Há poucos dados sobre o desenvolvimento da espécie em plantios, mas o crescimento é considerado lento.

Clima

A precipitação média anual na área de ocorrência vai de 830 mm, em Rio de Contas (BA), a 3.200 mm, em São Paulo, com chuvas uniformes do litoral do Rio de Janeiro ao Paraná e periódicas no restante da distribuição; a deficiência hídrica é nula no litoral paranaense e paulista. A temperatura média anual fica entre 17,5 °C (Viamão, RS) e 25,3 °C (Floresta, PE), com a mínima absoluta registrada de -0,9 °C em Morretes (PR). As geadas estão ausentes na maior parte da área, ocorrendo de forma rara no Paraná e em Santa Catarina. Pela classificação de Köppen, a espécie abrange os tipos Af, Am, As, Aw, Cfa, Cwa e Cwb.

Solos

Adapta-se a uma grande variedade de situações topográficas e de solos, mostrando-se indiferente às condições físicas do substrato, exceto em terrenos muito secos, onde quase não aparece. Em geral é encontrada em solos sílico-argilosos de alta fertilidade, podendo ocorrer até em solos graníticos; no sudeste do Pará desenvolve-se sobre Terra Roxa Estruturada. O pH desses solos varia de 3,9 a 5,6.