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Foto de Aroeira-verdadeira

Foto: João de Deus Medeiros (CC BY 2.0) via flickr

Aroeira-verdadeira

Myracrodruon urundeuva

Anacardiaceae CaatingaCerradoMata AtlânticaPantanal
  • 5 a 30 mAltura
  • Grande portePorte
Crescimento rápidoRaras / ameaçadasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: aderno, almecega, arendeúva, arendiuva, arindeúva, aroeira, aroeira-legítima, aruíva, aroeira-preta, aroeira-do-cerrado, pandeiro, aroeira-vermelha, itapicurus, aroeira-d’água, aroeira-da-serra, aroeira-de-mato-grosso, aroeira-do-campo, aroeira-do-ceará, aroeira-do-sertão, árvore-da-arara, chibatan, gibão, gibatão, guaritá, orindeúva, orindiuva, ubatan, ubatani, urindeúva, urindiúba, uriunduba, urundeúva

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pertencente à família Anacardiaceae e à ordem Sapindales, a aroeira-verdadeira foi descrita por Freire Allemão em 1862. O nome do gênero, Myracrodruon, tem origem em myra, que significa bálsamo, enquanto o epíteto urundeuva deriva do guarani, em que uba quer dizer árvore. Já o nome popular aroeira nasce da junção de arara com o sufixo eira, numa referência à preferência dessa ave por pousar e habitar a espécie, daí o sentido de árvore-da-arara. Entre seus sinônimos botânicos estão Astronium juglandifolium e Astronium urundeuva.

Descrição botânica

Árvore caducifólia que varia bastante de tamanho conforme o ambiente: na Caatinga e no Cerrado fica entre 5 e 20 m de altura, com tronco de 30 a 60 cm de DAP; na região do Chaco pode chegar a 27 m e 85 cm de DAP; e nas florestas pluviais atinge até 30 m de altura e 100 cm de DAP. O tronco costuma ser baixo e retorcido na Caatinga, mas na mata pluvial forma fuste de até 12 m. A ramificação é dicotômica a irregular e simpodial, com copa pouco densa e de formato irregular. A casca, de até 15 mm de espessura, é castanho-escura, áspera, suberosa e sulcada nos exemplares adultos, repartindo-se em placas escamosas quase retangulares; nos indivíduos jovens apresenta-se lisa, acinzentada e com lenticelas, sendo a casca interna avermelhada. As folhas são compostas, imparipinadas e de inserção alterna, com 5 a 7 pares de folíolos opostos e ovados, de até 5 cm de comprimento por 3 cm de largura; quando amassados, os folíolos liberam um forte cheiro de terebintina, semelhante ao de manga. As flores são pequenas: as masculinas, sésseis e de cor púrpura, e as hermafroditas, agrupadas em panículas de até 20 cm. O fruto é uma drupa globosa, preta, de até 5 mm de diâmetro, com cálice persistente que lembra uma estrela; o endocarpo é lignificado e formado por quatro camadas. A semente, piriforme e arredondada, mede de 3,5 a 4,2 mm de comprimento por 3,7 a 4,3 mm de largura, tem tegumento membranáceo, superfície rugosa, coloração marrom a quase preta e não possui endosperma.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícola
Produtos e utilizações

A madeira da aroeira-verdadeira está entre as mais densas (1,00 a 1,21 g/cm³ a 15% de umidade) e mais resistentes do Brasil. O alburno é branco ou levemente rosado, e o cerne, inicialmente bege-rosado a castanho-claro, escurece com o tempo até tons castanho-avermelhado-escuros ou negros. A superfície é lisa e um tanto lustrosa, com textura média e grã irregular, sem cheiro ou gosto perceptíveis. O cerne é durável e praticamente imputrescível, resistente ao apodrecimento e ao cupim de madeira seca por causa do alto teor de tanino, embora o alburno seja facilmente atacado por insetos. A permeabilidade a soluções preservantes é extremamente baixa, e a madeira aceita bem o polimento. É empregada em obras externas e construção civil — pontes, postes, esteios, currais, dormentes, vigas, caibros, ripas, assoalhos, móveis e peças torneadas — e é a preferida para cercas no interior do país, na forma de mourões, estacas e palanques; dormentes comuns chegam a durar cerca de 25 anos. Além da madeira, a casca fornece resina por lesão e contém até 17% de tanino, usado no curtimento de couros, e as cinzas servem à fabricação caseira de sabão. A madeira também é boa para carvão e lenha (poder calorífico de 4.582 kcal/kg) e pode ser usada na produção de álcool, mas não se presta a celulose e papel.

Aspectos ecológicos

Classificada como secundária inicial a tardia, ou clímax exigente de luz, a aroeira-verdadeira é frequente na vegetação secundária, rebrotando com vigor e formando, por vezes, bosques quase puros com plantas de todas as idades. Invade pastagens, resiste ao fogo e é uma árvore longeva. Tem ampla distribuição fitoecológica, aparecendo na Floresta Estacional Semidecidual Submontana, na Floresta Estacional Decidual, no Cerradão (onde é comum, sobretudo em afloramentos calcários), na Caatinga e mata-seca, no Carrasco, no Chaco sul-mato-grossense e no Pantanal, além de matas de galeria. Fora do Brasil, integra o estrato superior do Bosque Alto na Selva Tucumano-Boliviana e na região chaquenha. A densidade varia bastante: cerca de 115 indivíduos por hectare numa área de Caatinga na Bahia, de 2 a 11 por hectare na bacia do Rio Piranhas, na Paraíba, e de 11 a 99 por hectare em diferentes regiões de Pernambuco.

Floração e frutificação

A floração é ampla e muito variável conforme a região: ocorre em janeiro em Pernambuco, de março a abril no Ceará, de maio a julho em Minas Gerais, de junho a agosto em São Paulo, de julho a agosto no Distrito Federal, de agosto a setembro no Mato Grosso do Sul e em outubro no Rio Grande do Norte. A frutificação também se distribui ao longo do ano: de janeiro a fevereiro em Minas Gerais, de junho a agosto em Pernambuco e no Maranhão, de agosto a setembro no Piauí, de agosto a novembro em São Paulo, em setembro no Ceará e de setembro a outubro na Bahia, no Distrito Federal e nos dois Mato Grosso. Em plantio, a reprodução começa por volta dos 3 anos em Petrolina (PE), com 67% das árvores florindo e frutificando, e aos 3 anos e meio em Selvíria (MS); em São Paulo, entre 8 e 15 anos.

Fauna associada

A espécie é dioica ou monoica, de fecundação cruzada, e tem na polinização a participação principal das abelhas e de diversos pequenos insetos. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, feita pelo vento. Os frutos servem de alimento a periquitos e papagaios, e as flores, produtoras de pólen, têm grande importância apícola — na Chapada do Araripe, no sul do Ceará, é tida como uma das espécies melíferas mais relevantes.

Plantio e silvicultura
Sementes

A colheita das sementes é trabalhosa por causa do tamanho diminuto, que lembra uma pimenta-do-reino; elas são aladas e amadurecem rapidamente. Os frutos só devem ser colhidos plenamente maduros — firmes, rugosos, de cor marrom-escura e já iniciando a dispersão —, pois os imaturos não germinam. Como o ponto ideal de maturação coincide com a primavera, chuvas e vendavais podem inutilizar a colheita; recomenda-se o uso de uma rede de captura de insetos para a coleta. Cada quilo reúne de 47.800 a 65 mil sementes. A dormência é embrionária (não há impermeabilidade do tegumento), e o tratamento pré-germinativo indicado é imergir as sementes em água por 24 horas em temperatura ambiente e depois mantê-las na geladeira (4 a 5 ºC) por 6 dias. Em condições naturais elas perdem o poder germinativo rapidamente, mas têm comportamento ortodoxo: armazenadas em câmara fria (4 ºC) por 18 meses, apresentaram 67% de germinação, e a -20 ºC com 5% de umidade a longevidade prevista chega a 669 anos, sendo a criopreservação um método promissor. Em laboratório, recomenda-se temperatura alternada de 20 a 30 ºC com alternância de luz (8 horas de luz e 16 de escuro) sobre substrato de rolo de papel.

Produção de mudas

A indicação é semear em sementeiras e depois repicar as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes de polipropileno de tamanho médio, fazendo a repicagem a partir de 4 semanas após a germinação; a planta jovem guarda reservas em um tubérculo na raiz principal. A germinação é fanero-epígea e começa entre 4 e 40 dias após a semeadura, com poder germinativo bastante variável (de 32% a 92%); as mudas ficam prontas em cerca de 6 meses. A raiz da muda é axial, levemente tuberosa e de cor castanho-clara, com raízes secundárias pouco desenvolvidas. Mudas em raiz nua pegam bem no campo. Incorporar ao solo substratos colonizados pelos fungos antagônicos Trichoderma viride e T. harzianum antes do plantio favorece o desenvolvimento das plântulas. A propagação vegetativa é muito fácil: até mesmo partes verdes da árvore, fincadas no solo, brotam com vigor.

Características silviculturais

Espécie heliófila e medianamente tolerante ao frio, recupera-se bem após geadas graças às reservas do sistema radicial. Costuma ter forma péssima em plantio: fuste curto, crescimento simpodial e muitas ramificações mesmo em espaçamento apertado, bifurcando-se a 2 ou 3 m do solo e ficando muito esgalhada, com cicatrização ruim, de modo que precisa de desbrota e desrama para formar fuste. O plantio a pleno sol não combina com sua autoecologia; recomenda-se plantio misto com pioneiras de crescimento rápido, como Trema micrantha, para melhorar a forma. Em São Paulo, teve melhor desempenho em consórcio com Anadenanthera macrocarpa, e o consórcio com Pinus caribaea var. caribaea também se mostrou benéfico, sugerindo-se plantar a aroeira 1 ano após o pinus, em proporção de 20% a 40% e espaçamento de 3 por 2 m. Rebrota da touça após o corte, permitindo manejo por talhadia simples, e também rebrota da raiz. É tradicionalmente mantida em pastagens para sombrear o gado e, na Bolívia, indicada para quebra-ventos, plantada a 4 ou 5 m entre árvores nas fileiras centrais das cortinas. Muito explorada pelo extrativismo, tornou-se escassa em toda a sua área e consta da lista oficial de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção na categoria vulnerável, com esforços de conservação ex situ por meio de testes de progênies e procedências; a maior parte da variação genética encontra-se dentro das populações, o que orienta tanto a coleta de sementes quanto os programas de conservação.

Crescimento e produção

O crescimento é lento a moderado, com incremento médio máximo registrado de 5,60 m³ por hectare ao ano aos 9 anos de idade. Estima-se uma rotação de 8 a 10 anos para a produção de mourões e de 15 a 20 anos para a obtenção de dormentes.

Clima

A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 400 mm, na Bahia e em Pernambuco, a 2.300 mm no Ceará, havendo indicação para plantios no Nordeste a partir de 300 mm anuais em Caatinga hiperxerófila. As chuvas concentram-se no verão, ou no verão com máxima no outono, no Nordeste. A deficiência hídrica é moderada (estação seca de 2 a 5 meses) no Centro-Oeste e Sudeste, e de forte a muito forte (7 a 9 meses) no Nordeste e norte de Minas; embora resistente à seca, a árvore sofre com a falta de umidade, secando as pontas dos galhos sem morrer, mas com a forma prejudicada. A temperatura média anual oscila entre 18 ºC (Barbacena, MG) e 27,2 ºC (Mossoró, RN), com mínima absoluta de -2,2 ºC em Uberaba (MG). Tolera até cinco geadas por ano no extremo sul de sua distribuição, em São Paulo, mas predomina onde não há geadas ou onde elas são raras. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o tropical (As e Aw), o semiárido (BSw e BSh) e o subtropical de altitude (Cwa e Cwb).

Solos

Trata-se de uma espécie tipicamente calcífila: suas melhores populações surgem em solos rasos, ricos em cálcio e situados em declives acentuados. Ocorre naturalmente em solos de origem arenítica ou basáltica, de textura arenosa a argilosa e não inundáveis, sendo rara em solos profundos de Nitossolo (terra-roxa) ou em baixadas úmidas. No Paraná, destacou-se em solos de fertilidade elevada, bem drenados e de textura franca a argilosa, como o Latossolo Vermelho distroférrico. Responde fortemente à calagem, sobretudo em doses mais altas, o que confirma sua grande exigência em cálcio e magnésio; em Latossolo Vermelho-Amarelo distrófico, praticamente não se obtêm plântulas de boa qualidade sem correção química do solo.