Foto: Richard Fuller (CC0) via GBIF
Aroeira-salsa
Schinus molle
- 3 a 12 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: amescla, aroeira-branca, aroeiro-do-mato, anacauita, aroeira, aroeira-cinzenta, aroeira-folha-de-salso, aroeira-mole, aroeira-periquita, fruto-de-sabiá, periquiteira, aroeira-folha-de-salsa, aroeira-mansa, aroeira-piriquiteira, aroeira-salva, aroeirinha, bálsamo, corneíba, molhe, molho, pimenteira-do-peru, terebinto
Botânica
Seguindo a classificação proposta por Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Sapindales, dentro da família Anacardiaceae. Foi descrita por Linnaeus em 1753 como Schinus molle, contando com sinônimos como Schinus areira, Schinus betuminosus e Schinus molle var. areira. O nome do gênero remonta a schinos, designação grega antiga para a árvore-do-mástique (Pistacia lentiscus, também anacardiácea), cuja resina lembra a de algumas espécies de Schinus; o termo deriva ainda do verbo grego schizein, "cortar", em referência às incisões feitas na casca para extrair a resina. Já o epíteto molle vem de mulli, nome dado à planta pelos indígenas peruanos.
Pode se apresentar como arbusto ou como árvore perenifólia, em geral com 3 a 12 m de altura e 15 a 35 cm de DAP, embora possa excepcionalmente chegar a 25 m e 100 cm de DAP na fase adulta. O tronco é curto e grosso, levemente inclinado e tortuoso, com ramificação iniciando a pequena altura. Os ramos são intensos, flexíveis e pendentes, lembrando os do salseiro (Salix humboldtiana), e exalam um cheiro característico de terebintina quando partidos; a copa é larga, aberta, arredondada e de aspecto pendular, mediamente densa, podendo alcançar 8 m de diâmetro. A casca chega a 10 mm de espessura: a externa é cinza-avermelhada, rugosa e escamosa, soltando-se em placas pequenas e liberando resina amarelada quando velha, enquanto a interna é amarelada. As folhas são compostas, paripinadas ou imparipinadas, alternas, com 10 a 30 cm de comprimento, formadas por 4 a 12 jugos e fixadas a um pecíolo de 2 a 5,5 cm; os folíolos são sésseis, opostos, linear-lanceolados, denteados, de base cuneada ou truncada e ápice agudo a acuminado, subcoriáceos, de tom verde-claro-acinzentado e 2 a 8 cm de comprimento por 0,3 a 1 cm de largura, liberando aroma suave. Nos primeiros meses a planta apresenta folhas simples, exibindo dimorfismo foliar. As flores são pequenas e amarelo-esverdeadas, dispostas em panículas múltiplas, terminais e axilares, pubescentes, de até 16 cm, surgindo nas pontas dos ramos novos. O fruto é uma drupa semicarnosa e globosa de 4 a 8 mm, cujo epicarpo muda do verde ao marrom-avermelhado ao amadurecer, liberando odor parecido com o da pimenta. A semente é ovalada, castanha e mede de 3 a 4 mm.
Uso e ecologia
A madeira é muito densa (1,18 a 1,22 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno branco e cerne pardo-avermelhado e veios escuros, grã entrecruzada e boa durabilidade quando exposta às intempéries; em contrapartida, é pouco elástica, racha com facilidade e tem trabalhabilidade fácil. Seu uso é limitado, restringindo-se a aplicações locais em construção civil, marcenaria, esteios e trabalhos de torno, sendo bastante empregada em mourões de cerca, cujos postes alcançam até 50 anos de durabilidade graças ao teor de tanino. Presta-se relativamente bem à produção de lenha e carvão, mas é inadequada para celulose e papel. Os usos da espécie remontam aos incas, que aproveitavam a resina para cicatrizar feridas, como purgante e até para embalsamar mortos. Dos frutos extrai-se um corante amarelo, e a casca contém os pigmentos oxidase e schinoxidase. O córtex produz uma resina elástica e pegajosa impregnada de terebintina; a semente, rica em ácido linoleico, fornece um fixador de perfumes usado em loções, talcos e desodorantes, além de óleo com ação fungotóxica que pode servir como fungicida natural — sua concentração varia conforme a estação. A casca, adstringente e rica em tanino, é empregada em curtumes. Nas folhas foram identificados flavonoides livres e combinados, com acúmulo de lipídios em folhas e cascas. A folhagem não é palatável nem tem valor forrageiro, embora no Chile seja usada no preparo de adubo orgânico. Na alimentação humana, a cobertura açucarada e o arilo dos frutos, dissolvidos em água, rendem uma bebida refrescante e diurética chamada upi no Peru, que ao fermentar vira xarope ou vinagre; em vários países os frutos servem de especiaria, como substituto ou adulterante da pimenta-preta, e na Argentina as sementes são comercializadas como pimenta-da-bolívia para conservas. Convém cautela no consumo, pois os frutos podem deprimir o miocárdio e dilatar os vasos sanguíneos, baixando a pressão arterial.
Trata-se de espécie pioneira a secundária inicial, considerada uma das precursoras mais agressivas em solos pedregosos e bem drenados, com boa regeneração natural e grande longevidade. Integra importantes formações ecológicas do sistema de Holdridge, como a estepe espinhosa baixo-montana e o bosque seco baixo-montano. No Brasil ocupa diversas formações vegetais, destacando-se a Estepe Arborizada do Planalto Sul-Rio-Grandense, onde figura entre as árvores dominantes, a Estepe Parque do Planalto da Campanha Gaúcha, a Floresta Estacional Decidual Baixo-Montana e a Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária) em municípios catarinenses como Lajes, Campos Novos e Curitibanos. Nos capões circulares dos campos de altitude de Minas Gerais, está entre as espécies pioneiras que preparam o terreno para o posterior surgimento da Araucaria angustifolia (pinheiro-do-paraná).
A planta tem sistema sexual monoico ou polígamo-dioico. A floração ocorre de agosto a dezembro no Paraná, de setembro a outubro em Santa Catarina e de setembro a novembro no Rio Grande do Sul. Os frutos amadurecem de novembro a abril no Rio Grande do Sul e de dezembro a fevereiro no Paraná. No Brasil, a reprodução começa por volta dos 2 anos de idade, enquanto no Chile só se inicia após os 10 anos.
A polinização é feita sobretudo pelas abelhas. A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, com destaque para os mamíferos, além de ornitocórica, por aves, e hidrocórica, pela água. Os frutos são atrativos e muito procurados pelos pássaros, seus principais dispersores. Por serem melíferas, as flores também têm valor apícola.
Plantio e silvicultura
As sementes são obtidas pela maceração dos frutos e, em seguida, secas a meio-sol em ambiente arejado. Cada quilo reúne de 15 mil a 66 mil sementes, que não têm dormência; ainda assim, para acelerar a germinação, recomenda-se deixá-las imersas em água à temperatura ambiente por 12 horas. O armazenamento não deve passar de 1 ano, sob risco de queda acentuada do poder germinativo — em condições não controladas, registrou-se perda de 12% já após 60 dias.
Indica-se a semeadura em sementeiras, com posterior repicagem para sacos de polietileno ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, embora a semeadura direta no campo também seja viável. A repicagem deve ocorrer logo após a germinação, pois o sistema radicial é muito sensível ao transplante. A germinação é epígea, iniciando-se entre 20 e 120 dias após a semeadura, com poder germinativo variável de 30% a 80%; cerca de 6 meses depois as mudas atingem o tamanho adequado para o plantio.
Heliófila e moderadamente resistente ao frio, a aroeira-salsa tolera baixas temperaturas no Sul do Brasil, ainda que geadas fortes possam causar danos. Seu hábito é variável e irregular, com fuste curto, ramificação pesada e ocasional formação de multitroncos; como a desrama natural é fraca, exige poda de condução e de galhos. O plantio puro a pleno sol é adequado, e a espécie rebrota da touça após corte ou queimada. Em sistemas agroflorestais, é usada na região do Chaco em arranjos silviagrícolas para proteger o cultivo de cítricos e recomendada em sistemas silvipastoris para sombrear o gado; por resistir bem ao vento em locais expostos, presta-se também à formação de quebra-ventos.
O crescimento inicial em altura é bastante acelerado. Ainda na fase de viveiro, no primeiro ano de vida, a planta costuma alcançar de 50 cm a 1,20 m. Entre 3 e 4 anos de idade pode medir de 2 a 2,5 m de altura e apresentar DAP em torno de 10 cm.
A precipitação média anual em sua área brasileira de ocorrência fica entre 1.300 e 2.000 mm no Rio Grande do Sul, embora fora do país a espécie vegete em locais com mais de 250 mm. O regime de chuvas é uniforme no Planalto Catarinense e periódico no Extremo Sul, com concentração no verão ou no inverno. A deficiência hídrica é pequena no verão sul-rio-grandense e de pequena a moderada no inverno do sul mineiro; muito resistente à seca, suporta até 5 meses de período seco na Argentina. A temperatura média anual varia de 15,2 ºC (Curitibanos, SC) a 20 ºC (São Luiz Gonzaga, RS) no Brasil, e de 8 ºC a 17 ºC no exterior; a média do mês mais frio fica entre 10,6 ºC (Curitibanos, SC) e 15,6 ºC (Machado, MG), e a do mês mais quente entre 19,4 ºC (Curitibanos, SC) e 26,3 ºC (Uruguaiana, RS). A mínima absoluta registrada no Brasil é de -9,8 ºC (Curitibanos, SC), chegando a -13 ºC na Argentina. O número de geadas anuais varia de 0 a 15 em média, com máximo absoluto de 30 na Região Sul. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos temperado úmido (Cfb), subtropical úmido (Cfa) e subtropical de altitude (Cwa) no Brasil, vegetando em outros países desde o clima semiárido até o subúmido tropical e montanhoso.
Cresce naturalmente em solos secos e arenosos, adaptando-se com facilidade a terrenos pedregosos e de baixa fertilidade química. Tolera ainda solos com salinidade moderada.