Foto: Michel Pick (CC BY) via GBIF
Araucária
Araucaria angustifolia
- 10 a 35 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: pinheiro-do-paraná, pinheiro-araucária, pinheiro-caiová, curi, curiúva, pinhão, pinheiro-chorão, pinheiro, pinheiro-branco, pinheiro-brasileiro, pinheiro-macaco, pinheiro-das-missões, pinheiro-preto, pinho, pinho-do-paraná, pinho-brasileiro
Botânica
Pelo Sistema de Classificação de Engler, a espécie pertence à classe Coniferopsida, ordem Coniferae e família Araucariaceae. Seu nome científico é Araucaria angustifolia (Bertoloni) Otto Kuntze, publicado em 1898. Já recebeu vários sinônimos botânicos, como Araucaria brasiliana, Araucaria brasiliensis, Colymbea angustifolia e Pinus dioica. O nome do gênero faz referência a Arauco, região chilena de onde vem a espécie-tipo, enquanto o epíteto angustifolia tem origem latina e significa folha estreita e pontuda. No exterior é chamada de kuri'y no Paraguai e pino parana na Argentina, sendo comercializada como parana pine.
Conífera perenifólia de aparência singular, que contrasta com as demais árvores do Sul do país. Costuma medir de 10 a 35 m de altura e ter DAP entre 50 e 120 cm, mas pode, excepcionalmente, alcançar 50 m de altura e mais de 250 cm de DAP na fase adulta. Em 1972, o engenheiro florestal Sérgio Ahrens registrou em Quedas do Iguaçu (PR) um exemplar extraordinário, talvez único, com 64 m de altura e DAP de 2,30 m, posteriormente morto após ser atingido por um raio. O tronco é reto, colunar e praticamente cilíndrico, com fuste que pode passar de 20 m de comprimento. A ramificação ocorre em pseudoverticilos muito característicos, e a copa, alta e estratificada, tem formato de taça nas árvores velhas e cônico nas jovens. A casca chega a 10 cm de espessura nos indivíduos adultos: a externa é marrom-arroxeada, áspera e rugosa, soltando-se em lâminas na parte alta do fuste, e a interna é resinosa e esbranquiçada com tons rosados. As folhas são simples, alternas, espiraladas, de lineares a lanceoladas e coriáceas, com até 6 cm de comprimento por 10 mm de largura. Trata-se de planta dioica, com flores masculinas em amentos cilíndricos de 10 a 22 cm de comprimento por 2 a 5 cm de diâmetro, e flores femininas reunidas em estróbilo, conhecido como pinha. A pinha mede de 10 a 25 cm de diâmetro, reúne de 700 a 1.200 escamas, abriga de 5 a 150 sementes e pode pesar até 4.700 g; em geral há de 1 a 2 pinhas por ramo, embora já se tenha registrado até 14 num único galho. As sementes, os conhecidos pinhões, são carnosas, têm de 3 a 8 cm de comprimento por 1 a 2,5 cm de largura e pesam em média 8,7 g; a amêndoa, branca ou rosa-clara, é muito rica em amido (54,7%) e em aminoácidos.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,50 a 0,61 g/cm³ a 15% de umidade; massa específica básica de 0,42 a 0,48 g/cm³), com alburno pouco diferenciado do cerne e coloração branco-amarelada uniforme. A superfície é lisa e medianamente lustrosa, com textura fina, grã direita e cheiro suave de resina. Apresenta baixa resistência ao apodrecimento e a cupins de madeira seca, mas absorve bem preservantes sob pressão. A secagem natural é trabalhosa, com tendência a empenos e rachaduras, enquanto a usinagem é fácil tanto manual quanto mecanizada, com boa aceitação de colagem e acabamentos. Os anéis de crescimento são anuais e nítidos, permitindo determinar a idade. Os nós, muito densos e resinosos, resistem bem à deterioração. Em serraria, um pinheiro adulto de grande porte rende cerca de 23,62% em tábuas (a parte nobre), além de gerar costaneiras, galhos, casca, ponta de fuste e serragem. A madeira serrada e roliça serve para construções em geral, caixotaria, móveis, laminados, forros, ripas, caibros, fôrmas para concreto, palitos de fósforo, lápis, marcenaria, tanoaria, compensados, postes, cabos de vassoura e até mastros de navios, sendo praticamente insubstituível na fabricação de tampos harmônicos de piano. Durante muito tempo foi um dos principais produtos da exportação brasileira; em 1765, um decreto real autorizou o corte de pinheiros em Curitiba para construir a nau São Sebastião, feita inteiramente de pinho. A espécie produz ainda celulose de fibra longa (teor de celulose de 58,3% e de lignina de 28,5%) para papel de alta qualidade. A lenha tem qualidade mediana, mas os nós-de-pinho são excelente combustível, com poder calorífico acima de 8.000 calorias, muito usados outrora em locomotivas e na navegação. A resina exsudada da casca rende alcatrão, óleos, terebintina, breu, vernizes, acetona e outros produtos industriais. O pinhão é alimento valioso e nutritivo, consumido cru, cozido ou assado, com sabor que lembra castanha, e foi importante na dieta de povos indígenas e dos primeiros colonos; ainda hoje é vendido nas estradas do Paraná e de Santa Catarina entre março e julho. O nó-de-pinho é apreciado em peças de artesanato e ornamentação, e na medicina popular o pinhão, a casca, o nó e os brotos são empregados contra anemia, reumatismo, varizes, cortes, feridas e outras afecções.
Classificada como secundária longeva de temperamento pioneiro e heliófila, a araucária avança sobre os campos formando continuamente novos capões. É espécie emergente que marca a fisionomia da vegetação e forma todo o estrato superior da chamada mata de araucária ou pinheiral, em geral associada a gêneros como Ilex, Ocotea e Podocarpus no estrato logo abaixo. Sua regeneração natural é fraca em ambientes pouco perturbados, já que as plântulas não se desenvolvem sob a baixa luminosidade do interior da floresta, sendo melhor sucedida em campos abertos e até em solos rasos. É árvore muito longeva, vivendo em média de 140 a 250 anos, com exemplares raros que ultrapassam os 300 anos (até 386 anos segundo a contagem de anéis); estimativas de 500 a 700 anos para certos indivíduos devem ser vistas com cautela. A casca grossa confere tolerância a incêndios fracos de superfície. É característica e exclusiva da Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), nas formações Aluvial, Submontana, Montana e Alto-Montana, aparecendo também em áreas de tensão ecológica com a Floresta Estacional Semidecidual e a Floresta Ombrófila Densa. Numa floresta primária ocorrem de 5 a 25 árvores por hectare, podendo representar cerca de 30% do volume comercial; inventário em Caçador (SC) registrou volume comercial médio de 596 m³/ha. Em razão da exploração intensa ao longo do século passado, a espécie consta nas listas oficiais de plantas ameaçadas de extinção, classificada como vulnerável e, em São Paulo, como criticamente em perigo.
Os estróbilos masculinos surgem de agosto a janeiro, enquanto os femininos podem ser observados o ano todo. As pinhas amadurecem de fevereiro a dezembro, conforme a variedade, normalmente cerca de dois anos após a polinização. Os pinhões são encontrados de março a setembro, com época principal de abril a junho no Paraná, de abril a julho em São Paulo e Santa Catarina e de abril a agosto no Rio Grande do Sul. Árvores isoladas começam a produzir sementes entre 10 e 15 anos de idade e, em povoamentos, a partir de 20 anos. A produção é anual e variável, com anos de contra-safra após dois ou três anos seguidos de alta produção. Um pinheiro produz, em média, cerca de 40 pinhas por ano, podendo chegar a 200, e mantém-se produtivo por mais de 200 anos.
É planta dioica e alógama, polinizada principalmente pelo vento; o amadurecimento do pólen e a polinização ocorrem de agosto a outubro no Sul do Brasil e de outubro a dezembro em Minas Gerais. A ave grimpeirinho (Leptasthenura setaria) também transporta pólen ao buscar alimento e, além disso, atua como controle biológico ao consumir insetos-praga, tendo todo o seu ciclo de vida ligado à araucária. A dispersão das sementes é predominantemente autocórica e barocórica, limitada a 60 a 80 m da árvore-mãe devido ao peso dos pinhões, mas também zoocórica. Entre os dispersores estão roedores como ratos-do-mato (Oryzomys ratticeps), pacas (Agouti paca), cutias (Dasyprocta azarae e D. aguti), ouriços (Coendu villosus) e o esquilo-brasileiro (Sciurus aestuans). A cutia, que enterra os pinhões para consumo posterior, é uma das disseminadoras mais importantes. Entre as aves, a gralha-picaça ou gralha-amarela (Cyanocorax chrysops) esconde sementes no solo, e também atuam a gralha-azul (Cyanocorax caeruleus) e o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea). Na Serra da Mantiqueira destacam-se ainda o aiuru (Amazona farinosa), o tucano (Ramphastos toco), a tiriba (Pyrrhura sp.) e o macaco-prego (Cebus apella). O ser humano, ao consumir o pinhão, também pode dispersá-lo.
Plantio e silvicultura
Os pinhões são obtidos de duas formas: catados no chão quando as pinhas se desfazem ao amadurecer (método pouco recomendável, pois o solo expõe as sementes ao ataque rápido de roedores e insetos) ou extraídos manualmente das pinhas derrubadas da árvore. Convém descartar as sementes pequenas das extremidades e selecionar as maiores, acima de 6 cm de comprimento, que originam mudas mais vigorosas. Há de 123 a 205 sementes por quilo, com peso bastante variável conforme a idade da árvore e a região. O tegumento externo retarda a germinação por dificultar a entrada de água, de modo que é usual deixar os pinhões imersos em água à temperatura ambiente por 24 a 48 horas e semear apenas os que afundam. As sementes têm comportamento recalcitrante e curta longevidade natural, perdendo totalmente a viabilidade em até um ano após a coleta, sobretudo quando desidratadas. O teor de água é de cerca de 50% na maturação, e abaixo do nível crítico de 38% a 40% de umidade a viabilidade é perdida. Recomenda-se armazenamento em ambiente com umidade relativa acima de 80%; em câmara fria, sementes com 48% de umidade inicial e 88% de poder germinativo mantiveram 56% de germinação após 16 meses.
A semeadura pode ser direta no campo (três pinhões por cova), em recipiente (dois pinhões na horizontal) ou em sementeiras. Os recipientes devem ter no mínimo 20 cm de altura, 7 cm de diâmetro e 300 a 500 ml de substrato; também se testaram tubetes de polipropileno de 50 e 100 ml. Embora se diga que a espécie não tolera repicagem, a prática é comum em viveiros e, feita assim que surge a parte aérea (até 15 cm de altura), pode atingir 100% de pegamento. A muda desenvolve uma raiz pivotante bem pronunciada. A germinação é hipógea e desuniforme, iniciando entre 20 e 110 dias após a semeadura e chegando a 90% com pinhões recém-colhidos. A permanência no viveiro varia de 4 a 6 meses, até que as mudas atinjam de 15 a 20 cm de altura. A espécie forma micorrizas, e a propagação vegetativa por enxertia é viável, embora pouco empregada. Recomenda-se produzir mudas a céu aberto, para que se adaptem morfologicamente e sobrevivam melhor; a poda da raiz no viveiro, longe de ser prejudicial, melhora a qualidade da muda. Na semeadura direta, aves como a perdiz (Rhynchotus rufescens) e roedores como o ratinho-do-mato (Oligoryzomys utiaritensis) podem causar prejuízos.
A araucária mostra boa adaptabilidade às condições de luz: as maiores taxas fotossintéticas ocorrem em mudas sob sombreamento, e na fase juvenil ela tolera sombra, embora não suporte sombreamento lateral quando plantada em faixas de capoeira alta; na fase adulta é heliófila. Tem hábito de crescimento monopodial e forma cônica quando jovem. A desrama natural é deficiente, de modo que a poda de galhos, possível a partir do terceiro ano (poda verde) em sítios adequados, melhora a qualidade da madeira. Pode ser plantada a pleno sol, em plantio puro, principalmente em solos quimicamente férteis. A semeadura direta no campo é o método mais indicado, em geral com superlotação inicial (6 mil a 12 mil sementes por hectare) e seleção posterior das plantas mais vigorosas; para o sudoeste do Paraná recomenda-se espaçamento de 3 x 0,60 m, com cerca de 5 mil indivíduos por hectare. Em plantios de conversão, abrem-se faixas na direção leste-oeste em capoeiras de bracatinga (Mimosa scabrella) e taquara (Chusquea sp.), com liberação gradual da vegetação até a exposição total das plantas por volta dos 7 anos. Embora rebrote após o corte, não se recomenda o manejo por talhadia. Nos três primeiros anos é possível consorciar a araucária com culturas como milho, feijão, arroz e aveia, que fornecem sombreamento e renda extra sem prejudicar seu crescimento. É a espécie nativa mais estudada quanto a melhoramento e conservação genética; recomenda-se usar sementes selecionadas da mesma zona ecológica do plantio.
O crescimento inicial é lento, mas a partir do terceiro ano, em sítios adequados, o incremento anual em altura chega a 1 m e, do quinto ano em diante, o diâmetro cresce de 1,5 a 2,0 cm por ano. Os povoamentos são bastante heterogêneos, sobretudo na altura e na formação de pseudoverticilos. Espera-se incremento volumétrico anual de 10 a 23 m³/ha, podendo atingir 30 m³/ha/ano com casca em casos excepcionais. O fuste é quase cilíndrico, com fator de forma de 0,75 a 0,80. As árvores jovens produzem dois pseudoverticilos por ano e as adultas apenas um. Estima-se rotação a partir de 15 anos para desdobro em solos férteis e com espaçamento adequado, com os primeiros desbastes entre os 7 e 12 anos. A espécie já foi plantada fora de sua área natural, como no sul da Bahia, e introduzida em países como África do Sul, Austrália, Quênia, Madagascar e Zimbábue, com desempenho variável.
A precipitação média anual vai de 1.400 a 2.300 mm na Região Sul e de 1.200 a 2.000 mm na Sudeste, com extremos entre 1.200 e 3.000 mm. No Sul as chuvas são bem distribuídas ao longo do ano e a deficiência hídrica é nula; no Sudeste concentram-se no verão e há deficiência pequena a moderada no inverno. A temperatura média anual varia de 13,2 ºC (São Joaquim, SC) a 21,4 ºC (Cianorte, PR), com mínimas absolutas que chegam a -11,6 ºC em Xanxerê (SC) e a -7,7 ºC em Campos do Jordão (SP), podendo atingir -15 ºC na relva. O número de geadas por ano vai de 0 a 30, com máximo de 81, e há ocorrência de neve em parte da área, como em São Joaquim, onde neva quase todos os anos. Pela classificação de Koeppen, predominam os tipos temperado úmido (Cfb), subtropical úmido (Cfa) e subtropical de altitude (Cwb).
A exigência em solos é um dos aspectos mais delicados para o cultivo: dentro de sua própria área natural, apenas cerca de 25% da superfície oferece condições economicamente vantajosas. Sob o mesmo clima podem coexistir plantios com incremento anual de até 27 m³/ha e outros de apenas 1 m³/ha, diferença ligada à fertilidade química e às propriedades físicas, sobretudo a profundidade do solo. São particularmente adequados os Latossolos Vermelhos distroférricos (antigos Latossolos Roxos) do oeste e sudoeste do Paraná e do oeste de Santa Catarina, com pH abaixo de 6,0, especialmente em áreas de floresta recém-derrubada. As condições ideais incluem solos profundos, friáveis, porosos, bem drenados, de textura franca a argilosa e ricos em cálcio e magnésio, oriundos de vegetação primária ou secundária. Ainda assim, a espécie pode crescer com viabilidade econômica em solos menos férteis, como o Cambissolo Húmico alumínico. Ocorre naturalmente em solos de origens variadas (granitos, basaltos, dioritos, filitos e sedimentos). Solos rasos, com menos de 100 cm de profundidade, e lençol freático acima de 90 cm prejudicam o crescimento e tornam a planta mais sensível à seca de inverno, embora não impeçam a regeneração natural.