Foto: Fabrício Mil Homens Riella (CC BY) via GBIF
Araticum-de-porco
Annona rugulosa
- até 15 mAltura
- Médio portePorte
Também conhecida como: ariticum-de-porco, araticum, ariticum, ariticum-de-cavalo, ariticum-mirim, ariticum-pequeno, araticum-azedo, araticum-preto, araticum-quaresma, ariticum-do-mato, cortiça, cortiça-de-comer, corticeira, embira, quaresma
Botânica
Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG III), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado das magnoliídeas, ordem Magnoliales e família Annonaceae, dentro do gênero Annona. O binômio aceito é Annona rugulosa (Schltdl.) H. Rainer, descrito originalmente em 1835. A espécie reúne diversos sinônimos botânicos já registrados sob o gênero Rollinia, como Rollinia glaziovii, Rollinia occidentalis e Rollinia rugulosa. O nome do gênero, Annona, tem origem em anón, denominação dada no Haiti a uma planta do mesmo grupo, enquanto o epíteto rugulosa remete à superfície rugosa do fruto. Os indígenas kaingang, no Rio Grande do Sul, chamam a planta de kokrey-tán.
Trata-se de uma árvore semidecídua. Os exemplares mais desenvolvidos alcançam por volta de 15 m de altura e até 50 cm de diâmetro à altura do peito (medido a 1,30 m do solo) quando adultos, mas em certas situações não passam de arvoretas de 4 m. O tronco varia de reto a pouco tortuoso, com fuste em geral curto, de no máximo 5 m. A ramificação é cimosa ou dicotômica, formando uma copa densa e ampla que pode chegar a 5 m de largura. A casca atinge até 10 mm de espessura, sendo a porção externa (ritidoma) escura e fibrosa. As folhas são glabras na face superior, de consistência papirácea, com comprimento entre 3 cm e 23 cm. As inflorescências costumam reunir 1 ou 2 flores, raramente 3, em estágios distintos; cada flor se apoia em um pedicelo ligado a um pedúnculo mais curto, com brácteas próximas à base e logo acima da articulação. As flores são trímeras e de cor amarelada. O fruto é um sincarpo carnoso e indeiscente, de escamas quase lisas, com até 5 cm de diâmetro, cuja polpa de sabor doce e levemente ácido envolve as sementes. Estas medem cerca de 1 cm, têm formato irregular um pouco anguloso, coloração amarronzada com manchas e superfície lisa.
Uso e ecologia
A madeira é leve, com densidade aparente de 0,60 g/cm³, e tem alburno e cerne pouco diferenciados, ambos de coloração branca. Apresenta grã direita, textura grosseira e baixa durabilidade quando exposta às intempéries. Pelas dimensões reduzidas, o aproveitamento da madeira serrada e roliça é limitado a usos locais, e ela não serve para a fabricação de celulose e papel, embora produza lenha de qualidade aceitável. Os frutos são comestíveis, saborosos e ligeiramente azedos, melhor apreciados in natura. A espécie também tem potencial melífero, fornecendo néctar e pólen. Na medicina popular, atribuem-se às folhas propriedades antirreumáticas, anti-inflamatórias e cicatrizantes, empregadas em infusão como tônico e contra cólicas, diarreias e distúrbios digestivos; o pó das cascas e sementes seria usado contra vermes, e as folhas aquecidas, aplicadas sobre feridas e lesões de pele. Essas informações têm caráter apenas documental e não substituem orientação médica nem servem para prescrever qualquer tratamento.
É uma espécie pioneira, situada entre os estágios secundário inicial e secundário tardio. Aparece com frequência na vegetação secundária, como capoeiras e potreiros, onde chega a formar pequenos agrupamentos, sendo rara no interior de florestas primárias. Em Irati (PR), pesquisadores registraram 21 indivíduos por hectare no sub-bosque de um trecho de Floresta Ombrófila Mista secundária, com cerca de 2 m de altura. No bioma Mata Atlântica, ocorre na Floresta Estacional Decidual, nas formações de terras baixas (RS), submontana e montana (SC); na Floresta Estacional Semidecidual, nas formações submontana e montana (MG e PR), com até 19 indivíduos por hectare; na Floresta Ombrófila Densa de terras baixas, no Vale do Itajaí (SC), onde é rara; e na Floresta Ombrófila Mista, na formação montana de PR, RS, SC e SP. Também é encontrada em matas ciliares de MG e PR e em restingas do Rio de Janeiro.
A floração acontece de julho a dezembro no Paraná e de outubro a novembro no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Os frutos amadurecem em novembro em São Paulo, de janeiro a março no Rio Grande do Sul, de dezembro a maio no Paraná e de março a abril em Santa Catarina. Em condições favoráveis, a planta pode começar a frutificar entre 4 e 5 anos de idade.
Espécie monoica, tem a polinização realizada por abelhas e por diversos insetos de pequeno porte. A dispersão dos frutos e sementes ocorre tanto por barocoria (queda pela ação da gravidade) quanto por zoocoria, com a participação de animais.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos maduros, retirados diretamente da árvore ou do chão após a queda. O beneficiamento envolve descascar, triturar ou macerar e lavar para separar a semente da polpa; depois, as sementes são secas em peneiras, sendo revolvidas com frequência para uma secagem uniforme. Cada quilo reúne aproximadamente 2.850 sementes. A espécie aparentemente apresenta dormência por indiferenciação embrionária, já que o embrião imaturo só cresce após completar seu desenvolvimento. Para superá-la, recomenda-se escarificação mecânica ou em ácido sulfúrico por 1 minuto, podendo-se ainda testar estratificação em areia úmida conforme o tipo de dormência. Sem esse tratamento, a germinação fica muito baixa, em torno de 15%. As sementes têm comportamento fisiológico recalcitrante, mantendo a viabilidade por pouco tempo fora de ambiente controlado.
Indica-se semear de 2 a 3 sementes em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno. Quando preciso, a repicagem é feita de 3 a 5 semanas depois da germinação. A germinação é epígea, com plântulas fanerocotiledonares, e a emergência começa entre 25 e 35 dias. O poder germinativo é baixo, variando de 5% a 50%, com média de 30%. As mudas devem permanecer no viveiro por pelo menos 6 meses após a semeadura.
É uma espécie heliófila que suporta baixas temperaturas. Seu crescimento é monopodial, com pouca emissão de ramos laterais, e por vezes emite brotações na base, dando aspecto de múltiplos troncos; como tem derrama natural deficiente, exige poda dos galhos. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro, com bom desempenho, ou em plantios mistos consorciada a espécies tolerantes à sombra, em vegetação matricial, em faixas abertas na vegetação secundária e em linhas, brotando bem da touça. É recomendada em sistemas agroflorestais para a arborização de cultivos e pastagens.
Há poucos registros sobre seu desempenho em plantios, mas sabe-se que o crescimento é lento.
A precipitação média anual vai de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 2.500 mm, no Rio Grande do Sul, com chuvas de regime uniforme a periódico e sem deficiência hídrica na região Sul. A temperatura média anual fica entre 13,2 °C (São Joaquim, SC) e 19,6 °C (Paranaguá, PR); a média do mês mais frio varia de 8,2 °C (Campos do Jordão, SP) a 16,6 °C (Paranaguá, PR), e a do mês mais quente, de 17,2 °C (São Joaquim, SC) a 24,6 °C (Santa Maria, RS). A mínima absoluta registrada foi de -10,4 °C, em Caçador (SC). As geadas são comuns no Planalto Sul-Brasileiro, com média de 0 a 40 por ano, podendo chegar a 79 na região de Campos do Jordão (SP). Pela classificação de Köppen, predominam os tipos Cfa (subtropical de verão quente) no PR, RS e SC; Cfb (temperado de verão ameno) no centro-sul do PR, em SC, no RS e em Campos do Jordão; e Cwb (subtropical de altitude, inverno seco e verão ameno) no sul de MG.
Desenvolve-se em solos úmidos, de relevo pouco acidentado e baixa fertilidade natural, com pH médio em torno de 4,87.