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Foto de Angico-vermelho

Foto: autor não identificado (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia

Angico-vermelho

Anadenanthera colubrina var. cebil

Mimosaceae Mata AtlânticaCerradoCaatingaPantanal
  • 8 a 20 m (até 30 m)Altura
  • Grande portePorte
Crescimento rápidoRaras / ameaçadasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: angico, angico-amarelo, angico-branco, angico-brabo, angico-caroçudo, angico-castanho, angico-cedro, angico-fava, angico-jacaré, angico-mama-de-porco, angico-manso, angico-preto, angico-preto-rajado, angico-rajado, angico-rosa, angico-verdadeiro, angico-de-caroço, angico-de-casca, angico-de-curtume, angico-do-banhado, angico-do-campo, angico-do-mato, angico-dos-montes, arapiraca, brincos-de-sagui, brincos-de-sauí, cambuí-ferro, curupai, guarapiraca, guarucaia, paricá

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Seguindo o sistema de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas) e ordem Fabales, dentro da família Mimosaceae (subfamília Mimosoideae das Leguminosae). O táxon completo é Anadenanthera colubrina (Velloso) Brenan var. cebil (Griseb.) Altschul. Ao longo do tempo recebeu vários nomes hoje tidos como sinônimos, entre eles Anadenanthera macrocarpa, Piptadenia macrocarpa, Niopa macrocarpa e Acacia angico. Quanto à origem dos nomes, Anadenanthera remete a anteras sem glândulas, colubrina deriva do latim coluber (cobra) e cebil é termo de raiz espanhola aplicado a leguminosas.

Descrição botânica

Árvore semicaducifólia que em geral mede de 8 a 20 m de altura, com diâmetro à altura do peito de 30 a 50 cm, mas que pode chegar a 30 m e 120 cm de DAP quando adulta em floresta estacional; já no Cerrado e na Caatinga assume porte reduzido, de 3 a 15 m. O tronco é reto ou tortuoso, com fuste de até 13 m, e a ramificação cimosa e dicotômica forma copa abaulada, cujos galhos exibem acúleos e lenticelas. A casca chega a 30 mm de espessura: a parte externa, em geral pardo-acinzentada, varia bastante (de coberta de acúleos, escura, gretada e áspera até lisa, sem acúleos e com fissuras rasas), enquanto a interna é esbranquiçada. As folhas são bipinadas, com até 30 pares de folíolos opostos e de 60 a 80 pares de foliólulos, e apresentam uma glândula preta elipsoide no pecíolo. As flores, hermafroditas e brancas, são pequenas e se agrupam em capítulos globosos axilares ou terminais. O fruto é um folículo achatado e deiscente, coriáceo, castanho-avermelhado e de superfície rugosa, com 8 a 32 cm de comprimento por 1,5 a 3 cm de largura, abrigando de 8 a 15 sementes. As sementes, de cor marrom-escura a quase preta, são orbiculares, achatadas, lisas e lustrosas, sem asa, medindo de 12 a 20 mm de comprimento por 12 a 15 mm de largura.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalapícolatanífero
Produtos e utilizações

A madeira, densa (0,84 a 1,10 g/cm³ a 15% de umidade) e de massa específica básica de 0,62 t/m³, tem alburno branco-amarelado, por vezes rosado, e cerne que evolui de castanho-amarelado, recém-cortado, para tons avermelhados e vermelho-queimado, com veios ou manchas arroxeadas. A superfície é pouco lustrosa e áspera, a textura média e a grã irregular a reversa; o cheiro é imperceptível e o gosto, levemente adstringente. Sua durabilidade natural é alta, com boa resistência ao apodrecimento, a fungos e ao cupim (estacas enterradas duram de 15 a 20 anos), embora absorva mal soluções preservantes. É indicada para construção rural, naval e civil (vigas, caibros, ripas, batentes, assoalhos, esquadrias), obras hidráulicas e externas (estacas, esteios, postes, mourões, dormentes, cruzetas, carrocerias), móveis, lambris e peças torneadas. Como combustível, fornece lenha e carvão de boa qualidade, com altíssimo teor de lignina e cerca de 70% de carbono fixo, sendo apta também à produção de álcool e coque; já para celulose e papel é inadequada. A casca e os frutos contêm tanino (13,6% a 20%), tradicionalmente extraído para curtumes na Chapada do Araripe e no Cariri, sendo que a exploração excessiva da casca pode matar a planta. Quando ferido, o tronco libera abundante goma-resina amarelada, inodora e sem sabor, parecida com a goma-arábica e de uso industrial e medicinal. As sementes contêm o alcaloide bufotenina, além de compostos fenólicos. Na medicina caseira, a casca é empregada em infusões, xaropes, macerações e tinturas, com efeito hemostático, adstringente e peitoral, enquanto resina e folhas, em xarope ou chá, são tidas como depurativas e usadas contra reumatismo e bronquite. As folhas e galhos secos ou fenados servem de forragem (14% de proteína bruta e 49% de digestibilidade), mas folhas murchas podem ser tóxicas ao gado.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie secundária inicial, com regeneração natural intensa por sementes. Em levantamento na Caatinga de Alagoinha (PE), dos 192 indivíduos por hectare, 88,55% eram jovens, 4,17% juvenis e 7,29% adultos; em floresta primária, aparece apenas como árvore adulta. Quanto às formações vegetais, ocorre na Floresta Estacional Semidecidual (comum em afloramentos rochosos), na Floresta Estacional Decidual, no Cerradão, na Caatinga Arbórea/Mata Seca e no Pantanal Mato-Grossense, onde é frequente nas áreas secas calcárias; também surge, com menos frequência, na Floresta Ombrófila Densa, em campos rupestres e nas áreas erodidas de calcário Bambuí, no sudoeste baiano. É o angico brasileiro que mais prefere matas secas, e fora do país habita a Selva Misionera e a Selva Tucumano-Boliviana. As densidades variam muito: 117 árvores/ha em Caatinga baiana, de 1 a 23/ha na Paraíba, de 2 a 5/ha no Rio Grande do Norte, de 10 a 80/ha no sertão e de 23 a 130/ha no agreste pernambucanos, 600/ha em floresta estacional de Uberlândia (MG) e 26/ha em mata de galeria do Distrito Federal, com estrutura de diâmetros e alturas em J invertido, típica de populações estáveis.

Floração e frutificação

A floração concentra-se entre julho e novembro em Mato Grosso do Sul; em agosto na Bahia; de agosto a setembro no Distrito Federal; de agosto a dezembro no Ceará; de agosto a janeiro em Pernambuco; em setembro no Piauí; de setembro a outubro em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e no Paraná; e de setembro a novembro em São Paulo. Em Petrolina (PE), 67% das árvores já apresentavam flores e frutos aos 3 anos, e no Ceará o florescimento foi irregular. Os frutos amadurecem de março a maio no Paraná; de abril a outubro em São Paulo; em junho no Piauí; de julho a agosto no Distrito Federal; em agosto em Minas Gerais; de agosto a setembro no Espírito Santo; de agosto a outubro na Bahia; de agosto a novembro em Pernambuco; e em outubro em Mato Grosso. Em Pernambuco, tanto a floração quanto a frutificação são bianuais.

Fauna associada

A polinização é feita sobretudo por abelhas da família Apidae, com predomínio da Apis mellifera. A dispersão é autocórica, principalmente barocórica, por gravidade. As flores são melíferas e fornecem pólen e néctar com até 33% de açúcar, o que torna a espécie uma das mais importantes para a apicultura na Chapada do Araripe, no sul do Ceará. Há registro do sagui Callithrix argentata consumindo a resina por incisões feitas no tronco e nos galhos.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos são colhidos diretamente da árvore assim que começam a abrir naturalmente. Expostas ao sol, as vagens liberam as sementes, que precisam ser recolhidas logo e secas à sombra para não perderem o poder germinativo. Cada quilo reúne de 6.500 a 8.000 sementes, que não têm dormência e por isso dispensam tratamento prévio. Em armazenamento, sementes com germinação inicial de 90% mantiveram 88% após 12 meses em embalagem de polietileno sob câmara fria, contra apenas 25% quando guardadas em ambiente sem controle.

Produção de mudas

A semeadura pode ser feita em sementeiras, para repicagem posterior, ou diretamente em sacos de polietileno (no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro) ou tubetes de polipropileno de tamanho médio, repicando-se de 3 a 4 semanas após a germinação. A germinação é fanerocotiledonar (epígea), com as plântulas emergindo entre 2 e 33 dias e poder germinativo alto, em média 80%; as mudas ficam prontas em cerca de 4 meses. A raiz pivotante é bem marcada e a planta jovem forma um pequeno tubérculo lenhoso na raiz axial. Pela germinação rápida e pela rusticidade, a espécie é promissora para semeadura direta no campo, mesmo em encostas pobres e erodidas, mas mudas com mais de 1,50 m são difíceis de transplantar. As raízes associam-se a Rhizobium, formando nódulos eficientes de formato coraloide. A propagação vegetativa é possível por enxertia (garfagem em fenda cheia, com 100% de pegamento aos 30 dias), por estacas de brotação do toco ou radiciais e por micropropagação a partir de sementes germinadas in vitro.

Características silviculturais

Espécie essencialmente heliófila e medianamente tolerante a baixas temperaturas. As plantas jovens crescem com o caule inclinado, inclinação que diminui aos poucos, sobretudo em maciços homogêneos; ocorrem indivíduos tortuosos e bifurcados, e os ramos persistentes exigem podas de condução e de corte. Pode ser cultivada em plantio puro a pleno sol, com bom desenvolvimento e forte regeneração natural por sementes, ou em plantio misto, associada a pioneiras de crescimento rápido que melhoram sua forma, ainda servindo de tutor a espécies secundárias-clímax ou em faixas abertas na vegetação arbórea. Rebrota da touça após o corte, o que permite manejo por talhadia. Em sistemas agroflorestais, é usada no sombreamento de pastagens, principalmente no Nordeste, graças à copa ampla; na Bolívia, é recomendada para quebra-ventos, com espaçamento de 4 a 5 m entre as árvores. No Cariri paraibano, é considerada espécie em extinção.

Crescimento e produção

O crescimento varia de moderado a rápido, com produtividade que pode chegar a 25,55 m³/ha/ano. Em áreas mais secas do Nordeste, no espaçamento 3 x 2 m, registrou aos 12 anos altura média de 5,5 m, DAP de 9 cm e produtividade de apenas 1,8 m³/ha/ano. O corte pode começar aos 5 anos para lenha (diâmetro de 8 a 12 cm), aos 8 anos para mourões e entre 20 e 25 anos para madeira (a partir de 30 anos no Cerrado). Para alcançar 40 cm de diâmetro na vegetação natural, estima-se um mínimo de 55 anos.

Clima

A precipitação anual média vai de 400 mm, na Bahia e em Pernambuco, a 2.500 mm em Pernambuco. As chuvas são uniformes no Paraná e periódicas em outras regiões, concentradas no verão no Sudeste e Centro-Oeste e no verão e outono no Nordeste. A deficiência hídrica varia de leve, no Paraná, a muito forte no Nordeste, com seca de até 9 meses; a espécie resiste bem a déficits elevados, de 800 a 1.300 mm. A temperatura média anual fica entre 18 ºC (Barbacena, MG) e 29,4 ºC (Picos, PI), com mínima absoluta de -5 ºC (Telêmaco Borba, PR). Suporta de 0 a 10 geadas por ano em média (máximo de 18 no Paraná), mas predomina em locais sem geada ou com geadas raras. Pelos tipos de Köppen, vegeta em climas subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb), tropical (Af, Am e Aw) e semiárido (BSh).

Solos

É uma espécie tipicamente calcícola, que vegeta tanto em solos secos quanto úmidos, desde que profundos. Tolera terrenos rasos, compactados, mal drenados e até encharcados, de textura média a argilosa. No Nordeste, aparece em solos de origem sedimentar, sobretudo areníticos, calcários e aluviais. Em plantios, desenvolve-se melhor em solos férteis, profundos, bem drenados e argilosos. Por suas adaptações de crescimento e por formar um órgão radicular que armazena água e amido nas plantas jovens, é considerada espécie capaz de sobreviver sob estresse hídrico, sendo indicada para programas de florestamento e reflorestamento do semiárido nordestino.