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Foto de Angico-gurucaia

Foto: O Tupinólogo (CC BY 4.0) via Wikimedia

Angico-gurucaia

Parapiptadenia rigida

Mimosaceae Mata AtlânticaPantanalCerrado
  • 4 a 20 m, podendo atingir 35 mAltura
  • Muito grandePorte
Raras / ameaçadasMedicinaisMadeireirasOrnamentaisRecuperação de áreas

Também conhecida como: angico, angico-vermelho, angico-amarelo, angico-branco, angico-preto, angico-verdadeiro, gurucaia, guarucaia, monjoleiro, frango-assado, angico-de-curtume, paricá

Botânica
Taxonomia e nomenclatura

Pertencente à família Mimosaceae (Leguminosae: Mimosoideae) e à ordem Fabales, a espécie tem como nome científico aceito Parapiptadenia rigida (Bentham) Brenan. Já recebeu, ao longo do tempo, outros nomes botânicos, como Piptadenia rigida Bentham, Piptadenia rigida var. grandis Lindman e Acacia angico Martius. O nome do gênero faz referência à sua proximidade com o gênero Piptadenia (do grego pará, 'semelhante'), enquanto o epíteto rigida deriva do latim rigidus ('rijo', 'duro'), provavelmente em alusão à dureza da madeira. Na língua tupi-guarani é chamada de angicó-caá, que pode ser traduzido como 'árvore-para-a-doença-da-alma'.

Descrição botânica

É uma planta que vai de arvoreta a árvore, em geral semidecídua, embora existam indivíduos que mantêm a folhagem o ano todo. Comumente mede de 4 a 20 m de altura, com tronco de 40 a 70 cm de diâmetro, mas exemplares adultos podem chegar a 35 m e até 140 cm de DAP. O tronco é cilíndrico, frequentemente um pouco inclinado e raras vezes reto, com base reforçada por raízes tabulares; o fuste é curto em árvores isoladas e mais longo na floresta primária, alcançando até 13 m. A copa é alta, ampla e corimbiforme, de folhagem densa e verde-escura, lembrando bastante a da canafístula (Peltophorum dubium). A casca chega a 30 mm de espessura: a externa é marrom-escura a castanho-avermelhada ou castanho-ocre, com leves fissuras e placas que se desprendem de até 10 cm; a interna é dura, pardo-avermelhada, de textura fibrosa, e libera goma quando ferida. As folhas são compostas e paripinadas, com 3 a 9 pares de pinas opostas, cada uma com 12 a 30 pares de folíolos lineares e falcados de cerca de 10 mm de comprimento. As flores, pequenas (2 a 5 mm), verde-amareladas e numerosas, reúnem-se em espigas cilíndricas axilares e apicais de 4 a 10 cm. O fruto é um legume achatado, deiscente e articulado, de coloração pardo-avermelhada-escura, medindo de 6 a 15 cm de comprimento por 1,5 a 2 cm de largura, e abriga de 3 a 12 sementes em fileira única. As sementes são planas, lisas e brilhantes, de tegumento róseo-claro, fortemente comprimidas e envoltas por uma estreita ala membranácea.

Uso e ecologia
madeireiropaisagismorecuperação de áreasmedicinalenergéticoforrageiro
Produtos e utilizações

A madeira é densa (massa específica aparente de 0,75 a 1,00 g/cm³ a 15% de umidade; básica de 0,54 a 0,69 g/cm³), com alburno branco-amarelado e cerne castanho a castanho-avermelhado. Apresenta textura média a grosseira, grã direita a irregular, cheiro imperceptível e gosto levemente adstringente. Tem alta durabilidade natural, sendo imune ou muito resistente ao cupim, embora se deteriore prematuramente em solos muito úmidos. A secagem é lenta e sujeita a empenamentos e rachaduras, a permeabilidade a preservantes é baixa e a trabalhabilidade vai de média a difícil. Por sua resistência e durabilidade, é usada em construção rural e civil (vigas, caibros, ripas, marcos de portas e janelas, tacos e tábuas de assoalho), além de carpintaria em geral, carrocerias, parquetes, vigamentos de pontes, dormentes, mourões, estacas, postes, peças torneadas e bolas de boliche. Produz lenha e carvão de muito boa qualidade, com poder calorífico de 5.324 kcal/kg, ainda que a madeira seja difícil de rachar com machado. Não serve para celulose e papel. A casca é rica em goma-resina: quando jovem, a planta exsuda uma goma amarelada que pode substituir a goma arábica. Tanto a casca quanto o lenho contêm taninos e saponinas (mais intensos no lenho); no Paraguai, registra-se de 6% a 20% de tanino na casca. A folhagem serve de forragem, com 18,9% de proteína bruta e 9,3% de tanino, sendo bem aceita pelo gado nelore. Na medicina popular, o chá da casca é tido como tônico amargo e depurativo, empregado contra disenterias, raquitismo, inapetência e debilidade; é usado ainda como hemostático em hemorragias, e o decoto, externamente, no tratamento de corrimentos. A goma, emoliente e peitoral, é aplicada em afecções bronco-pulmonares e como calmante da tosse e da asma, geralmente em forma de xarope.

Aspectos ecológicos

Trata-se de uma espécie pioneira a secundária, que vai da fase inicial à tardia da sucessão. É bastante agressiva e comum em terrenos abandonados, capoeiras e capoeirões, com regeneração natural abundante em clareiras e sob plantios. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, chega a se comportar como verdadeira praga nas roças, onde brotam milhares de mudinhas. É uma árvore longeva. Característica da Floresta Estacional Semidecidual Submontana e da Floresta Estacional Decidual, costuma ocupar o estrato emergente, com penetração na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária) e ocorrência mais rara na Floresta Ombrófila Densa. Sua densidade é geralmente baixa: em Misiones, na Argentina, varia de 2 a 8 exemplares por hectare, e no noroeste do Rio Grande do Sul foram encontrados cerca de três indivíduos por hectare.

Floração e frutificação

A floração é anual e intensa, variando conforme a região: de outubro a dezembro (e, em menor escala, até março) no Paraná; de outubro a janeiro no Rio Grande do Sul; de novembro a dezembro em Santa Catarina; e de fevereiro a março em Minas Gerais e São Paulo. Os frutos amadurecem de março a setembro no Paraná, de maio a julho no Rio Grande do Sul, de maio a agosto em Santa Catarina, de junho a novembro em São Paulo e de outubro a novembro em Minas Gerais. Em solos férteis, o processo reprodutivo tem início a partir dos 3 anos após o plantio.

Fauna associada

Planta hermafrodita, é polinizada principalmente por abelhas de pequeno porte. A dispersão das sementes é autocórica, sobretudo por barocoria (queda pela gravidade), mas também ocorre pelo vento (anemocoria) e pela água (hidrocoria), favorecida por sua presença frequente junto a cursos d'água.

Plantio e silvicultura
Sementes

Os frutos são colhidos diretamente da árvore quando passam do verde ao marrom e começam a abrir; depois, são expostos ao sol para completar a deiscência, e as sementes, facilmente retiradas das vagens, são secadas à sombra. Um quilo de frutos rende cerca de 143 g de sementes, e a relação entre o peso das sementes e o dos frutos fica em torno de 14,3% a 15,9%. Em um quilo cabem de 20 mil a 47 mil sementes no Brasil (de 36.100 a 50 mil na Argentina). Não há necessidade de tratamento para superar dormência, pois as sementes não a apresentam. O comportamento de armazenamento é recalcitrante: em condições não controladas, a viabilidade se perde entre 60 e 120 dias. Conservadas a 4 ºC e 96% de umidade relativa, em saco plástico, mantêm 90% de germinação após 12 meses; em câmara fria com embalagem de polietileno, retêm cerca de 56% do poder germinativo inicial em 12 meses. Podem ser secadas em estufa a 42 ºC até 8,7% de umidade sem grandes perdas. Em laboratório, germinam melhor a 20 ºC a 25 ºC, em substratos como areia, vermiculita, papel-toalha e papel mata-borrão.

Produção de mudas

Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, em sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno médios, a 0,5 a 1 cm de profundidade. A repicagem deve ser feita de 1 a 2 semanas após a germinação, ou quando as plântulas atingirem 3 a 4 cm, mas há registros de que a espécie não reage bem a esse procedimento, pois desenvolve cedo uma raiz pivotante acentuada. A germinação é epígea, começa entre 3 e 40 dias e tem alto poder germinativo (média de 70%, podendo chegar a 100%). As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 5 a 6 meses após a semeadura e não devem permanecer muito tempo no viveiro, já que mudas grandes (acima de 40 cm) têm baixo pegamento e alta mortalidade no campo. Em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, recomenda-se o plantio com mudas de raiz nua. As raízes associam-se a bactérias do gênero Rhizobium, formando nódulos; para favorecer a inoculação, sugere-se espalhar no viveiro um pouco de terra retirada de sob angicos velhos.

Características silviculturais

É uma espécie semi-heliófila e tolerante a baixas temperaturas, suportando, quando adulta na mata nativa, mínimas absolutas de até -11 ºC. Apresenta ramificação precoce e inclinação inicial do caule, que tende a se endireitar com o passar dos anos; por isso, recomenda-se usar tutor (em geral uma taquara de 2 m) na fase inicial, sem o qual a planta quase se deita no solo. Não há desrama natural, sendo necessárias podas de condução e de galhos frequentes, possíveis a partir dos 2 anos (poda verde). Pode ser plantada a pleno sol, em plantio puro, por mudas ou por semeadura direta. Para corrigir a tortuosidade característica do fuste, indica-se espaçamento inicial apertado (por exemplo, 3 x 0,7 m) com raleio posterior; também há sucesso em plantio misto com acácia-negra (Acacia mearnsii) no Rio Grande do Sul. A capacidade de rebrota é fraca ou inexistente. É recomendada para sistemas silviagrícolas e sombreamento de pastagens, graças à copa ampla. Por figurar entre as espécies ameaçadas de extinção, sua conservação genética é mantida por populações-base ex situ no estado de São Paulo.

Crescimento e produção

O crescimento varia de lento a moderado, e os plantios costumam apresentar grande heterogeneidade em altura, diâmetro e forma. A produtividade volumétrica máxima registrada foi de 13,40 m³/ha/ano, aos 12 anos. Em Chapecó (SC), o baixo desempenho observado foi atribuído às geadas fortes ocorridas nos dois anos do experimento.

Clima

A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 1.000 mm, em Mato Grosso do Sul e São Paulo, a 2.300 mm em Santa Catarina, com chuvas bem distribuídas na Região Sul e concentradas no verão no Sudeste e em Mato Grosso do Sul. A deficiência hídrica varia de nula, no Sul, a moderada, no inverno, em partes de São Paulo, do Paraná e de Mato Grosso, com estação seca de até 3 meses (na Argentina, o período seco pode durar até 9 meses). A temperatura média anual fica entre 15,5 ºC (Caçador, SC) e 25 ºC (Corumbá, MS), e a mínima absoluta já registrada foi de -11,6 ºC (Xanxerê, SC). O número de geadas por ano vai de 0 a 30, com máximo de 57 no Sul. Quanto aos tipos climáticos de Köppen, ocorre nos tipos Af e Am (mais raro), Cfa, Cfb (predominante) e Cwa/Cwb.

Solos

A espécie ocorre em diversos tipos de solo, crescendo tanto em terrenos úmidos quanto secos, embora seja mais abundante naqueles bem drenados. Adapta-se bem a solos rasos, sobretudo os derivados de basalto, e é frequente nas encostas de vales. Em plantios experimentais, desenvolve-se melhor em solos de boa fertilidade química, bem drenados e de textura franca a argilosa. Deve-se evitar plantá-la em solos encharcados ou de baixa fertilidade.