Foto: Diogo Luiz (CC BY) via GBIF
Angico-do-cerrado
Anadenanthera peregrina var. falcata
- 2,2 a 15 m (até 25 m na Mata Atlântica)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: angico-cascudo, angico, angico-do-campo, angico-dos-cerrados, angico-preto, angico-prego, angico-pururuca, angico-vermelho, barbatimão, monjoleiro, arapiraca, cambuí-ferro, curupaí, pau-de-boaz
Botânica
A espécie é classificada como Anadenanthera peregrina var. falcata (Bentham) Altschul, pertencente à ordem Fabales e à família Mimosaceae (Leguminosae Mimosoideae), conforme o sistema de Cronquist. Já recebeu outras denominações, hoje tratadas como sinônimos: Anadenanthera falcata (Bentham) Brenan e Piptadenia falcata Bentham. O nome do gênero, Anadenanthera, faz referência à antera desprovida de glândula; o epíteto peregrina alude à ampla distribuição da planta, no sentido de viajante; e falcata descreve o fruto curvado da porção central até a ponta, lembrando uma foice.
O porte varia bastante conforme o ambiente. No Cerrado, comporta-se como arvoreta perenifólia de 2,2 a 15 m de altura e tronco de 20 a 40 cm de diâmetro (DAP); já na Floresta Estacional Semidecidual do noroeste paranaense pode alcançar 25 m de altura e 60 cm de DAP na fase adulta. O tronco costuma ser tortuoso, com fuste em geral curto, de no máximo 8 m. A ramificação vai de dicotômica a irregular, formando copa larga e aberta, de folhagem rala. A casca é espessa, chegando a 40 mm; por fora apresenta-se preta ou marrom-escura, dura e marcada por gretas e fissuras profundas, enquanto a face interna é de um rosa intenso. As folhas têm folíolos coriáceos, brilhantes e muitas vezes em forma de foice, com pinas de 10 a 18 jugos e folíolos de 40 a 60 jugos, uninervados e glabros. As flores são pequenas e reunidas em capítulos glabros. O fruto é um folículo deiscente, coriáceo, opaco, glabro e reticulado, de superfície escamante ou verruculosa, com ápice agudo e base cuneada, margens levemente estranguladas entre as sementes e estipe de 15 a 20 mm; de cor marrom, mede de 10 a 25 cm de comprimento por 17 a 25 mm de largura e abriga de 10 a 15 sementes. As sementes são orbiculares, marrons, leves, achatadas, sem ala e com até 12 mm de comprimento.
Uso e ecologia
A madeira é densa, com massa específica aparente de 0,70 a 0,97 g/cm³ a 15% de umidade. Alburno e cerne têm coloração róseo-pálida uniforme, que escurece na superfície; a madeira é lustrosa e lisa ao tato, de textura média a grosseira, grã direita, cheiro indistinto e sabor levemente adstringente. Serrada ou em forma roliça, presta-se à construção civil (caibros, esquadrias, ripas, tabuado e tacos) e a obras rurais e externas, como dormentes, estacas, mourões de cerca, postes e vigamentos. Fornece lenha de boa qualidade, mas é inadequada para a produção de celulose e papel. Da casca extrai-se um corante empregado em tinturaria, e tanto a casca quanto o lenho contêm tanino aproveitado em curtumes. O tronco, quando ferido por insetos ou pelo sagui-da-serra (Callithrix flaviceps), libera uma goma rica em carboidratos que é importante alimento para esse primata. A espécie também tem potencial paisagístico, sendo recomendada para a arborização de avenidas e rodovias e cultivada em parques e jardins residenciais.
Trata-se de espécie pioneira a secundária inicial, frequente na vegetação secundária, sobretudo na fase de capoeirão. Em estudo sobre a distribuição de indivíduos jovens em relação aos adultos em uma população natural, observou-se que a densidade de adultos não parece influenciar de forma direta a densidade dos mais jovens. Ocorre na Floresta Estacional Semidecidual Submontana, principalmente na Savana/Cerrado e no Cerradão/Floresta Esclerófila, no ecótono Floresta/Savana do Sul do país, e ainda no domínio da Caatinga arbórea e arbustivo-arbórea do norte de Minas Gerais. Em levantamento fitossociológico em área de Cerrado paulista foram contabilizados 96 indivíduos por hectare.
A floração ocorre de setembro a novembro no Estado de São Paulo e em dezembro nos demais estados. Os frutos amadurecem entre agosto e novembro no Paraná e em São Paulo. Em plantios, o início da produção reprodutiva acontece por volta dos 5 anos de idade.
Planta hermafrodita e preferencialmente alógama, favorece a polinização cruzada graças ao alto grau de autoincompatibilidade genética e à ocorrência de protandria e protoginia. A polinização é feita principalmente por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão é autocórica, predominantemente barocórica (por gravidade). A goma liberada pelo tronco serve de recurso alimentar ao sagui-da-serra (Callithrix flaviceps).
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos assim que começa a dispersão das sementes e mantidos em local ventilado até completarem a abertura. Cada quilo reúne de 10.300 a 20.000 sementes, que não exigem tratamento para superação de dormência, pois não a apresentam. Em armazenamento sem controle ambiental, perdem a viabilidade após cerca de 6 meses; sob refrigeração, mantêm o poder germinativo por aproximadamente 1 ano; e, se liofilizadas, conservam-se à temperatura ambiente por até 2 anos.
Recomenda-se semear em sacos de polietileno de pelo menos 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno; quando preciso, a repicagem é feita de 2 a 4 semanas após a germinação. A germinação é epígea, inicia-se entre 5 e 10 dias após a semeadura e tem taxa de 55% a 80%. As mudas permanecem no viveiro por no mínimo 6 meses. Nos primeiros anos, formam vários tubérculos radiculares lenhosos e robustos, maiores que o tubérculo único do angico-vermelho (Anadenanthera colubrina var. cebil). As raízes associam-se a bactérias do gênero Rhizobium, com nodulação abundante em todas as fases e ao longo do ano; os nódulos, do tipo astragalóide, têm crescimento indeterminado e podem reduzir o ritmo ou degenerar na estiagem.
Espécie heliófila e medianamente tolerante a baixas temperaturas, apresenta crescimento simpodial, forma variável e irregular e dominância apical que aumenta com a idade. Como tem desrama natural deficiente, exige podas de condução e de galhos. Pode ser cultivada a pleno sol em plantio puro, com crescimento satisfatório, ainda que de forma irregular; foi bastante usada nos reflorestamentos incentivados da década de 1970 no Cerrado paulista, quando era obrigatório destinar 1% da área a nativas, somando hoje centenas de hectares plantados. Também se desenvolve em plantio misto com pioneiras, que ajudam a melhorar a forma, ou em povoamentos densos espontâneos de Leucaena leucocephala com abertura de faixas e plantio em linhas, embora nesses casos cresça bem menos que a pleno sol. Após o corte, rebrota da touça.
O crescimento é moderado a rápido. O maior incremento médio registrado em plantios foi de 28 m³/ha/ano aos 10 anos, em Santa Helena (PR). A espécie pode ser manejada para mourões, chegando a produzir até 469 mourões por hectare em desbastes feitos aos 7 anos de idade.
A precipitação anual média em sua área de ocorrência vai de 850 mm, em Minas Gerais, a 1.800 mm, em Goiás. As chuvas são bem distribuídas no centro-oeste do Paraná e concentradas no verão, com inverno seco, nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no centro-oeste paranaense e de moderada a forte, com até 5 meses de seca, no sudeste da Bahia e de Minas Gerais e no Centro-Oeste. A temperatura média anual oscila entre 17,6 ºC (Jaguariaíva, PR) e 25,6 ºC (Chapada dos Guimarães, MT); a média do mês mais frio fica entre 13,2 ºC e 22,9 ºC, e a do mês mais quente, entre 21,3 ºC e 27,2 ºC. A mínima absoluta registrada foi de -7,1 ºC, em Campo Mourão (PR). No Paraná ocorrem em média de 0 a 12 geadas por ano, com máximo absoluto de 28. Os tipos climáticos de Köppen abrangem o temperado úmido (Cfb), raro, na região de Jaguariaíva; o subtropical úmido (Cfa); o subtropical de altitude (Cwa e Cwb); e o tropical (Aw).
Na natureza, cresce em solos de baixa fertilidade química, pobres em cálcio, de textura arenosa a franca, e tolera encharcamento. Em plantio, o melhor desempenho ocorre em solos de boa fertilidade química, profundos, bem drenados e de textura argilosa.