Foto: Marcio Santos Ferreira (CC BY) via GBIF
Angelim-amargoso
Andira anthelmia
- até 25 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: angelim-lombriga, angelim, angelim-pedra, angelim-preto, angelim-verdadeiro, morcegueira, angelim-amargo, angelim-do-campo, angelim-de-morcego, pau-de-morcego, angelim-vermelho, jacarandá-do-litoral, jacarandá-lombriga, lombrigueira, pau-angelim, pau-lombriga, angelim-coco, angelim-da-folha-grande, angelim-macho, aracurí, araquí, bracuí, gracuí, sucupira-vermelha
Botânica
Pertencente à família Fabaceae (subfamília Faboideae), a espécie é classificada cientificamente como Andira anthelmia (Vellozo) Bentham, do gênero Andira, na ordem Fabales. Conta com sinonímia botânica ampla, sendo Lumbricidia anthelmia Vellozo e Andira anthelmia var. acuminata Bentham as denominações mais recorrentes na literatura. O nome do gênero, Andira, deriva do tupi-guarani e quer dizer "morcego"; já o epíteto anthelmia faz referência às propriedades anti-helmínticas da planta, isto é, sua capacidade de combater vermes intestinais.
Trata-se de uma planta perenifólia que varia de arvoreta a árvore, alcançando, nos exemplares de maior porte, cerca de 25 m de altura e 50 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo) na fase adulta. O tronco é um tanto tortuoso, com fuste curto de até 6 m. A ramificação é cimosa e a copa, densa, lembra a forma de um guarda-chuva; os ramos jovens das pontas podem ser hirsutos (ruivo-tomentosos) ou quase glabros. As estípulas, lanceoladas e acuminadas, têm de 4,5 mm a 8 mm e em geral caem cedo. A casca chega a 10 mm de espessura, sendo a externa (ritidoma) acinzentada e rugosa. As folhas são alternas e reúnem de 9 a 15 folíolos, que vão de obovais a oblongos, com estipelas, medindo de 6,5 cm a 11,5 cm de comprimento por 2,4 cm a 5 cm de largura; o ápice varia de emarginado a acuminado, a base é subcordada, a margem revoluta e a face inferior pubescente. As inflorescências formam panículas terminais e axilares multifloras, de 11 cm a 35 cm. As flores têm coloração róseo-avermelhada e medem de 18 mm a 24 mm. O fruto é uma drupa oblonga, de cálice obtuso, com 2,3 cm a 6,2 cm de comprimento por 2,2 cm a 2,4 cm de largura. A semente é oval e mede de 2 cm a 2,7 cm.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa a densa (massa específica aparente de 0,98 g/cm³), com cerne de tom bege-rosado-escuro ou róseo-queimado, chegando a castanho-avermelhado nas partes fibrosas. A superfície é lustrosa, levemente áspera e de aspecto fibroso, com textura grosseira, grã direita e sem cheiro ou sabor marcantes. Resiste muito bem ao esmagamento perpendicular às fibras, mas racha e estala com facilidade quando flexionada, o que a torna indicada para postes e colunas. É empregada na fabricação de móveis, em marcenaria e em acabamentos internos da construção civil (rodapés, molduras, portas, batentes e lambris), além de fornecer lâminas faqueadas decorativas. Presta-se ainda a usos externos como postes, mourões, carroçaria, estacas e tanoaria. A madeira não serve para celulose e papel, mas produz lenha de boa qualidade. Os indígenas a utilizam na confecção de setas. O fruto é comestível para o gado. Na medicina tradicional, as sementes têm aplicação terapêutica por conterem um princípio amargo anti-helmíntico, enquanto a casca apresenta propriedades tóxicas.
É uma espécie de comportamento pioneiro a secundário tardio, comum tanto na floresta primária alterada quanto na vegetação secundária (capoeira, capoeirão e floresta secundária), aparecendo em clareiras menores que 60 m². Na Floresta Estacional Semidecidual, na formação Submontana de Minas Gerais, pode atingir até 45 indivíduos por hectare; na Floresta Ombrófila Densa, nas formações de Terras Baixas, Submontana e Montana da Bahia, do Paraná e de São Paulo, chega a 16 indivíduos por hectare. Ocorre também em restinga e em campo cerrado e cerrado stricto sensu (eventualmente) em São Paulo, na caatinga do semiárido baiano, em ambientes fluviais ou ripários de Minas Gerais, Paraná e São Paulo, raramente em campo rupestre na Serra da Bocaina (MG) e em caxetais no litoral paranaense.
A floração acontece de setembro a novembro no Paraná, em outubro em São Paulo e de outubro a novembro em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de fevereiro a março em Minas Gerais e de maio a julho no Paraná.
A espécie é monóica e tem como polinizadores principais as abelhas, com destaque para a jataí (Tetragonisca angustula), atraídas pelo néctar. A dispersão dos frutos e sementes se dá sobretudo por morcegos frugívoros, e os frutos também são aproveitados por outras espécies da fauna.
Plantio e silvicultura
Os frutos podem ser colhidos diretamente das árvores ou recolhidos do solo. Cada quilo reúne cerca de 60 sementes, que não exigem tratamento pré-germinativo. A semente é recalcitrante quanto ao armazenamento, perdendo a viabilidade rapidamente.
Recomenda-se semear duas sementes por recipiente, usando recipientes de no mínimo 20 cm de altura e 7 cm de diâmetro; a semeadura direta no campo também é possível. A germinação é cripto-hipógea, com hipocótilo indistinto ou curto, e a emergência começa entre 15 e 35 dias após a semeadura, com taxa de germinação de 60% a 90%. As mudas ficam aptas ao plantio cerca de 9 meses depois da semeadura. As raízes se associam simbioticamente a bactérias do gênero Rhizobium, formando nódulos globosos com atividade da nitrogenase.
É uma espécie heliófila que, quando jovem, suporta sombreamento de intensidade média, mas não tolera baixas temperaturas. Seu crescimento é irregular, com ramificação pesada e ausência de dominância apical, exigindo podas de condução e de ramos. Pode ser plantada a pleno sol em plantio puro (em áreas livres de geadas), em plantio misto com pioneiras e secundárias, ou em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas em capoeiras e plantada em linhas. Rebrota da touça. O número cromossômico é n = 10, 11.
Há poucos dados de plantio disponíveis para a espécie. Em plantios mistos no Paraná (Rolândia), com espaçamento de 5 m x 5 m em Latossolo Vermelho distroférrico, registrou-se sobrevivência de 100% tanto aos 4 quanto aos 7 anos; aos 4 anos a altura média era de 2,76 m e o DAP médio de 2,7 cm, passando a 3,86 m de altura e 5,8 cm de DAP aos 7 anos.
A precipitação média anual varia de 1.100 mm, no Rio de Janeiro, a 3.700 mm, na Serra de Paranapiacaba (SP). As chuvas são uniformemente distribuídas no Paraná e em Santa Catarina, uniformes ou periódicas na faixa costeira do sul da Bahia e periódicas nos demais locais. A deficiência hídrica é nula no Paraná, em Santa Catarina e na região serrana fluminense; nula ou pequena na faixa costeira do sul da Bahia e em Pernambuco; e de pequena a moderada, no inverno, no centro e leste de São Paulo e no sul de Minas Gerais. A temperatura média anual oscila entre 18,1 ºC (Diamantina, MG) e 25,5 ºC (Recife, PE), com mínima absoluta de -0,9 ºC em Morretes (PR). O número médio de geadas por ano vai de 0 a 0,5, com máximo de até três, sendo elas raras ou pouco frequentes no Paraná e em Santa Catarina. Pela classificação de Köppen, a espécie ocorre em climas Af, Am, Aw, Cfa, Cwa e Cwb, conforme a região.
Cresce naturalmente em vários tipos de solo, com preferência por solos úmidos a bastante úmidos. Em plantios, o melhor desempenho ocorreu em solos de fertilidade química alta e textura argilosa.