Foto: Enrique Salazar (CC BY) via GBIF
Andiroba
Carapa guianensis
- até 30 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: andirobeira, andiroba-branca, andiroba-cedro, andiroba-do-igapó, andiroba-saruda, andiroba-vermelha, andirobinha, andirova, nandiroba, angiroba, carapa, jandiroba, penaíba
Botânica
Pelo sistema de classificação do APG III, a andiroba pertence à ordem Sapindales e à família Meliaceae, dentro do gênero Carapa. Seu binômio é Carapa guianensis Aublet, descrito originalmente em 1775. A espécie reúne uma sinonímia botânica extensa, entre cujos registros mais frequentes estão Persoonia guareoides Willdenow, Amapa guianensis (Aublet) Steudel, Carapa latifolia Willdenow ex C. de Candolle, Carapa macrocarpa Ducke e Xylocarpus carapa Spreng. O nome do gênero, Carapa, vem da língua indígena das Guianas, enquanto o epíteto guianensis lembra a Guiana Francesa, de onde veio o material que serviu de tipo para a descrição. A palavra andiroba deriva do tupi, da junção de yandy (óleo) e rob (amargo). Internacionalmente, a madeira é comercializada como crabwood nos países de língua inglesa, e a espécie recebe nomes variados conforme o país, como cedro macho na Costa Rica, tangare no Equador, cedro bateo no Panamá e najesí em Cuba.
Trata-se de uma árvore semidecídua que, na fase adulta, costuma chegar perto de 30 m de altura e 100 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo), embora já se tenham registrado exemplares excepcionais de até 55 m de altura e 180 cm de DAP. O tronco é reto e cilíndrico, com fuste que alcança até 20 m de comprimento e, em geral, sapopemas ou raízes tabulares baixas. A ramificação é cimosa ou dicotômica, formando copa ramosa de porte médio; os ramos jovens apresentam lenticelas e os râmulos são glabros. A casca, de até 15 mm de espessura, tem face externa pardo-acinzentada-clara, lenticelada e fendida no sentido do comprimento, que se solta em placas lenhosas irregulares nas árvores maiores; por dentro é amarga, de tom rosa-escuro, e fica alaranjada quando cortada. As folhas são compostas, de pecíolo longo, chegando a 80 cm de comprimento, com 12 a 18 folíolos elíptico-oblongos de 10 a 35 cm de comprimento por 4,5 a 10 cm de largura, coriáceos e glabros. No ápice dos râmulos e entre os pecíolos há catáfilos grossos e rígidos, lenticelados e dotados de nectários extraflorais. As inflorescências surgem em panículas axilares ramificadas de 20 a 80 cm, sobretudo na ponta dos ramos. As flores são unissexuais, quase sésseis, glabras e subglobosas, com cálice de quatro sépalas pequenas, de cor café, e corola de quatro pétalas creme de 3 a 5 mm. O fruto é uma cápsula lenhosa, globosa a fracamente quadrangular, de 5 a 12 cm de comprimento e 6 a 10 cm de diâmetro, que se abre em quatro valvas a partir da base e libera de 4 a 16 sementes ao cair, cada uma pesando cerca de 21 g. As sementes têm formato anguloso, trígono ou tetrágono, cor de café e textura que lembra cortiça, medindo de 3 a 5 cm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira sempre foi o principal aproveitamento da andiroba, graças às suas boas qualidades físico-mecânicas. De coloração pardo-avermelhada, que pode escurecer bastante, lembra o cedro (Cedrela odorata) e funciona como substituta do mogno (Swietenia macrophylla). É moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,55 a 0,75 g/cm³ a 15% de umidade e densidade básica de 0,48 a 0,59 g/cm³. A textura vai de fina a média, a grã costuma ser direita (às vezes ondulada) e a madeira não tem cheiro nem sabor perceptíveis. De média trabalhabilidade na serraria e nas máquinas de beneficiamento, lamina-se com facilidade, cola bem e recebe bom acabamento, embora tenda a rachar com pregos. A secagem precisa ser lenta e cuidadosa, pois a madeira é propensa a rachaduras e colapso. Em contato com o solo apresenta resistência natural apenas moderada, não sendo recomendável esse uso; por outro lado, não é atacada por cupim e resiste ao fungo da podridão-parda (Gloeophyllum trabeum), embora seja suscetível à podridão-branca (Trametes versicolor). É madeira de valor comercial, incluída na lista de espécies tropicais de exportação, com aplicação em construção civil (vigas, caibros, ripas), contraplacados, lâminas faqueadas, móveis em geral, pequenas embarcações, mastros, vergas e carpintaria; no Suriname, é usada em dormentes. Não serve para celulose e papel. Do ponto de vista energético, o carvão tem rendimento de 32,91%, com 38,92% de líquido pirolenhoso e 28,17% de gases incondensáveis, mas o alto teor de cinzas limita esse uso. O grande destaque não madeireiro é o óleo das sementes, conhecido como azeite de andiroba: amarelado e de odor desagradável, solidifica-se em repouso formando uma gordura pastosa esbranquiçada, e o rendimento das amêndoas chega a 36% a 70% de óleo. Esse óleo é matéria-prima de sabões e sabonetes, serve de combustível para candeias no interior, é misturado ao urucum (Bixa orellana) como repelente de insetos pelos povos indígenas da Amazônia, e abastece uma vasta linha de cosméticos (xampus, sabonetes e cremes), constituindo importante fonte de renda para as comunidades amazônicas. A casca contém o alcaloide carapina, de ação adstringente, amargo-tônica e febrífuga.
É classificada como espécie clímax exigente de luz, embora também tolere sombra. No Brasil, distribui-se por toda a Bacia Amazônica, com preferência pelas várzeas e faixas alagáveis às margens dos cursos d'água, onde frequentemente forma associações com a ucuúba (Virola spp.), a seringueira (Hevea brasiliensis) e o pracaxi (Pentaclethra macroloba). Costuma alcançar o dossel médio ou superior e aparece também em florestas secundárias (capoeiras e capoeirões). Estudos de estrutura populacional apontaram correlação negativa entre recrutamento e área basal, e o padrão de distribuição espacial é considerado aleatório. A regeneração natural é tida como boa, pois as sementes germinam com facilidade, ainda que precisem de luz. Na Amazônia, ocorre em Floresta Ombrófila Aberta (Acre e Amazonas) e em Floresta Ombrófila Densa, tanto de Terra Firme (Amapá, Amazonas e Pará, com até 15 indivíduos por hectare) quanto de Várzea (Amapá e Pará, com média de 24 indivíduos por hectare). Na Mata Atlântica, está presente na Floresta Ombrófila Densa submontana da serra de Maranguape, no Ceará. Aparece ainda em matas ciliares e florestas de igapó, no Pará.
A floração coincide com a estação chuvosa: de dezembro a março no Amazonas e de janeiro a abril no Pará. Em Roraima, observou-se floração subanual, com um ciclo longo de cerca de nove meses, iniciado em outubro e estendendo-se ao ano seguinte, e outro curto, de apenas dois meses (julho e agosto); plantada no Rio de Janeiro, floresceu em abril. Os frutos amadurecem de fevereiro a agosto no Pará, de junho a julho no Amazonas e de setembro a janeiro no Rio de Janeiro. A frutificação é anual; em plantios, algumas árvores começam a frutificar já aos 4 anos, mas a produção abundante só ocorre entre os 7 e os 10 anos. O período ideal de colheita dos frutos maduros é a estação chuvosa, de abril a julho, e a produção média varia de 50 a 200 kg de sementes por árvore ao ano.
A andiroba é monoica e alógama, com polinização feita sobretudo por abelhas e diversos insetos pequenos. A dispersão das sementes se dá por gravidade (autocoria), pela água (hidrocoria) e por animais (zoocoria), com destaque para roedores como pacas e cutias. Por flutuarem na água, as sementes podem ser levadas pelos cursos d'água e chegam a germinar enquanto boiam.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos na própria árvore quando começam a abrir e a cair, ou recolhidos do chão logo após a queda. No caso da colheita direta, convém expô-los ao sol para que terminem de abrir e liberem as sementes. Uma única árvore pode render de 180 a 200 kg de amêndoas, e cada quilo reúne de 43 a 60 sementes (em lotes com 45% de umidade, a média foi de 44). Não é preciso fazer tratamento pré-germinativo, pois as sementes não têm dormência. Por outro lado, o comportamento é recalcitrante e a longevidade natural é curta, de apenas 2 a 3 meses após a dispersão; a conservação é melhor em câmara úmida (14 °C e 80% de umidade relativa) ou em câmara seca (12 °C e 30% de umidade relativa), com as sementes em sacos plásticos.
A semeadura é feita diretamente em recipientes individuais. A germinação é hipógea e as plântulas, criptocotiledonares; a emergência começa entre 11 e 90 dias após a semeadura, com taxa de germinação de 78% a 91%. As raízes formam micorrizas arbusculares, chegando a 56% de infecção do fungo. Quanto à propagação vegetativa, já se estabeleceu um protocolo para obtenção de calos e plântulas in vitro: o melhor resultado para calos, em até 90 dias, foi com 1,0 mg/L de ANA (ácido naftaleno acético) combinado a 1,0 mg/L de KIN (cinetina), com 100% de indução, embora não se tenha alcançado nesse prazo o melhor tratamento para obtenção de plântulas.
Espécie heliófila e sensível ao frio, a andiroba reúne boas características silviculturais. Em Trinidad e Tobago, é manejada por regeneração natural junto a outras espécies de valor. Em plantios de enriquecimento, destacou-se pelo bom formato de fuste, ausência de ataques e desenvolvimento satisfatório, e também se saiu bem em plantios a pleno sol, com boas alturas e diâmetros. É considerada promissora para converter capoeira alta da Amazônia em povoamentos madeireiros, desde que se controle o ataque da broca-dos-ponteiros (Hypsipyla grandella). Nos plantios, desenvolve raiz pivotante que se bifurca e sofre lesões abaixo de 40 cm de profundidade, além de ramificações horizontais logo abaixo da superfície e boa parte das raízes fora da projeção da copa, sobretudo em solos mais arenosos. Foi sugerido testá-la no noroeste do Maranhão e nas áreas úmidas de Pernambuco. Em sistemas agroflorestais, integra o consórcio natural das matas de várzea ao lado do açaizeiro (Euterpe oleracea) e da ucuúba (Virola surinamensis), como se observa nas várzeas do rio Juba, em Cametá (PA). A espécie é recomendada para programas de melhoramento e conservação de recursos genéticos.
O crescimento é moderado, com incremento médio anual de 1,20 a 1,65 m em altura e de 1,4 a 2,1 cm em diâmetro. Em Manaus (AM), atinge cerca de 15,30 m aos 11 anos. No Rio de Janeiro, 51 árvores avaliadas aos 20 anos mostraram alturas de 2 a 20 m e DAP de 2 a 16 cm. Entre 1976 e 1996, em projetos de reposição florestal no Pará registrados no Ibama, a espécie foi plantada por 24% das empresas.
A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 1.300 mm, em Tocantins, a 3.500 mm, no Pará, com chuvas periódicas e deficiência hídrica que vai de nula a moderada conforme a região. A temperatura média anual fica entre 20,5 °C (Guaramiranga, CE) e 27 °C (Mazagão, AP); a média do mês mais frio varia de 19,2 °C a 26 °C e a do mês mais quente, de 21,2 °C a 27,9 °C. A mínima absoluta registrada foi de 6 °C, em Rio Branco (AC), em 1975, durante o fenômeno da friagem, quando frentes de ar polar derrubam a temperatura por alguns dias. Geadas não ocorrem na área de distribuição natural. Pela classificação de Köppen, a espécie aparece nos climas Af (tropical úmido a superúmido), Am (tropical de monção), As (tropical com verão seco, no litoral norte baiano) e Aw (tropical com inverno seco).
Cresce naturalmente em solos úmidos e em vertentes de colinas. Os estudos indicam melhor crescimento em altura nos solos mais argilosos, com o desenvolvimento aéreo correlacionado a características como soma de bases trocáveis, matéria orgânica, saturação por alumínio e teor de manganês. A andiroba se mostra sensível a solos arenosos e quimicamente pobres, sendo recomendável plantá-la em terrenos de melhores condições edáficas. O pH desses solos varia de 4,8 a 5,0, e as folhas apresentam concentrações muito baixas de manganês (cerca de 4 mg/kg), o que sugere um comportamento nutricional particular.