Foto: Alex Popovkin, Bahia, Brazil (CC BY 2.0) via Wikimedia
Anani
Symphonia globulifera
- até 50 mAltura
- Muito grandePorte
Também conhecida como: bulandi, anani-do-igapó, anani-da-terra-firme, cambuí, bulangi, ananim, ananí-da-várzea, guanandi, landi, landirana, musserengue-branco, olandi, petiá-de-lagoa, guanadirana, bulandi-amarelo, bulandi-de-leite, gulandi, bacurizinho, pau-breu, pitiá-de-lagoa
Botânica
Pelo sistema de classificação do Angiosperm Phylogeny Group (APG II), a espécie pertence à divisão Angiospermae, clado das Eurosídeas I, ordem Malpighiales e família Clusiaceae (na classificação de Cronquist, ordem Theales e família Guttiferae), subfamília Moronobeoideae. Foi descrita como Symphonia globulifera L. f., com primeira publicação no Supplementum Plantarum, em 1781 (1782). Entre seus sinônimos botânicos estão Moronobea coccinea Aubl. e Symphonia gabonensis (Vesque) Pierre. O nome do gênero, Symphonia, remete a "harmonia", em alusão à simetria das flores, enquanto o epíteto globulifera faz referência ao formato arredondado, em globo, do fruto. No comércio internacional, é conhecida como chewstick.
Árvore sempre-verde (perenifólia de troca foliar) e longeva. Os indivíduos de maior porte chegam a aproximadamente 50 m de altura e 120 cm de diâmetro à altura do peito (DAP, medido a 1,30 m do solo) quando adultos; já no litoral brasileiro encontram-se exemplares menores, em torno de 10 m de altura e 20 cm de DAP. O tronco é reto e cilíndrico, com raízes fúlcreas ou de escora na base, semelhantes a sapopemas; em terrenos pantanosos, ele se apoia sobre um cone de raízes adventícias ou pneumatóforos (raízes respiratórias). A ramificação é dicotômica e a copa, piramidal — às vezes umbeliforme —, com galhos verticilados horizontais ou pendentes que vão se afilando em direção ao topo. A casca chega a 20 mm de espessura; a externa (ritidoma) é rugosa, varia do cinza-claro ao cinza-amarelado até o castanho, tem fissuras verticais e descama em placas pardacentas parecidas com cortiça. A casca interna é castanho-escura, de aspecto fibroso e com látex branco que, ao contato com o ar, fica amarelo e depois enegrece. As folhas são simples, opostas, coriáceas, glabras, obovado-lanceoladas ou oblongo-lanceoladas, de 5 cm a 14 cm de comprimento e 1,5 cm a 4 cm de largura, com ápice agudo ou acuminado (por vezes falcado), base cuneada e pecíolo glabro de 5 mm a 8 mm. As inflorescências reúnem-se em panículas cimosas subumbeliformes, densas e bem curtas, axilares ou terminais, com 6 a 10 flores. As flores são bissexuais e actinomorfas, medem de 2,5 cm a 3,5 cm, costumam ter 5 pétalas vermelhas torcidas e 5 sépalas purpúreas, podendo apresentar tons rosados, roxos ou alaranjados. O fruto é bacáceo, globoso ou ovoide, com estilete persistente, pericarpo frágil e 2,4 cm a 5 cm de diâmetro, contendo geralmente uma única semente (por aborto) ou até três. A semente preenche toda a cavidade do fruto, com testa reticulada por nervuras pardas (condutores laticíferos) que partem do hilo e tegumento interno formado por células alongadas de paredes espessadas e fibras lignificadas que envolvem o embrião.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,52 g/cm³ a 0,80 g/cm³). O alburno e o cerne são pouco aromáticos e de coloração amarela, com a parte interna mais intensa; o cerne é bege-rosado ou róseo-claro uniforme. A superfície é lisa e pouco lustrosa, a grã varia de reta a irregular e a textura é média, com anéis de crescimento indistintos ou ausentes. É fácil de trabalhar com máquinas ou ferramentas de carpintaria, gerando superfícies muito finas, embora o aplainamento seja moderadamente difícil por deixar superfícies irregulares. Tem inúmeras aplicações comerciais: móveis e gabinetes em peças mais decorativas, lâminas desenroladas para compensados, acabamento interno de embarcações, tábuas, caibros, ripas, marcos de portas e janelas, lambris, construção em geral, caixas, utensílios domésticos, marcenaria, tanoaria, pontes, dormentes e estacas; também serve como lenha. A espécie é apontada como produtora de celulose e papel. No Equador, o fruto é considerado comestível. Da casca externa exsuda uma resina amarelada que enegrece ao endurecer: misturada à cera de abelhas, funciona como cimento; a resina extraída dessa goma é comercializada como "cera karamanni" e usada no preparo de um breu (cerol) para calafetar embarcações e casas de madeira. Indígenas da Amazônia a empregam na fixação de pontas de flechas, e ela também já serviu como substituta de cola para sapatos, para impregnar cordas e pavios e para tingir couros. No uso medicinal popular, a resina é indicada contra bronquite, como diurética, em cataplasmas, para fixar prótese dentária, como sucedânea do óleo de camíbar (Copaifera aromatica) e para cicatrizar úlceras e abscessos; folhas e casca contêm compostos antivirais e, no Brasil, o óleo das sementes é usado no tratamento de doenças de pele.
Espécie secundária tardia ou clímax, tolerante à sombra. Na Amazônia, ocorre de preferência em terra firme ou nas margens de igarapés, integrando o dossel de florestas primárias, mas também aparece em florestas secundárias (capoeiras e capoeirões). Apresenta boa regeneração natural, com novos recrutas substituindo continuamente as plântulas mortas. Em estudo na Costa Rica, esteve entre as três espécies mais abundantes de um conjunto de nove de importância econômica em floresta densa, o que reflete sua capacidade de se estabelecer sob o dossel de árvores grandes em sítios não perturbados, aguardando aberturas de luz que permitam crescer rápido e atingir o estrato superior. No bioma Amazônia, ocupa Floresta Ombrófila Aberta no Amazonas e Floresta Ombrófila Densa de terras baixas no Amazonas e no Pará (até 1,3 indivíduo por hectare), além de florestas de várzea no Amapá e no Pará (até 122 indivíduos por hectare entre os indivíduos com DAP igual ou superior a 10 cm). No bioma Mata Atlântica, está na Floresta Ombrófila Densa de terras baixas em Alagoas, na Bahia e no Rio de Janeiro e na formação montana em Pernambuco (até 11 indivíduos por hectare). Ocorre ainda em matas ciliares no nordeste de Goiás e em Rondônia, em brejos de altitude e formações ripárias arbustivas no Nordeste, em matas alagadas e de igapó e na restinga do Rio de Janeiro, onde domina o estrato arbóreo superior.
A floração é do tipo cornucópia sincronizada e acontece uma única vez ao ano, em abundância. No Rio de Janeiro distribui-se ao longo do ano; no Pará vai de junho a fevereiro; e em Pernambuco, de setembro a novembro. Os frutos amadurecem de janeiro a junho no Pará, de fevereiro a março em Sergipe e de março a maio em Pernambuco.
A espécie é hermafrodita e auto-incompatível (as taxas estimadas de fecundação cruzada de multilocus, de 0,920, indicam predomínio do cruzamento). A polinização é feita por pássaros (como Ramphocelus carbo carbo e Thraupis episcopus episcopus, da família Thraupidae, e beija-flores da família Trochilidae), morcegos e lepidópteros, atraídos por néctar e óleo-resina. A dispersão de frutos e sementes é autocórica (barocórica, por gravidade) e, sobretudo, zoocórica: os frutos são disputados por diversos animais silvestres, em geral pequenos mamíferos, com destaque para os macacos.
Plantio e silvicultura
A colheita das sementes costuma ser feita no chão. A extração se dá por maceração para retirar o epicarpo e o mesocarpo, restando o endocarpo aderido à testa, como ocorre com as sementes encontradas no solo da floresta; Lorenzi, porém, sugere semear o fruto inteiro, sem necessidade de despolpá-lo. Há de 150 a 450 sementes por quilo e não é preciso fazer tratamento pré-germinativo. A semente é do tipo recalcitrante: muito sensível à dessecação, morre quando armazenada em baixas temperaturas e mantém a viabilidade por apenas cerca de 60 dias — ainda que Corbineau e Côme tenham conseguido conservá-la por um ano a 15 °C.
Recomenda-se semear uma semente por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou em tubetes grandes de polipropileno (tubetão). A germinação é hipógea ou criptocotiledonar, com a emergência começando entre 35 e 127 dias após a semeadura e taxa de germinação de até 39%.
Espécie heliófila e agressiva sobre a vegetação brejosa mais rala, que não tolera baixas temperaturas. Tem arquitetura segundo o modelo de Attims, com tronco monopodial e galhos finos; a derrama natural é fraca, exigindo desrama artificial pelo corte dos galhos, e brota da touça. Deve-se evitar o plantio puro a pleno sol; recomenda-se o plantio misto a pleno sol, associado a espécies pioneiras e secundárias, ou em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na floresta e plantio em linhas. A espécie não consta na lista de ameaçadas de extinção elaborada pelo Projeto Biota.
Em plantios experimentais realizados na região bragantina do Pará, na década de 1970, o incremento anual em altura foi de 0,50 m a pleno sol (com 75% de falhas) e de 0,58 m sob sombra seletiva (com 16,66% de falhas). Já em Belém (PA), há árvores de 15 m a 30 m de altura em um plantio com 40 anos de idade.
A precipitação média anual varia de 1.100 mm, em Pernambuco e no Rio de Janeiro, a 3.500 mm no Pará; fora do Brasil, oscila entre 630 mm e 5.000 mm. As chuvas são uniformemente distribuídas na região de Belém (PA) e periódicas nas demais áreas de ocorrência. A deficiência hídrica vai de nula (noroeste do Amazonas e arredores de Belém) a moderada (nordeste do Espírito Santo e do Rio de Janeiro e faixa costeira interior da Bahia). A temperatura média anual fica entre 22,6 ºC (Macaé, RJ) e 27,2 ºC (Paragominas, PA); a mínima absoluta registrada foi de 6 ºC, em Rio Branco (AC), em 1975, durante a friagem. Não há geadas em toda a sua área natural. Pela classificação de Köppen, ocorre nos tipos Af (Amazonas, sul da Bahia e região de Belém), Am (Amapá, Amazonas, Pará e Rio de Janeiro), As (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Sergipe) e Aw (Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Pará e Rondônia).
Cresce naturalmente em solos de textura que vai de arenosa a argilosa, em terrenos úmidos, de várzea ou alagadiços, periodicamente inundados, com drenagem deficiente e pH neutro.