Amesclão
Trattinnickia rhoifolia
- até 20 mAltura
- Grande portePorte
Também conhecida como: almécega, almecegueira, sucurubeira, amescla-aroeira, breu-sucuruba, breu, breu-preto, mangue, morcegueira, sucuruba
Botânica
Pelo sistema de classificação do The Angiosperm Phylogeny Group (APG II), o amesclão pertence à ordem Sapindales e à família Burseraceae, no gênero Trattinnickia (seção Trattinnickia). A espécie foi descrita por Willdenow como Trattinnickia rhoifolia Willd., com publicação original em Species Plantarum, Editio Quarta, em 1806. A origem do nome do gênero é desconhecida, enquanto o epíteto rhoifolia faz referência à semelhança entre seus folíolos e os do gênero Rhus.
Árvore de comportamento perenifólio (sempre-verde), com troca foliar gradual. Os exemplares de maior porte alcançam por volta de 20 m de altura e 60 cm de diâmetro à altura do peito (DAP) quando adultos. O tronco é reto, cilíndrico e bastante rugoso, dotado de pequenas sapopemas, com fuste em geral curto, que chega no máximo a 5 m. A ramificação é racemosa e a copa, globosa e densa. A casca atinge até 15 mm de espessura; a parte externa (ritidoma) é marrom-escura, sulcada no sentido longitudinal e com pequenas escamas, e ao ser cortada libera uma resina clara, inicialmente de aparência oleosa, que se torna mais pegajosa após secar parcialmente. A casca interna exala um cheiro forte, aromático ou balsâmico. As folhas são alternas e compostas imparipinadas, com pecíolo de base angulosa; o eixo formado pelo pecíolo e pela raque mede de 15 a 25 cm. Os folíolos, de 5 a 9 por folha, são coriáceos, rugosos, opostos, curto-peciolulados e ásperos na face inferior, normalmente de base cordada, medindo de 5 a 14 cm de comprimento por 2 a 5 cm de largura, com nervura central proeminente e glabra na face superior. A inflorescência apresenta-se em panículas terminais e axilares de 6 a 10 cm. As flores são unissexuais, de cálice glabro e corola esverdeada. O fruto é uma drupa ovoide a arredondada, glabra, de polpa carnosa e adocicada, com cerca de 1,2 cm de comprimento, que assume cor roxa quando madura e abriga uma única núcula. O pirênio é globoso, lenhoso, bilocular e indeiscente, de mesocarpo delgado. A semente é rugosa, apiculada, de cor amarelo-castanha, com 6 a 12 mm de comprimento, endocarpo ósseo muito rígido e sem endosperma.
Uso e ecologia
A madeira do amesclão é leve a moderadamente densa, com massa específica aparente de 0,48 a 0,57 g/cm³ a 12% de umidade e densidade básica de 0,44 a 0,50 g/cm³. Cerne e alburno são pouco diferenciados, de cor marrom-rosada-clara. A textura é grosseira, a grã varia de irregular a revessa, a superfície é levemente áspera ao toque e pouco brilhante, sem cheiro ou gosto marcantes. Não há dados sobre sua durabilidade natural. Sob tratamento por pressão, o cerne é de difícil preservação e o alburno é moderadamente fácil de preservar. Na secagem em estufa pelo Programa 1, a madeira seca com rapidez, mas tende a apresentar rachaduras moderadas a fortes, além de encanoamento e torcimento moderados. É fácil de serrar e moderadamente fácil de aplainar, deixando superfícies radiais ásperas. A madeira serrada e roliça é empregada na construção civil e em acabamentos internos (molduras, rodapés, cordões, tábuas para forro e fôrmas de concreto), além de compensados comerciais (miolo), móveis, divisórias, embalagens, caixotaria leve, engradados e saltos para calçados, entre outros. Na Bolívia, o tronco é aproveitado na confecção de canoas. No norte de Mato Grosso, está entre as espécies comerciais mais relevantes para laminação. Como combustível, fornece lenha de qualidade razoável. Já para celulose e papel, é considerada inadequada. As flores possuem potencial apícola.
Trata-se de espécie tolerante à sombra. Compõe o dossel superior ou figura como emergente nas florestas primárias, mas também aparece em florestas secundárias, em capoeiras e capoeirões. No Bioma Amazônia, é registrada na Floresta Ombrófila Aberta (noroeste de Mato Grosso e sudeste do Pará) e na Floresta Ombrófila Densa de terras baixas, ou floresta de terra firme (Pará e Amapá), onde alcança até dois indivíduos por hectare. No Bioma Cerrado, ocorre na savana ou cerrado stricto sensu, no Amapá. É encontrada ainda em mata ciliar (ambiente ripário) em Mato Grosso e em áreas de contato entre Floresta Ombrófila Densa e Floresta Estacional Semidecidual, no norte do mesmo estado. Na Bolívia, habita o bosque amazônico de terra firme e o bosque úmido montano.
No Pará, a floração vai de maio a setembro e os frutos amadurecem entre abril e maio.
É uma espécie hermafrodita. A polinização é feita por abelhas e por diversos insetos pequenos. A dispersão dos frutos e sementes ocorre por zoocoria, principalmente por aves.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando começam a cair naturalmente. Em seguida, são acondicionados em sacos plásticos até que a polpa entre em decomposição parcial, o que facilita a retirada das sementes por lavagem em água corrente. Cada quilo reúne cerca de 760 sementes. Não é preciso aplicar tratamento pré-germinativo. As sementes têm comportamento fisiológico recalcitrante e perdem a viabilidade com rapidez quando armazenadas.
Recomenda-se semear de 1 a 2 sementes por recipiente, em sacos de polietileno de no mínimo 22 cm de altura por 10 cm de diâmetro ou em tubetes de polipropileno grandes. Caso seja necessária, a repicagem deve ocorrer de 1 a 2 semanas após a germinação. A germinação é do tipo epígea ou fanerocotiledonar, com emergência entre 20 e 60 dias após a semeadura. A taxa de germinação costuma ser baixa, na faixa de 20% a 30%.
Espécie heliófila a esciófila, que não suporta baixas temperaturas. Apresenta ramificação simpodial inerente, irregular e variável, tronco curto sem dominância apical definida, ramificação pesada e múltiplas bifurcações. Como a desrama natural é deficiente, exige podas periódicas de condução dos galhos para formar um fuste bem definido. Rebrota com facilidade da touça após o corte. Pode ser cultivada em plantio puro a pleno sol, com espaçamento denso, mas seu desempenho silvicultural é melhor em plantio misto a pleno sol, associada a espécies pioneiras. Por sua rusticidade, é bastante indicada na recuperação de áreas degradadas de preservação permanente.
Há poucos dados sobre o crescimento do amesclão em plantios. O crescimento é lento, com produção volumétrica que chega a 1,40 m³/ha/ano aos 16 anos no Pará, 4,30 m³/ha/ano aos 11 anos no norte de Mato Grosso e 7,20 m³/ha/ano aos 11 anos em Manaus (AM). No Pará, entre 1976 e 1996, a espécie foi utilizada por 9% das empresas em projetos de reposição florestal registrados no Ibama.
A precipitação média anual varia de 2.000 a 3.500 mm, ambos os extremos registrados no Pará. O regime de chuvas vai de uniforme, na região de Belém (PA), a periódico nas demais áreas. A temperatura média anual fica entre 24,8 ºC (Belterra, PA) e 26,7 ºC (Manaus, AM); a média do mês mais frio entre 24,2 ºC (Belterra) e 26 ºC (Manaus); e a do mês mais quente entre 26,7 ºC (Belém) e 27,9 ºC (Macapá, AP). A menor temperatura já observada foi de 13,6 ºC, em Belterra (PA), em 16 de junho de 1977. Não ocorrem geadas. Pela classificação de Köppen, a espécie ocorre nos climas Af (tropical úmido ou superúmido), na região de Belém; Am (tropical úmido ou subúmido), no Amapá, norte de Mato Grosso e nordeste e oeste do Pará; e Aw (tropical com inverno seco), no Maranhão, norte de Mato Grosso e sudeste do Pará.
Desenvolve-se naturalmente em solos de textura franco-argilosa, com fertilidade química de baixa a média e valores baixos de pH e de CTC.