Foto: Hugo Hulsberg (CC0) via GBIF
Amendoim-bravo
Pterogyne nitens
- 10 a 15 m (até 35 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: amendoim-do-campo, ibiraró, óleo-branco, amendoinzeiro, angelim, aroeira-brava, bálsamo, bálsamo-do-pantanal, bálsamo-bravo, passarinho, santa-fé, viraró, bassourinha, sucupira, sucupira-branca, bico-de-anu, carne-de-vaca, falsa-tipa, iviraró, feijão-cru, gonçalo-alves, guiraró, jacutinga, madeira-nova, óleo-pardo, pau-de-amendoim, pau-de-fava, vilão
Botânica
Seguindo o Sistema de Classificação de Cronquist, a espécie pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Fabales e família Caesalpiniaceae (Leguminosae Caesalpinioideae). Foi descrita por Tulasne em 1843 sob o nome Pterogyne nitens. O gênero é monotípico, ou seja, reúne apenas esta espécie. O nome do gênero combina os termos gregos ptero (asa) e gyne (mulher), referência ao fruto alado disseminado pelo vento, enquanto nitens quer dizer brilhante, em alusão à folha. Já o nome popular remete à textura rugosa da porção que abriga a semente, semelhante à do amendoim.
Árvore semicaducifólia que normalmente alcança de 10 a 15 m de altura e 50 cm de DAP, podendo chegar a 35 m de altura e 120 cm de DAP quando adulta; na Região Nordeste, mantém-se entre 6 e 15 m de altura e 20 a 50 cm de DAP. O tronco é reto e cilíndrico, com fuste de até 15 m. A ramificação varia de cimosa a irregular, formando copa pouco densa, de galhos grossos e tortuosos. A casca, com até 8 mm de espessura, é pardo-cinzenta e lisa nas plantas jovens, tornando-se áspera e rugosa com sulcos longitudinais estreitos e profundos e placas retangulares na fase adulta; internamente é rosa-viva e fibrosa. As folhas são imparipinadas, de 10 a 30 cm, com 8 a 20 folíolos alternos, ovalados, emarginados, de consistência subcoriácea e até 4 cm de comprimento. As flores são hermafroditas (às vezes com ovário atrofiado), amarelo-claras, perfumadas, de 3 a 6 mm, reunidas em racemos axilares de 3 a 7 cm com 10 a 40 flores cada. O fruto é uma sâmara falciforme indeiscente, achatada e estipitada, de 3,5 a 6 cm, com coloração que vai do pardo-avermelhado ao marrom-claro; abriga uma única semente em núcleo seminífero oblongo, coriáceo e reticulado, separado da ala por nervura oblíqua bem marcada. A semente é castanha, lisa, lustrosa e comprimida, de formato elíptico a oval-elíptico com dois bicos, medindo de 1 a 2 cm de comprimento por 0,5 a 1 cm de largura.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,70 a 0,87 g/cm³ a 15% de umidade), com alburno bege-claro levemente amarelado, distinto do cerne, que é bege-rosado-escuro ou castanho-claro e uniforme. Apresenta superfície brilhante e lustrosa, textura média, grã direita a irregular e, por vezes, leve odor de amendoim cru e sabor um pouco amargo. Tem resistência apenas moderada ao apodrecimento, não devendo ficar em contato com o solo ou exposta à umidade prolongada; o cerne, no entanto, mostra-se bastante resistente a fungos e cupins. Por causa do óleo-resina que obstrui parcialmente os vasos, absorve mal os preservantes. Tende a rachar na secagem, mas é fácil de trabalhar, colar e acabar; é elástica, tenaz e resistente, indicada para peças curvas. Lembra o mogno, embora seja mais pesada e menos vistosa, e é comparável, ainda que inferior, à cabriúva. A madeira serrada e roliça presta-se a móveis finos, lambris, assoalhos, carpintaria, carrocerias, construção civil (vigas, caibros, ripas, forros, esquadrias), tanoaria, dormentes, mourões, postes, estacas, implementos agrícolas, cabos de ferramenta, tornearia, lâminas e chapas decorativas, além de barris, tonéis e tanques para bebidas e produtos ácidos, e da construção de barcos e casas no meio rural. Também é boa produtora de lenha e carvão, sobretudo no Pantanal Mato-Grossense. Não serve, porém, para celulose e papel. Quimicamente, destaca-se pela presença intensa de alcaloides na casca e no lenho, de cumarinas, saponinas e taninos na casca, e pela seiva rósea cujo extrato aquoso do pó de serra produz cor roxa usada em tinturaria.
Classificada como secundária inicial, atua como pioneira em sítios arenosos e degradados, podendo comportar-se também como secundária tardia. É comum na vegetação secundária e em capoeiras, frequentemente isolada em pastagens, onde se regenera com vigor a ponto de tornar-se invasora de áreas abertas. Ocorre principalmente na Floresta Estacional Semidecidual Submontana, ocupando o dossel superior ou emergente; aparece ainda na Floresta Estacional Decidual (Bacia do Rio Uruguai e formação Aluvial em Mato Grosso do Sul), na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), no Cerradão e ocasionalmente no Cerrado, no domínio da Caatinga/Mata Seca e na Caatinga Arbórea Aberta ao longo dos rios Verde e São Francisco, no norte de Minas Gerais. Na Bahia, surge na transição da Caatinga com a Mata de Cipó; é frequente também nas partes secas e calcárias do Pantanal Mato-Grossense e nos brejos de altitude de Pernambuco.
A floração ocorre de setembro a outubro no Ceará, de janeiro a fevereiro no Rio de Janeiro, de janeiro a março em São Paulo, de janeiro a abril no Paraná e de fevereiro a maio em Mato Grosso do Sul. Os frutos amadurecem em maio no Rio de Janeiro, de maio a agosto no Paraná e em São Paulo e de agosto a novembro em Mato Grosso do Sul. Em plantios, a reprodução costuma iniciar por volta dos 10 anos de idade.
Planta monoica e de fecundação cruzada (alógama), tem como principais polinizadores as abelhas e diversos insetos de pequeno porte. A dispersão dos frutos e sementes é sobretudo autocórica, por gravidade (barocórica), além de anemocórica pelo vento e ictiocórica pelo peixe botoado (Pterodoras granulosus) na Bacia do Rio Paraná.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando apresentam coloração parda ou marrom-clara, pois aqueles que ficam marrom-escuros já têm sementes sem poder germinativo. Como as sementes permanecem muito tempo na árvore e sofrem ataque de insetos que comprometem a germinação, a coleta no momento certo é fundamental. Elas alcançam o tamanho máximo cerca de 50 dias após o florescimento e a maturidade fisiológica aos 71 dias, com umidade entre 60% e 65%; a extração é feita manualmente. Cada quilo contém de 4.500 a 13 mil sementes, com relação peso de sementes/peso de frutos de 90% a 100%. Como há dormência tegumentar, recomendam-se tratamentos pré-germinativos como imersão em água quente a 65ºC fora do aquecimento seguida de 12 horas de repouso, punção do tegumento, escarificação mecânica ou em ácido sulfúrico concentrado por 10 a 15 minutos; no Paraguai, porém, observou-se germinação rápida sem nenhum tratamento. Já a imersão em água fervente por 30, 60 ou 90 segundos danifica o embrião de muitas sementes. Armazenadas a seco, conservam a viabilidade por pelo menos dois anos e apresentam comportamento ortodoxo, tendo germinado 3% mesmo após sete anos guardadas em vidro à temperatura ambiente; em armazenamento não controlado é indispensável usar inseticidas, dado o intenso ataque de carunchos.
A semeadura pode ser feita em sementeiras, para posterior repicagem, ou diretamente em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes de polipropileno de tamanho médio; recomenda-se cerca de 300 g de fruto por metro quadrado de sementeira. A repicagem é feita de 2 a 4 semanas após a germinação. A germinação é epígea e começa entre 8 e 68 dias após a semeadura, com poder germinativo que chega a 99% quando a dormência é superada e cai a 41% sem esse tratamento. As mudas atingem porte adequado para o plantio por volta dos 6 meses. As raízes não se associam a Rhizobium. A propagação vegetativa é viável: a espécie possui raízes gemíferas que possibilitam regeneração agâmica, e estacas radiciais de 5 cm ou mais, com diâmetro acima de 0,5 cm, emitem brotos e novas raízes; experimentos de borbulhia chegaram a 55% de pegamento, contra 20% na garfagem. A adubação mineral combinada a adubo orgânico e doses de NPK favorece bastante o desenvolvimento das mudas no viveiro. As mudas em raiz nua pegam bem, mas são sensíveis ao transplante.
Trata-se de espécie heliófila, de tolerância variável ao frio, indo de medianamente tolerante a tolerante, com excelente recuperação quando as mudas são atingidas por geadas. O hábito tende a ser tortuoso, muito ramificado, sem dominância apical e por vezes com vários troncos. A desrama natural só acontece sob sombra ou em adensamento, de modo que a planta exige podas frequentes de condução e de galhos nos primeiros anos, ainda que feitas com dificuldade e cicatrização lenta. Não se dá bem em povoamentos puros a pleno sol, sendo preferível o plantio misto com pioneiras, o plantio em linhas com faixas abertas na vegetação matricial ou o enriquecimento de bosques, para o qual tem boas perspectivas. Rebrota da touça após o corte, podendo ser manejada por talhadia. A espécie corre risco de extinção e tem número reduzido de exemplares em São Paulo, integrando a lista estadual para conservação genética; populações-base ex situ revelaram ampla variabilidade de crescimento dentro das progênies e elevado potencial para programas de melhoramento.
O crescimento varia de lento a moderado. Em plantios, o incremento volumétrico máximo registrado foi de 7 m³ por hectare ao ano, com fator de forma de 0,85.
A precipitação média anual em sua área de ocorrência vai de 700 mm, na Bahia, a 2.200 mm, em Alagoas. As chuvas distribuem-se de modo uniforme no oeste do Paraná e concentram-se no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no oeste do Paraná, pequena no norte desse estado, moderada no oeste de São Paulo e sul de Mato Grosso, e de moderada a forte no oeste da Bahia (com até 5 meses de seca) e no norte de Minas Gerais. A temperatura média anual oscila entre 18,5ºC (Tibagi, PR) e 25,3ºC (Bom Jesus da Lapa, BA); a do mês mais frio fica entre 14,5ºC (Foz do Iguaçu, PR) e 23,8ºC (Barbalha, CE), e a do mês mais quente entre 21,8ºC (Vitória da Conquista, BA) e 27,2ºC (Corumbá, MS), com mínima absoluta de -5,3ºC (Guaíra, PR). Na Região Sul registram-se de 0 a 4 geadas por ano em média (máximo de 7), mas a planta vive predominantemente em áreas sem geada ou com geada rara. Os tipos climáticos de Köppen abrangidos são o subtropical úmido (Cfa), o subtropical de altitude (Cwa e Cwb), o tropical (Aw) e o semiárido (BSh).
Cresce de forma natural em solos de baixa fertilidade química, com texturas que vão da arenosa à argilosa, inclusive em terrenos calcários. No sul do Ceará, aparece em solos aluvionais e coluvionais de tabuleiros profundos. Em plantios experimentais no Paraná, teve melhor desempenho em solos de fertilidade química elevada, bem drenados e de textura argilosa.