Foto: Rapper Ouriço (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia
Amburana-de-cheiro
Amburana cearensis
- 3 a 12 m (até 40 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: cumaru, amburana, ambaurana, imburana-de-cheiro, imburana-brava, cumaru-de-cheiro, cumaru-do-ceará, cumbaru-das-caatingas, cerejeira, cerejeira-rajada, baru, umburana, umburana-de-cheiro, umburana-lisa, umburana-macho, umburana-vermelha, emburana, louro-ingá, angelim
Botânica
Pelo sistema de Cronquist, a espécie é classificada na divisão Magnoliophyta (angiospermas), classe Magnoliopsida (dicotiledôneas), ordem Fabales e família Fabaceae (subfamília Papilionoideae). Seu nome científico aceito é Amburana cearensis, descrita por A. C. Smith em 1940 a partir de material original de Freire Allemão. Já recebeu os sinônimos Amburana claudii e Torresea cearensis. O termo 'Amburana' deriva da designação popular usada no Ceará, combinando 'ambu' (referência a uma planta semelhante) com 'rana' (que significa parecido ou falso), enquanto o epíteto 'cearensis' lembra que o exemplar-tipo foi coletado naquele estado.
Trata-se de uma árvore que perde as folhas na estação seca. Na Caatinga costuma medir de 3 a 12 m de altura, com tronco de 20 a 50 cm de diâmetro, mas pode chegar a 30 m na Argentina e até 40 m de altura com 100 cm de diâmetro nas florestas pluviais do Peru. O tronco varia muito conforme o ambiente: nas florestas é reto e cilíndrico, com fuste de até 15 m, enquanto na Caatinga aparece curto, torto e com raízes tabulares (sapopemas) na base. A ramificação é dicotômica, formando copa baixa e achatada na Caatinga e copa alta, larga e em forma de guarda-chuva nas matas. A casca chega a 7 mm de espessura; a parte externa é quase lisa, de tom amarelo-avermelhado a vermelho-pardacento, com lenticelas e desprendendo lâminas finas e transparentes, e a interna é amarelada, fibrosa, gordurosa, de sabor amargo e com forte cheiro de cumarina. As folhas são compostas, alternas e imparipinadas, reunindo de 7 a 11 folíolos pequenos e ovados; a brotação nova chama atenção pelo verde-claro brilhante. As flores são pequenas, branco-amareladas e perfumadas, dispostas em cachos axilares ou nas pontas dos ramos, cobrindo por completo os galhos despidos durante a floração. O fruto é uma criptossâmara achatada, semicilíndrica e preta, lembrando um bilro de fazer renda, com 6 a 10 cm de comprimento e abertura na ponta, contendo uma única semente. A semente é achatada, rugosa, de formato variável, com 10 a 20 mm de comprimento, cor marrom-avermelhada a preta, dotada de uma asa lateral fina (de 26 a 50 mm) e exalando o odor característico de cumarina, com sabor amargo e picante.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (0,55 a 0,60 g/cm³ a 15% de umidade no Brasil), com cerne e alburno pouco diferenciados, de cor bege-amarelada a bege-rosada e ocasionais veios escuros. Apresenta superfície irregularmente lustrosa, textura grosseira, grã direita a irregular, cheiro marcante que lembra baunilha e sabor levemente adocicado. Sua durabilidade natural é baixa em condições favoráveis ao apodrecimento, mas oferece boa resistência a fungos e insetos em usos internos; a tendência a empenar pode ser controlada com secagem cuidadosa, e recomenda-se eliminar o alburno em trabalhos de qualidade. Por sua aparência suave, lembra o carvalho-europeu e é facilmente confundida com a do faveiro, de menor valor. É madeira valiosa e bem cotada nos mercados nacional e internacional, indicada para móveis de luxo, folhas faqueadas decorativas, esculturas, acabamentos e revestimentos internos, portas, esquadrias, forros, lambris, painéis, entalhes e torneados; também é apreciada na tanoaria, pela facilidade de produzir peças curvas, sendo usada em aduelas para barris que conferem sabor especial a bebidas alcoólicas. Serve ainda como lenha de boa qualidade, mas é inadequada para celulose e papel. As sementes concentram cerca de 4% de cumarina (presente também na casca e no lenho), empregada para aromatizar fumo, rapés e roupas como substituto do cumaru-verdadeiro, com aplicações nas indústrias alimentícia (doces e biscoitos), de tabacos, de sabões e, principalmente, de perfumaria, onde atua como fixador; das sementes ainda se extrai óleo essencial de valor comercial e da casca, óleos medicinais voláteis. O tronco exsuda uma goma amarelada quando ferido, a semente funciona como repelente de insetos e traças, e a casca é usada no preparo de doces.
É uma espécie pioneira, longeva e comum na vegetação secundária. Os estômatos ficam abaixo do nível das células da epiderme, traço típico de plantas adaptadas à seca (xerófilas). Predomina na Caatinga e na Mata Seca, onde é frequente, inclusive em matas ciliares de depressões inundáveis do Semiárido; aparece também na Floresta Estacional Semidecidual restrita a afloramentos rochosos ou calcários, na Floresta Estacional Decidual Submontana do oeste da Bahia e do Vale do Rio Paranã, em Goiás, e no Pantanal Mato-Grossense, em pastos sujeitos a inundação anual. É rara na Floresta Atlântica e no Cerrado. Sua densidade é baixa: inventários na Bacia do Rio Piranhas (PB) registraram de 1 a 17 árvores por hectare, e em Pernambuco foram contadas de 3 a 6 árvores por hectare no sertão e apenas 1 por hectare no agreste.
A floração ocorre de março a maio em São Paulo, de maio a junho em Pernambuco e em setembro no Ceará, sendo irregular em terras pernambucanas. Os frutos amadurecem de julho a outubro em São Paulo, em agosto no Espírito Santo e em Mato Grosso do Sul, em setembro na Paraíba, de setembro a outubro em Goiás e Pernambuco e de outubro a dezembro no Ceará. A reprodução começa por volta dos 10 anos em plantios, e cada árvore pode render de 8 a 12 kg de sementes. A frutificação é bienal em Goiás e em Pernambuco; as fenofases não são sincronizadas entre as diferentes áreas de ocorrência. No Ceará, a planta floresce e frutifica todos os anos na estação seca, depois de perder as folhas.
A planta é hermafrodita e tem nas abelhas seus principais polinizadores. A dispersão dos frutos e sementes é anemocórica, ou seja, feita pelo vento.
Plantio e silvicultura
A colheita é feita retirando os frutos diretamente da árvore quando começa a queda natural, ou recolhendo-os do chão depois de caírem. Como a semente tem uso medicinal, é bastante disputada pela população rural, o que limita a obtenção em grande escala. A extração se faz em local ventilado, deixando os frutos abrirem (deiscência). Cada quilo reúne de 450 a 2,2 mil sementes. Há dormência causada pela presença de cumarina; estudos mostram que o desponte manual do tegumento com lixa ou a abertura de uma fenda com pirógrafo (agulha incandescente) elevam a germinação e reduzem plântulas anormais e mortas, enquanto a imersão em água a 100ºC por 3 a 5 minutos e a escarificação mecânica por 5 segundos mataram todas as sementes; por outro lado, imergir as sementes em água fervente já fora do fogo, por 15 a 30 minutos, acelera a germinação. As sementes perdem rápido o poder germinativo, mas têm comportamento ortodoxo e podem ser guardadas por longos períodos em câmaras frias: um lote do Sudeste com 96% de germinação manteve a viabilidade por 180 dias armazenado a 8,4% de umidade em diferentes condições, e sementes em câmara a 10ºC e 45% de UR, em garrafa, preservaram germinação e vigor por até 12 meses. Para os ensaios de germinação recomenda-se substrato em rolo de papel e temperaturas alternadas de 20ºC a 30ºC, lembrando que o efeito da temperatura pode variar conforme a procedência das sementes.
Recomenda-se semear duas sementes por saco de polietileno de no mínimo 20 cm de altura e 7 cm de diâmetro, ou em tubetes médios de polipropileno, a uma profundidade de 0,5 a 1 cm. No Nordeste, após as primeiras chuvas, a semeadura pode ser feita direto na cova com três sementes ou a lanço. A germinação é hipógea e criptocotilar, com hipocótilo reduzido, iniciando entre 5 e 30 dias; o poder germinativo é alto, podendo chegar a 95% (média de 80%). As mudas atingem porte adequado para plantio cerca de 3 meses após a semeadura. A planta jovem forma uma raiz principal com um tubérculo carnoso bege, que aos 9 meses alcança até 3 cm de diâmetro e emite numerosas raízes finas e longas. No Nordeste, o sombreamento é dispensável; no Distrito Federal, o melhor desenvolvimento das plântulas ocorreu em condições mais iluminadas, mas em São Paulo recomenda-se sombra acima de 56% ao menos na fase inicial. As raízes não se associam a Rhizobium nem formam micorrizas arbusculares. A propagação vegetativa por estacas é possível: pesquisadores obtiveram brotações de estacas de árvores adultas e enraizamento entre 30% e 75%, mesmo sem uso de hormônios enraizadores.
Espécie heliófila e medianamente tolerante ao frio. Tem hábito de forma irregular, sem dominância apical, com caule acamado e ramos pesados; a desrama natural é fraca, exigindo podas de condução e dos galhos de forma frequente e periódica. Pode ser plantada a pleno sol em plantio puro, com crescimento razoável em solos férteis mas forma ruim, ou em plantio misto com pioneiras e secundárias. No Nordeste, recomenda-se o consórcio com o sabiá (Mimosa caesalpiniaefolia) ou o plantio em faixas abertas na vegetação secundária. Na província argentina de Misiones, foi plantada em faixas de 50 m abertas na floresta nativa, no espaçamento de 4 x 4 m, com crescimento razoável e ressalvas quanto à forma. A árvore não rebrota depois de cortada. Por estar em risco de extinção no Brasil e no Paraguai, é considerada prioritária para conservação de germoplasma: no Brasil é conservada ex situ pela Embrapa, recomendando-se a conservação in situ das populações mais ao sul, na região de Avaré (SP). No Paraguai, a exploração intensa e o avanço da pecuária esgotam rapidamente os estoques, motivando o Projeto Trébol, voltado à conservação e reposição da espécie.
O crescimento em plantios é lento. Em cultivo, a árvore alcança cerca de 3 m de altura entre 3 e 4 anos de idade. O maior incremento médio registrado foi de 2,00 m³ por hectare ao ano, aos 9 anos, em Santa Helena (PR).
A precipitação média anual varia de 440 mm na Bahia a 2.300 mm no Ceará, e de 690 mm a 2.000 mm na Argentina. As chuvas são uniformes na Argentina e no Paraguai e mais sazonais no Brasil, com concentração no verão e máximas no outono entre o Nordeste e o norte de Minas Gerais. A deficiência hídrica é pouco pronunciada no sul da Bahia, moderada em São Paulo (até 3 meses secos), forte no norte de Minas (até 6 meses) e muito forte no Nordeste (até 9 meses). A temperatura média anual fica entre 19,5ºC (Avaré, SP) e 27,6ºC (Simplício Mendes, PI) no Brasil, e entre 13ºC e 22ºC na Argentina. A mínima absoluta registrada chega a -2ºC em Avaré e a -9,9ºC em Salta, na Argentina. Costuma ocorrer em áreas sem geadas ou com geadas raras (de 0 a 2 por ano, máximo de 5 ao sul de sua distribuição). Os tipos climáticos de Köppen abrangidos são o Semiárido (BSh), o tropical (Aw), o subtropical de altitude (Cwa) e o subtropical úmido (Cfa).
No Nordeste, a espécie ocorre naturalmente em solos profundos, de textura franca a argilo-arenosa, nas meias-encostas da Caatinga; no Vale do Rio Paranã, em Goiás, aparece em afloramentos calcários. Em plantios no Sul do país, comporta-se de forma satisfatória em solos quimicamente férteis, bem drenados e de textura argilosa.