Foto: Carlos A. Milanesi (Public domain) via Wikimedia
Alecrim
Holocalyx balansae
- 5 a 10 m (até 25 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: alecrim-das-matas, pau-de-rego, alecrim-de-campinas, alecrim-do-campo, alecrim-do-mato, alecrim-tóxico, pau-alecrim
Botânica
A espécie é classificada como Holocalyx balansae, descrita por Micheli em 1883. Tem como sinônimo botânico Holocalyx glaziowii Taubert e pertence à família Caesalpiniaceae (Leguminosae Caesalpinioideae), na ordem Fabales. O nome do gênero, Holocalyx, faz referência ao cálice inteiro, fechado ainda no botão floral, enquanto o epíteto balansae homenageia o botânico Balansa, responsável por coletar a planta ao longo de onze anos de trabalho no Paraguai. O gênero é monoespecífico, ou seja, reúne apenas esta única espécie.
Trata-se de uma árvore perenifólia que normalmente alcança de 5 a 10 m de altura e de 20 a 50 cm de diâmetro à altura do peito (DAP), podendo chegar, em indivíduos adultos, a 25 m de altura e 100 cm de DAP. O tronco costuma ser tortuoso, irregular e canelado, raramente cilíndrico, com fuste curto de até 9 m. A ramificação é dicotômica e irregular, formando uma copa ampla, arredondada e compacta que atinge até 10 m de diâmetro. A casca chega a 5 mm de espessura: a parte externa é cinza-escura e lisa nas árvores jovens, ganhando fissuras e placas com a idade, ao passo que a interna é fibrosa e esbranquiçada. As folhas são compostas, alternas e paripinadas, de tom verde-escuro, com até 16 cm de comprimento e de 15 a 35 pares de folíolos opostos e pequenos. As flores são pequenas, perfumadas, de coloração que varia do amarelo ao esbranquiçado em tons bege ou esverdeados, reunidas em racemos curtos e compostos de posição axilar, com 2 a 3 cm de comprimento. O fruto é uma drupa carnosa, globosa, amarelada e indeiscente, medindo de 14 a 22 mm de comprimento por 12 a 19 mm de diâmetro, em geral com uma semente (ocasionalmente duas ou, raramente, três) e pesando cerca de 2,5 g quando fresco. A semente é globosa, de cor acastanhada, com 19 mm de comprimento e de 12 a 18 mm de diâmetro.
Uso e ecologia
A madeira é densa, com massa específica aparente de 0,90 a 1,06 g/cm³ a 15% de umidade e massa específica básica de 0,69 g/cm³. O alburno é branco-amarelado claro, enquanto o cerne tem coloração róseo-avermelhada, com tons amarelados a castanhos e numerosas estrias mais escuras e arroxeadas. A superfície é lisa ao tato, de brilho discreto, textura fina e grã direita ou irregular, sem cheiro ou gosto marcantes. O alburno é resistente, porém pouco durável, ao passo que o cerne se destaca por durabilidade e resistência excepcionais; como o tronco é irregular, a árvore apresenta cerne reduzido e alburno abundante, podendo ocorrer falso cerne. Saliências e depressões na base do tronco geram perdas no desdobro. A madeira serrada e roliça presta-se a marcenaria de luxo, tacos de bilhar, bengalas, construção pesada, tabuado, vigamento, caibros, dormentes, eixos, esquadrias, estacas, forros, móveis, mourões, postes, ripas, cabos de ferramentas e peças torneadas. Fornece ainda lenha e carvão de boa qualidade, que queimam mesmo verdes (lignina e cinzas de 24,35%). Não é indicada para celulose e papel, pois suas fibras medem apenas 0,74 mm. No artesanato, povos indígenas Xavante, em Mato Grosso, e Guarani, no Paraguai, aproveitam o cerne para confeccionar tacapes e pontas de flecha.
O alecrim é uma espécie clímax, típica do interior da floresta primária e pouco frequente em formações secundárias, além de ser bastante longeva. Ocorre na Floresta Estacional Semidecidual, sobretudo na formação Submontana, onde compõe o estrato dominante; na Floresta Estacional Decidual, no estrato intermediário; e em matas de galeria do Centro-Oeste. Quanto à densidade, em área inventariada do Parque Nacional do Iguaçu chegou a representar 6,14% das espécies de maior valor econômico, com 2 a 6 indivíduos por hectare na Selva Misionera (Misiones, Argentina). Levantamentos no estado de São Paulo encontraram de 2 a 9 árvores por hectare na Floresta Estacional Semidecidual, e no noroeste do Rio Grande do Sul registraram-se 11 árvores por hectare em Floresta Estacional Decidual.
A floração ocorre de maio a outubro em São Paulo; em setembro no Paraná; de setembro a outubro no Rio Grande do Sul; de setembro a dezembro no Rio de Janeiro; e em outubro em Minas Gerais. Os frutos amadurecem de setembro a janeiro em São Paulo; de novembro a janeiro em Minas Gerais; de janeiro a junho no Rio de Janeiro; de março a abril no Rio Grande do Sul; e de abril a maio no Paraná. Em plantios, a reprodução tem início por volta dos 15 anos de idade.
A planta é hermafrodita e tem na polinização a atuação principalmente de abelhas e de diversos insetos pequenos. A dispersão de frutos e sementes é zoocórica, feita por morcegos, entre outros animais, e também ornitocórica, com destaque para o periquito-maitaca (Pionus sp.). A polpa madura, suculenta, adocicada e levemente ácida, alimenta diversos animais silvestres, como o veado-campeiro (Ozotocerus bezoarticus), a anta (Tapirus terrestris) e o próprio periquito-maitaca, que estão entre seus principais dispersores.
Plantio e silvicultura
Os frutos costumam ser recolhidos no chão. Para obter as sementes, lava-se e macera-se o fruto em água a fim de remover a polpa carnosa; em seguida, as sementes ficam em peneiras secando à sombra. Cada quilo reúne de 400 a 724 sementes, e a relação entre o peso das sementes e o dos frutos varia de 42% a 50%. A espécie não apresenta dormência, embora, na Argentina, recomende-se estratificação com abundante matéria orgânica. As sementes têm comportamento recalcitrante e perdem rapidamente a viabilidade quando guardadas em ambiente sem controle.
Recomenda-se semear em sementeiras para posterior repicagem ou semear diretamente em sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou ainda em tubetes grandes de polipropileno. A germinação é hipógea, começando entre 30 e 120 dias após a semeadura, com poder germinativo de 50% a 90%. As mudas alcançam tamanho adequado para o plantio cerca de 9 meses após a semeadura. As raízes do alecrim não estabelecem associação simbiótica com Rhizobium.
Espécie esciófila, o alecrim precisa de sombreamento de intensidade média na fase jovem e tolera baixas temperaturas. Seu hábito é irregular, sem dominância apical, com acamamento do caule e tronco curto, e não realiza desrama natural, exigindo podas periódicas de condução e dos galhos. O plantio puro a pleno sol deve ser evitado em razão da exigência de luz: em Dois Vizinhos (PR), a espécie teve melhor desempenho em plantio misto do que em plantio puro. Pode ser cultivada em plantio misto com espécies pioneiras para melhorar a forma, em vegetação matricial arbórea, em faixas abertas na vegetação secundária ou plantada em linhas; após o corte, não rebrota da touça. Não deve ser usada como árvore de sombra para o gado, por ser tóxica: a ingestão de folhas na proporção de 6 g por quilo do animal libera quantidade de cianeto letal para bovinos. A espécie consta na lista das ameaçadas de extinção no sul de Minas Gerais.
O crescimento é lento, com incremento médio máximo registrado de 1,20 m³ por hectare ao ano aos 10 anos de idade.
A precipitação média anual nas áreas de ocorrência vai de 1.000 mm, em São Paulo, a 2.300 mm, em Santa Catarina. As chuvas são uniformemente distribuídas na Região Sul (com exceção do norte do Paraná) e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é moderada, com estação seca de até 3 meses no oeste paulista e no sul do Mato Grosso do Sul. A temperatura média anual varia de 18,3 ºC (Telêmaco Borba, PR) a 22,3 ºC (Jaú, SP); a média do mês mais frio fica entre 13,5 ºC e 18,7 ºC, e a do mês mais quente entre 22,3 ºC (Viçosa, MG) e 25,1 ºC (Jaú, SP), com mínima absoluta de -5,0 ºC em Telêmaco Borba (PR). O número de geadas por ano varia de 0 a 10, com máximo absoluto de 18 na Região Sul, predominando, porém, ausência de geadas ou ocorrência pouco frequente. Pela classificação de Koeppen, abrange os tipos temperado úmido (Cfb), subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e tropical (Aw).
O alecrim cresce de forma natural tanto em solos férteis e profundos quanto em solos rasos e rochosos. Prefere terrenos úmidos, porém bem drenados, e não suporta áreas encharcadas. Para o plantio, recomenda-se solo de fertilidade química média a boa, com textura de franca a argilosa.