Foto: Lars Curfs (Grashoofd) (CC BY-SA 3.0 nl) via Wikimedia
Açoita-cavalo
Luehea divaricata
- 3,5 a 15 m (excepcionalmente até 30 m)Altura
- Médio portePorte
Também conhecida como: açoita, açoita-cavalo-do-miúdo, açoita-cavalos-branco, açoita-cavalo-vermelho, açoita-cavalos, açoite-cavalo, ibitinga, ivantingui, vatinga, biatingui, caoveti, envireira-do-campo, estribeiro, estriveira, guaxima-do-campo, ibatingui, ivatingui, ivitinga, ivitingui, luitingui, mutamba, pau-de-canga, salta-cavalo, soita, soita-cavalo, ubatinga
Botânica
Pela classificação de Cronquist, o açoita-cavalo pertence à divisão Magnoliophyta (Angiospermae), classe Magnoliopsida (Dicotiledonae), ordem Malvales e família Tiliaceae. A espécie foi descrita por Martius & Zuccarini, em 1824, sob o nome Luehea divaricata. São reconhecidos como sinônimos botânicos Alegria divaricata (Martius) Stuntz, Brotera mediterranea Vell. e Thespesia brasiliensis Sprengel. O nome do gênero presta homenagem ao botânico austríaco Karl Von der Lühe; a grafia original Lühea foi adaptada para Luehea conforme o Código Internacional de Nomenclatura Botânica. O epíteto divaricata remete ao aspecto aberto e divergente dos pedúnculos e pedicelos da inflorescência. Em tupi-guarani, a planta é chamada ivatingi, que pode ser traduzido como “fruto que aborrece”.
Árvore caducifólia que costuma medir de 3,5 a 15 m de altura, com diâmetro à altura do peito entre 20 e 50 cm, podendo, em indivíduos adultos, alcançar até 30 m de altura e 100 cm de DAP. O tronco é tortuoso, nodoso, cheio de reentrâncias e com a base alargada por sapopemas; em geral o fuste é curto, mas no interior da floresta pode formar-se quase reto, atingindo até 10 m de comprimento. A ramificação é irregular e simpódica, formando copa larga e densa de folhagem característica. A casca chega a 25 mm de espessura: a externa é pardo-acinzentada-escura, áspera, levemente fissurada e coberta por pequenas escamas retangulares, enquanto a interna é avermelhada, fibrosa e marcada por estrias esbranquiçadas. As folhas são simples, alternas, dísticas, com estípulas, de margem irregularmente serreada e três nervuras longitudinais típicas; são discolores, ásperas na face ventral e tomentosas na dorsal, medindo de 4,5 a 15 cm de comprimento por 2 a 6,5 cm de largura, com pecíolo ferruginoso de até 1 cm. As flores, vistosas, têm pétalas róseas, roxas ou raramente brancas, de até 2,5 cm de comprimento, dispostas em inflorescências terminais e axilares de cimeiras dicotômicas multifloras. O fruto é uma cápsula lobada, oblonga, pentalocular, de valvas lenhosas e cor castanha, recoberto por densa pilosidade ferrugínea; mede de 2 a 3 cm, abre-se em cinco fendas por deiscência loculicida na ponta e contém de 5 a 15 sementes. As sementes são pequenas, aladas, com asas agudas de coloração dourado-brilhante e núcleo seminal marrom-claro situado na extremidade da asa.
Uso e ecologia
A madeira é moderadamente densa (massa específica aparente de 0,56 a 0,70 g/cm³ a 15% de umidade; massa específica básica de 0,53 g/cm³). Alburno e cerne são pouco diferenciados, de cor bege-clara a acinzentada, uniforme, às vezes com tom rosado e estriado. A superfície é lisa ao tato e sem brilho, a textura média a grossa e a grã reta a levemente oblíqua, sem odor ou gosto marcantes. É de baixa durabilidade natural diante de organismos xilófagos, motivo pelo qual se recomenda tratamento preservante — ao qual se mostra permeável sob pressão. Seca rapidamente, com pouco empenamento, e é fácil de trabalhar, oferecendo bom acabamento. Entre os empregos da madeira serrada e roliça estão estruturas de móveis, hélices de avião, caixas, embalagens, saltos para calçados, peças torneadas, compensados e contraplacados; na construção civil, serve para tacos, ripas, molduras, rodapés, caibros, esquadrias, forros e vigamentos; presta-se ainda a fôrmas e cabos de vassoura, instrumentos musicais, selas, cangalhas, escovas, postes, dormentes, laminação, tornearia, mourões, esculturas, peças curvadas e cadeiras de balanço, e dos galhos fabricam-se chicotes. É considerada uma das melhores madeiras para coronhas de armas de fogo. Como combustível, fornece lenha e carvão de qualidade inferior. Também é adequada à produção de celulose e papel (fibras de 1,25 mm de comprimento). Da casca extraem-se fibras e mucilagens; das flores, óleo essencial; e do tronco, resina. A casca é valorizada pelo tanino usado em curtumes, embora alguns estudos não tenham confirmado sua presença. A forragem, com 12% de proteína bruta e 12,7% de tanino, é considerada imprópria como alimento animal.
Trata-se de espécie secundária, do estágio inicial ao tardio, frequente na vegetação secundária, sobretudo em capoeiras, e capaz de invadir pastagens; as árvores são longevas. Ocorre principalmente na Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica), na formação Baixo-Montana; na Floresta Ombrófila Mista (Floresta com Araucária), nas formações Aluvial e Montana, onde figura entre as principais espécies do estrato emergente do Sul; na Floresta Estacional Semidecidual, nas formações Aluvial, Montana e Submontana; e na Floresta Estacional Decidual, nas formações Aluvial, Baixo-Montana e Montana. Eventualmente aparece no Cerradão, no domínio da Caatinga em Minas Gerais e em encraves vegetacionais do Nordeste. Quanto à densidade, registrou-se de 0 a 7 indivíduos por hectare na Selva Misionera (Misiones, Argentina); no Brasil, foram contadas 14 árvores por hectare em mata de galeria no Distrito Federal, 14 indivíduos por hectare em Floresta Estacional Semidecidual em Perdizes (MG) e três por hectare em Floresta Estacional Decidual no noroeste do Rio Grande do Sul.
A floração acontece de dezembro a abril no Paraná, de dezembro a julho em Minas Gerais, de janeiro a março no Rio Grande do Sul e de março a julho em São Paulo. Os frutos amadurecem de abril a outubro em São Paulo, de maio a julho no Paraná e no Rio Grande do Sul e de junho a outubro em Minas Gerais. Em plantios, a reprodução pode começar cedo, por volta dos 2 anos de idade.
Planta hermafrodita, é polinizada sobretudo por abelhas, com destaque para a Apis mellifera (europeia ou africanizada), e ocasionalmente por beija-flores. A dispersão das sementes é anemocórica, feita pelo vento. Suas flores são melíferas, fornecendo pólen e néctar, e o mel produzido é apreciado por suas propriedades expectorantes.
Plantio e silvicultura
Os frutos devem ser colhidos quando a coloração passa de verde a marrom-claro, antes da deiscência ou logo no início dela. Depois da coleta, ficam expostos sobre lonas ou bandejas para secar à sombra e, em seguida, ao sol de forma gradual, até completar a abertura; agitar os frutos ajuda a liberar todas as sementes. Cada quilo reúne de 200 mil a cerca de 304 mil sementes, e 1 kg de frutos rende aproximadamente 20 g de sementes. A espécie não tem dormência, mas a imersão em água fria por 2 horas antes da semeadura pode acelerar a germinação. A viabilidade das sementes varia bastante: sementes guardadas por 60 dias germinaram metade do que as semeadas logo após a colheita; ainda assim, há registro de 45,5% de germinação após 22 meses de armazenamento e de apenas 17% após 1 mês. Em laboratório, os testes devem ser feitos em casa de vegetação climatizada (cerca de 25 ºC e 80% de umidade relativa) ou não climatizada (em torno de 30 ºC), faixas em que a germinação ficou entre 76,8% e 85,1%; recomenda-se semear sobre o substrato a temperaturas de 25 a 30 ºC.
A semeadura é feita em sementeiras, repicando-se as plântulas para sacos de polietileno de no mínimo 20 cm de altura por 7 cm de diâmetro, ou para tubetes grandes de polipropileno, de 4 a 8 semanas após a germinação. A germinação é epígea e começa entre 8 e 74 dias após a semeadura, com poder germinativo variável e irregular, de 20% a 85%. As mudas ficam prontas para o plantio cerca de 6 meses depois da semeadura; em sacos de polietileno, mudas acima de 50 cm de altura apresentam baixo pegamento no campo. O plantio com mudas de raiz nua tem boa porcentagem de pegamento, e recomenda-se sombrite com 50% de intensidade luminosa nos dias mais quentes.
Espécie heliófila que tolera sombreamento na fase jovem; resiste a baixas temperaturas, mas é sensível a geadas tardias, sendo que árvores adultas em floresta natural suportam até -10 ºC. Apresenta acamamento do caule, ramificação pesada, tendência a formar multitroncos e touceiras; o plantio sob vegetação matricial arbórea ou em espaçamento apertado corrige aos poucos a forma e evita ramificações precoces. Como não tem desrama natural, exige poda de condução para formar um único tronco, seguida de podas sucessivas para retirar os galhos grossos. Deve-se evitar o plantio puro a pleno sol, que provoca esgalhamento precoce; o ideal é o plantio misto, associado a espécies pioneiras ou em vegetação matricial, em faixas abertas na capoeira, em linhas ou grupos. Regenera-se por brotações vigorosas do toco e é recomendada para sistemas silvipastoris, como árvore de sombra para o gado. Pela beleza das flores, presta-se à arborização de rodovias, praças e parques. Na recuperação ambiental, é indicada para áreas de preservação permanente, encostas íngremes, margens de rios e solos permanentemente encharcados, suportando inundações periódicas curtas e encharcamento moderado, além de servir ao controle de voçorocas; em São Paulo, porém, mostrou baixa tolerância a inundação após 34 dias.
O crescimento é lento e varia conforme o sítio e os tratos culturais, com produtividade volumétrica máxima registrada de 5,00 m³/ha/ano aos 10 anos. Destacam-se as altas taxas de sobrevivência em plantios experimentais, que variaram de 72% a 100%.
A precipitação anual nas áreas de ocorrência vai de 700 mm, na Bahia, a 2.200 mm, em Santa Catarina; as chuvas são uniformes no Sul (exceto no norte do Paraná) e concentradas no verão nas demais regiões. A deficiência hídrica é nula no Sul e de moderada a forte na região central de Minas Gerais e no Planalto de Conquista (BA), com estação seca de 2 a 5 meses. A temperatura média anual fica entre 13,2 ºC (São Joaquim, SC) e 23,5 ºC (Itaperuna, RJ, e Senhor do Bonfim, BA); a média do mês mais frio varia de 9,4 a 20,7 ºC e a do mais quente de 17,2 a 26,6 ºC. A temperatura mínima absoluta chegou a -10,4 ºC em Caçador (SC), podendo atingir -15 ºC na relva. O número de geadas vai de 0 a 30 em média, com máximo absoluto de 57 no Sul. Os tipos climáticos de Köppen abrangem temperado úmido (Cfb), subtropical úmido (Cfa), subtropical de altitude (Cwa e Cwb) e tropical (Af e Aw).
Adapta-se indiferentemente a terrenos secos ou úmidos, rasos e pedregosos, com drenagem regular e textura que vai de franca a argilosa.